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Cabo Verde já ganhou a Copa do Mundo – 09/06/2026 – Rui Tavares

José Ramos-Horta, vencedor do prêmio Nobel da Paz e presidente de Timor-Leste, escreveu nas suas redes sociais: “Anuncio publicamente, e sei que isso pode custar-me as próximas eleições: Apoio a seleção nacional cabo-verdiana“. Para um leitor brasileiro, imagino que o sentido da declaração não se alcance de primeira.

Os timorenses são adeptos fanáticos da seleção portuguesa, como descreve o próprio Ramos-Horta: “Euforia, celebrações, desfiles nas ruas, madrugada em Timor-Leste. Rezam a Deus para abençoar a seleção nacional portuguesa… é quase luto nacional quando Portugal perde”.

A ligação é das tais que o colonialismo deixou emaranhadas e que são difíceis de desenlear. Timor teve uma colonização portuguesa com episódios de repressão intercalados com abandono; depois da invasão indonésia de 1975 e do genocídio que se seguiu, estima-se que talvez um terço da população tenha perecido.

Foi então que a bandeira da República Portuguesa, chamada por muitos timorenses de “lulik” (sagrada), serviu para mobilizar a população contra a ocupação. Os timorenses lutaram bravamente pela sua independência e são orgulhosos patriotas da sua própria bandeira. Mesmo assim, no futebol a bandeira portuguesa ainda é dominante.

Diz Ramos-Horta: “Desde ontem que pergunto aos mocinhos que vendem bandeiras nas ruas se têm a bandeira de Cabo Verde e ninguém tem. Quero pôr no meu carro, uma bandeira grande. Tenho as medidas exactas e vou pedir ao meu alfaiate preferido para me fazer uma bandeira de Cabo Verde”.


Porque escolheu Ramos Horta essas ilhas no meio do Atlântico, do outro lado do mundo da sua meia-ilha entre o Índico e o Pacífico? Durante as décadas em que correu o mundo a denunciar o esquecimento a que Timor fora votado, os apoios que encontrou não vieram dos grandes, mas dos pequenos: Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e aliados como os palestinos e os sarauís. E talvez seja ainda porque o seu avô, deportado de Portugal por ser anarquista, passou por Cabo Verde antes de parar em Timor.

É de Cabo Verde que escrevo. O entusiasmo aqui com a estreia na Copa só se compara ao enorme feito já alcançado pela seleção dos “tubarões azuis”. Um arquipélago de meio milhão de habitantes foi buscar os seus jogadores na diáspora e montou uma seleção temível que galvanizou uma torcida bem-humorada.

Os tubarões azuis bateram Camarões, oito vezes mundialista. No Estádio Nacional da Praia, no dia do jogo, um tubarão inflável devorava um camarão. A classificação no seu grupo africano foi em primeiro lugar e sem hesitações.

A presença nesta Copa reata laços com a história da emigração cabo-verdiana. Os baleeiros norte-americanos que cruzavam o oceano atrás das baleias recrutavam marinheiros nas ilhas e levavam-nos para a Nova Inglaterra. Centenas de milhares de cabo-verdianos povoam hoje Massachusetts, Rhode Island e Connecticut. Cabo Verde vai jogar em casa de muita da sua própria gente.

Ramos-Horta disse que apoiará também Portugal e Brasil. Eu estou com ele. Mas uma coisa eu sei: ao contrário de Brasil e Portugal, Cabo Verde já ganhou esta Copa.


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Fonte: Folha de São Paulo

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