Na quinta-feira (25), a cidade de Chengdu recebeu delegações de 26 países para o Dia do Espaço da China, a principal vitrine anual do programa espacial chinês. Pequim exibiu pela primeira vez amostras de solo lunar das faces visível e oculta da Lua e reservou ao Brasil o posto de convidado de honra.
A homenagem é merecida, mas também um lembrete incômodo de quanto o país depende da parceria que celebra.
A cooperação sino-brasileira nasceu em 1988 com o programa CBERS, de satélites de observação da Terra. Os dois países queriam deixar de comprar imagens a preço de dólar de plataformas americanas e europeias. A China bancou mais de 70% dos custos iniciais, um investimento estimado em US$ 300 milhões.
O Brasil se tornou o maior distribuidor gratuito de imagens de sensoriamento remoto do mundo. O Ibama construiu sobre esses dados boa parte da sua capacidade de fiscalizar desmatamento, enquanto a Secretaria da Fazenda de Goiás passou a cruzar imagens orbitais com declarações de produtores para flagrar fraudes fiscais.
O que o programa não entregou foi autonomia industrial. Em 38 anos, o Brasil aprendeu a operar satélites e a tratar dados, mas não a fabricar o hardware que os coloca em órbita.
Quando o terceiro governo Lula decidiu acelerar a parceria, firmando em 2023 o protocolo do CBERS-6 com radar de abertura sintética e reconfigurando o CBERS-5 para órbita geoestacionária, o efeito colateral foi aprofundar a dependência de componentes, lançadores e financiamento externo.
Enquanto a cooperação se adensava, o ambiente geopolítico também fechou. Em fevereiro, um comitê bipartidário do Congresso dos Estados Unidos publicou relatório acusando a China de usar estações terrestres e radiotelescópios na América Latina, incluindo no Brasil, para fins de inteligência militar. O documento citou o BINGO, radiotelescópio em construção na Paraíba com participação do conglomerado estatal chinês CTEC.
Brasília aposta que Washington precisa do Brasil em frentes mais urgentes, como minerais críticos e clima, e que os Estados Unidos não farão do espaço um ponto de ruptura. Pode até estar certa no curto prazo, mas as restrições já são concretas.
O Acordo de Salvaguardas firmado para Alcântara limita o trânsito de tecnologia chinesa no centro de lançamento e a Emenda Wolf proíbe a Nasa de cooperar com entidades do regime chinês. O próprio Brasil assinou os Acordos Artemis em 2021, aceitando o arcabouço dos Estados Unidos para exploração lunar enquanto a China ergue com a Rússia uma estação lunar concorrente.
O programa CBERS provou que cooperação Sul-Sul entrega resultados concretos, mas o Brasil confundiu parceria com estratégia. Trinta e oito anos depois, continua sem produzir lançadores ou semicondutores aeroespaciais próprios. Precisa da China para colocar satélites em órbita e dos Estados Unidos para que Alcântara atraia contratos.
É uma posição que só funciona enquanto os dois lados tolerarem a ambiguidade, o que já não é o caso há muito tempo. Nesse ínterim, o assento de honra em Chengdu foi um gesto de prestígio, mas isso infelizmente ainda não substitui indústria.
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