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Haiti, o ponto zero da humanidade – 07/01/2026 – Ciência Fundamental

Durante muito tempo, acreditou-se que a razão morasse na França, a civilização, na Grécia, o humanismo, na Itália. Os demais países seriam a periferia do mundo e deveriam ter o progresso europeu como farol.

As palavras reivindicadas pela Europa eram grandiosas: liberdade, igualdade, fraternidade. Mas “os outros”, nas colônias, não foram convidados para o banquete que deu vida ao iluminismo, e essa ausência sedimentou o presente. O “universal” do humanismo europeu sempre teve um defeito de fábrica: prometia liberdade, deixando de incluir corpos negros, indígenas, migrantes, femininos no mapa da humanidade.

Enquanto a Revolução Francesa celebrava essa liberdade, mais de meio milhão de escravizados trabalhavam em São Domingos (atual Haiti). Em 1804, porém, o Haiti respondeu com uma contrarrevolução e proclamou sua independência, tornando-se o primeiro país a abolir a escravidão no mundo, gesto que não só libertou corpos, mas deslocou o eixo da humanidade.

Surpreso com essa ousadia, o mundo dito civilizado preferiu silenciar. E o Haiti foi punido com séculos de isolamento, sanções e representações caricaturais de sua força. Tornou-se um país pobre e instável, ou melhor: um castigado exemplar por ter desafiado a ordem vigente.

Mais de dois séculos depois, retomamos essa história no podcast O Haiti é também aqui. Buscamos fazer o que a ciência hegemônica raramente faz: pensar o mundo a partir de outros paradigmas.

Ao misturar história, política, memória e autobiografia, criamos uma narrativa feita do conhecimento que não vem das enciclopédias, mas faz da travessia o seu laboratório. Inspirados pela pensadora guarani Geni Núñez, nossa proposta consiste em “reflorestar” o imaginário e a própria noção de humanidade.

Apresentamos uma lição que até hoje não coube nos livros didáticos. Tudo o que julgamos saber sobre o Haiti é fruto de um projeto de apagamento. No material escolar brasileiro, ele sempre aparece como um país pobre, vítima de instabilidade política e catástrofes naturais.

E se, no entanto, entendêssemos a noção de humanidade não a partir da Revolução Francesa, mas do eco vindo do Caribe? Assim, ainda que tardiamente, descobriríamos que “liberdade, igualdade e fraternidade” são palavras que ganharam corpo e ritmo numa ilha negra que mudou o curso da história ao colocar um ponto final na escravidão enquanto sistema legal.

Para nós, o ponto zero da humanidade não está em Atenas, Paris ou Roma, mas em Bois Caïman, onde em 1791 um grupo de pessoas escravizadas, guiadas pela força de sua religião crioula, o vodu, mostrou ao mundo como buscar ser livre, dando início à Revolução Haitiana. O Haiti é também aqui não é só um título, é uma provocação. Porque a história do país não começou nem terminou na ilha: ela se desdobrou no efeito cascata que a abolição causou em toda a América Latina.

O Ciência Fundamental é editado pelo Serrapilheira, um instituto privado, sem fins lucrativos, de apoio à ciência no Brasil. Inscreva-se na newsletter do Serrapilheira para acompanhar as novidades do instituto e da coluna.


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Fonte: Folha de São Paulo

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