O partido de oposição na Venezuela liderado pela ex-legisladora exilada e ganhadora do Nobel María Corina Machado mobilizou voluntários em todo o país na semana passada para arrecadar doações para sobreviventes dos terremotos que ficaram desabrigados, mas encontrou um obstáculo inesperado: a Polícia Nacional.
Na quinta-feira (25), Heidy Loicett, liderança do partido de oposição Vente, estava sob uma lona azul em uma calçada em Portuguesa —estado a cerca de 440 quilômetros da zona do desastre— enquanto as pessoas passavam levando diversos itens, como fraldas, água engarrafada e roupas usadas.
A polícia também apareceu, disse ela. Vários policiais da Polícia Nacional da Venezuela e agentes da agência federal de Defesa Civil tentaram encerrar a campanha de arrecadação de doações, explicou ela em entrevista por telefone após o ocorrido.
Ela acrescentou que foi informada de que todas as doações deveriam ser canalizadas através do governo federal. “Disseram que não podíamos ter um centro de arrecadação, que o único ponto autorizado para receber doações era a Defesa Civil e o governo”, disse Loicett. “Isso foi perseguição política.”
O embate sobre quem deve receber o crédito pelos esforços de ajuda humanitária para a nação devastada pelos terremotos evidencia uma batalha muito maior e de alto risco pela sobrevivência política em uma Venezuela fragmentada.
Na semana passada, a Venezuela sofreu dois terremotos devastadores que mataram ao menos 1.450 pessoas, apenas seis meses depois de os militares dos EUA terem realizado uma incursão no país e capturado seu antigo líder, o ditador Nicolás Maduro.
Críticos dizem temer que a líder interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, politize a tragédia, usando a resposta ao desastre para consolidar sua legitimidade, em um momento crítico de virada.
O governo de Rodríguez, que não respondeu aos pedidos de comentário, afirmou que as autoridades estão tentando impor ordem e manter desobstruídas as áreas e estradas atingidas pelos terremotos, para que os comboios de ajuda e as equipes de emergência possam realizar seu trabalho sem impedimentos.
É também uma regra geral da política que figuras da oposição se apressem a apontar quaisquer falhas do partido governista.
Rodríguez era vice-presidente antes de os Estados Unidos capturarem Maduro e anunciarem que administrariam o país, elevando-a ao cargo máximo. Sua permanência no poder depende da aprovação do governo Trump, e a forma como ela lida com essa crise também representa um momento decisivo para o presidente americano.
Autoridades da Casa Branca afirmaram que a aliança com Rodríguez visava estabilizar a Venezuela e ajudar a reanimar sua economia combalida. É provável que o desastre submeta essa relação a um teste rigoroso.
Especialistas afirmam que restringir o controle sobre a ajuda e sufocar os esforços de assistência de base da oposição é uma tática típica de manuais autoritários de longa data.
Segundo eles, Rodríguez aposta que a gestão internacional da crise poderá mascarar a deterioração interna do Estado e garantir sua manutenção no poder. Essa estratégia ficou evidente em um vídeo amplamente divulgado, no qual um policial parece indicar a voluntários onde o Partido Socialista Unido da Venezuela —o partido governista— havia autorizado a entrega de doações.
Segundo ativistas políticos, centros de coleta de doações montados pela oposição em outras cidades foram informados de que não poderiam exibir placas com os dizeres “Centro de Doação”, pois esses termos eram de uso exclusivo dos locais de coleta autorizados pelo regime.
“Disseram-nos que não podíamos usar as palavras ‘centro de doação’, como se tivessem registrado a marca desses termos”, disse María Oropeza, dirigente do partido Vente. “É inevitável que tentem usar essa tragédia a seu favor para se manterem no poder.”
Dirigentes do partido afirmaram que a polícia recuou depois que multidões começaram a se aglomerar e a fazer filmagens. Os voluntários retiraram os sinais de alerta, e a operação prosseguiu.
