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Venezuela: Engenheiros pedem auditoria após terremotos – 29/06/2026 – Mundo

Quando o falecido líder venezuelano Hugo Chávez construiu o conjunto habitacional litorâneo que leva seu nome, como parte de sua revolução socialista, os moradores encontraram uma nova oportunidade de recomeço depois que inundações mortais haviam devastado a região mais de uma década antes.

Mas depois que dois terremotos consecutivos destruíram partes do complexo de 1.100 unidades na quarta-feira (24), engenheiros estão pedindo à ditadura venezuelana que faça rapidamente uma inspeção em conjuntos habitacionais públicos semelhantes que ainda estão de pé.

“Perdi meu apartamento inteiro”, disse Yelsa Rojas, que desde 2015 mora no segundo andar do prédio conhecido coloquialmente como “Los Cocos”, devido à sua proximidade com uma praia de mesmo nome.

“Achamos que todos no segundo andar estão mortos”, disse, acrescentando que a única razão pela qual está viva é porque estava em uma consulta médica quando os terremotos ocorreram.

Embora engenheiros e especialistas em construção tenham afirmado que ainda é cedo para determinar exatamente por que cada prédio desabou, décadas de negligência, a falta de fiscalização do cumprimento dos códigos de construção e práticas de licenciamento precárias durante os governos de Chávez e de seu sucessor, Nicolás Maduro, provavelmente agravaram o custo humano do desastre.

Eles também apontaram a instabilidade do solo no estado mais atingido, La Guaira, onde fica “Los Cocos”, o que torna o local especialmente arriscado para construções.

Enquanto as equipes de resgate correm para encontrar as pessoas soterradas nos escombros, os engenheiros civis temem que outros prédios ainda possam estar vulneráveis após os terremotos e querem ajudar o regime a garantir que eles estejam estruturalmente sólidos e que os moradores possam viver neles com segurança.

Até o momento, a ditadura se reuniu com a principal associação de engenheiros do país, mas ainda não iniciou as avaliações, o que tem frustrado alguns.

“É criminoso que o governo não esteja aceitando as propostas dos engenheiros e das universidades com mais rapidez”, afirmou Enrique Larrañaga, arquiteto e urbanista da Universidade Simón Bolívar, que tem prestado assessoria ao regime em questões de desenvolvimento nacional.

O Ministério da Comunicação da Venezuela não respondeu a um pedido de comentário. No domingo (28), a líder interina Delcy Rodríguez anunciou que estava formando uma comissão para avaliar as estruturas habitacionais danificadas. Ela não informou quando as avaliações teriam início.

O regime já vem sendo criticado por não ter mobilizado mais cedo os equipamentos pesados e as equipes de busca e resgate tão necessários. Isso deixou os moradores por conta própria, usando as próprias mãos, pás e cordas enquanto se esforçavam para encontrar parentes nos primeiros dias cruciais após o desastre.

No sábado, a TV estatal mostrou equipamentos pesados de construção vasculhando os escombros de tijolos e concreto. Moradores disseram que equipes de resgate estrangeiras os ajudaram a retirar corpos e pediram reforços.

Larrañaga disse que muitos empreendimentos, apressados pelo regime por motivos políticos, revelaram-se riscos à segurança ao longo dos anos, enquanto o país também perdeu grande parte de seu conhecimento em engenharia durante o colapso econômico que começou em 2013. “Eles precisam dar às pessoas que têm esse conhecimento acesso à informação e aos recursos.”

Como o regime ainda não iniciou suas próprias avaliações, engenheiros voluntários têm oferecido seus serviços aos cidadãos, disse Glennys Gonzalez, arquiteta e engenheira civil que coordena dezenas de profissionais.

A avaliação inicial dos danos feita por seu grupo sugere que, em muitos casos, as normas não foram respeitadas, mas é preciso realizar estudos para determinar por que algumas estruturas resistiram ao impacto e outras desabaram completamente, afirmou Gonzalez.

La Guaira também foi palco de outro dos piores desastres naturais da Venezuela, quando deslizamentos de terra arrasaram comunidades costeiras inteiras em 1999, matando entre 10 mil e 30 mil pessoas.

Como as montanhas íngremes descem abruptamente até uma estreita faixa costeira na região, inundações e deslizamentos de terra tendem a se canalizar diretamente por áreas populosas, disse Richard Casanova, diretor do Colégio de Engenheiros da Venezuela, a principal associação profissional que assessora o regime.

Essa geografia apresenta solo solto, acrescentou ele, tornando-a particularmente propensa à destruição durante os dois terremotos. Mais de 50 mil pessoas morreram na Turquia e na Síria quando foram atingidas por um fenômeno semelhante em 2023.

Quatro dias após os terremotos de magnitude 7,2 e 7,5, autoridades venezuelanas confirmaram no domingo (28) pelo menos 1.450 mortos e 3.150 feridos. Iniciativas lideradas por cidadãos para registrar os desaparecidos já coletaram quase 50 mil nomes.

Fonte: Folha de São Paulo

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