Voluntários da oposição planejavam tentar realizar entregas na zona atingida pelos terremotos durante o fim de semana, mas as autoridades anunciaram que civis sem autorização seriam proibidos de entrar em La Guaira, a área costeira mais afetada.
Autoridades do governo afirmaram que o grande fluxo de voluntários na zona do desastre estava bloqueando o tráfego, o que era crucial para a movimentação de maquinário pesado.
“Aqueles que não têm funções de resgate ou segurança no estado de La Guaira devem, por favor, abster-se de viajar para lá, pois estão obstruindo a movimentação de pessoal necessário para que nossas forças militares, policiais, a Defesa Civil, bombeiros e equipes de resgate cheguem à zona do desastre”, disse Rodríguez. “São horas críticas.”
Ela pediu unidade em meio à crise e recebeu diversas delegações internacionais de busca e resgate, incluindo aquelas enviadas pelos governos de direita de El Salvador e da Argentina.
A decisão de Rodríguez de aceitar ajuda de adversários políticos evidenciou o delicado equilíbrio entre projetar uma imagem de gestão eficaz do desastre e ganhar pontos políticos antes de possíveis eleições, afirmou Pablo Quintero, consultor político que diz trabalhar principalmente com a oposição na Venezuela.
“Diante de catástrofes, os governos agem com base em interesses políticos”, disse ele. “Neste caso, o governo chavista age para ganhar maior destaque, demonstrar sua capacidade de gestão à comunidade internacional e, de certa forma, transmitir à população a mensagem de que conseguiu unificar o país.”
Mas Machado também age em prol de seus próprios interesses, acrescentou ele.
“María Corina Machado tem uma agenda política”, disse ele. “E a realidade objetiva é que suas equipes de comunicação estão conduzindo uma campanha para demonstrar a incompetência do governo.”
Segundo relatos, Machado tentava retornar à Venezuela, o que frustrou algumas autoridades dos EUA; elas consideraram que um retorno em meio a uma emergência seria uma “manobra política”, informou o New York Times no sábado (27).
Um porta-voz de Machado informou que ela não estava disponível para comentar o assunto. Rodríguez, na qualidade de vice-presidente de Maduro responsável pela economia, fazia parte de um governo repressivo que fraudou uma eleição presidencial em 2024.
Após a operação dos EUA em janeiro que removeu Maduro, mas permitiu que Rodríguez permanecesse como líder interina, o governo Trump afirmou que a Venezuela caminharia, eventualmente, para eleições e para a restauração da democracia. O desastre que assola a Venezuela pode atrasar essa transição, segundo especialistas.
“É difícil imaginar que Delcy não vá usar os terremotos para adiar as discussões sobre uma transição democrática; parte disso é certamente legítimo diante de uma emergência humanitária de tamanha magnitude”, disse Cynthia Arnson, professora adjunta da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins.
Mas as coisas podem não sair como ela espera, disse Arnson.
“Os efeitos políticos de desastres naturais costumam ser graves”, afirmou ela. “Semanas ou poucos meses após a emergência imediata, é provável que os terremotos evidenciem ainda mais a incapacidade do governo de atender às necessidades básicas, muito menos de empreender qualquer tipo de reconstrução.”
Benigno Alarcón, ex-diretor do Centro de Estudos de Governo e Política da Universidade Católica Andrés Bello, disse não haver “dúvida” de que Rodríguez tentaria tirar proveito político da catástrofe —e ela não seria a primeira a fazê-lo.
Ele afirmou que muitos venezuelanos ainda se lembram dos deslizamentos de terra de 1999 na região afetada pelo terremoto —incluindo La Guaira—, quando o então líder do partido governista, Hugo Chávez, recusou a ajuda humanitária oferecida pelas forças armadas dos EUA.
“Lembre-se de que não são pessoas novas no poder”, disse ele. “Essas pessoas do governo estão no poder há muito tempo”.




