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HomeMundoBrasileira que denunciou Epstein passou a dormir armada - 09/06/2026 - Mundo

Brasileira que denunciou Epstein passou a dormir armada – 09/06/2026 – Mundo

Quando Marina Lacerda contou ao mundo que Jeffrey Epstein abusara sexualmente dela aos 14 anos, as ameaças começaram imediatamente.

Em setembro de 2025, ela e outras vítimas participaram de uma entrevista coletiva pressionando pela divulgação dos arquivos de Epstein. “Ela vai ser eliminada”, escreveu um desconhecido sob um vídeo do YouTube de uma reportagem sobre Lacerda naquele dia. “Ela realmente deveria ter ficado quieta. Descanse em paz.”

O assédio se intensificou quando seu nome apareceu pelo menos 46 vezes em documentos do Departamento de Justiça meses depois. Na internet, foi chamada de mentirosa e prostituta e ouviu que mereceu o que aconteceu com ela. Sua filha de 12 anos foi provocada na escola por colegas que perguntavam se ela era filha de Epstein.

Hoje, Lacerda afirma que vive com a menina em um condomínio fechado e dorme com uma arma na mesa de cabeceira. “Tenho medo de que alguém invada a casa”, diz. “Estou paranoica o tempo todo.”

Lacerda é uma das 23 mulheres identificadas pela Reuters como acusadoras do financista bilionário que enfrentaram ameaças, assédio e intimidação por trolls, haters e outros inimigos —algumas após falarem publicamente sobre seus abusos, outras após suas identidades serem expostas nos arquivos do governo americano.

Em pelo menos 6.250 casos, nomes, endereços, números de telefone, datas de nascimento e fotos apareceram sem censura na divulgação dos arquivos do Departamento de Justiça, expondo as identidades de pelo menos 177 mulheres, disse Brittany Henderson, cujo escritório de advocacia na Flórida representa pelo menos 250 acusadoras de Epstein.

A Reuters não conseguiu verificar essa contagem. Mas o governo americano afirmou, em fevereiro, aos juízes que supervisionam os casos, que havia retirado “vários milhares de documentos e mídias que podem ter incluído inadvertidamente informações de identificação de vítimas”.

O assédio assumiu muitas formas. Desconhecidos fotografaram suas casas. Carros estacionavam na porta e arrancavam em alta velocidade quando confrontados. Algumas mulheres receberam ameaças de violência, incluindo ligações de pessoas que afirmavam saber onde elas moravam. Várias dizem que não saem mais de casa sozinhas.

O governo americano disse que tomou medidas para proteger informações das vítimas após divulgar milhões de páginas de arquivos investigativos relacionados a Epstein em dezembro e janeiro e que agiu rapidamente para corrigir erros de censura quando notificado.

Questionada pela Reuters, a porta-voz do Departamento de Justiça, Natalie Baldassarre, disse que “nenhuma vítima deveria enfrentar assédio, ameaças ou intimidação após se manifestar”. Ela acrescentou que o departamento “não é culpado pela reação negativa direcionada às vítimas que voluntariamente revelaram suas identidades muito antes da publicação dos arquivos”.

Pam Bondi, a ex-secretária de Justiça que o presidente dos EUA, Donald Trump, demitiu em abril, reconheceu “erros de censura” em depoimento ao Congresso em 29 de maio. Ela disse que havia delegado a responsabilidade pela divulgação dos documentos ao seu então vice, Todd Blanche.

As acusadoras enfrentam um cálculo delicado: falar pode chamar atenção para abusos que ficaram impunes por muito tempo, mas também expô-las. Pelo menos dez das mulheres entrevistadas pela Reuters disseram que agora possuem armas —incluindo pistolas, tasers, spray de pimenta ou facas— ou usam segurança armada para proteção.

Quase todas descreveram viver em constante estado de vigilância. Quatro contaram à Reuters que denunciaram ameaças à polícia, mas os casos não resultaram em processos porque as autoridades não conseguiram identificar suspeitos ou determinar que um crime havia ocorrido. Um caso permanece sob investigação ativa, disse a polícia.

Outras disseram que optaram por não contatar as autoridades, citando desconfiança enraizada no que viram como falhas passadas em agir sobre suas denúncias de abuso.

As motivações daqueles que as ameaçam variam de culpabilização da vítima a teorias da conspiração. As mulheres atraíram críticas de todo o espectro político —às vezes por votar em Trump, mais frequentemente por criticar seu tratamento dos arquivos de Epstein ou por sugerir que ele está encobrindo informações. Trump foi amigo de Epstein por anos. Ele negou saber sobre os crimes sexuais do financista.

Algumas vítimas são acusadas de buscar dinheiro ou atenção, rotuladas como prostitutas ou oportunistas. Outras, particularmente as da Rússia ou do Leste Europeu, foram chamadas de espiãs estrangeiras. Trolls questionam por que algumas mulheres voltaram a Epstein após serem abusadas; outros dizem que mulheres que tinham 18 anos ou mais quando foram vitimadas têm argumentos fracos.

Mesmo aquelas menores de idade na época enfrentaram críticas. Alguns assediadores sugerem que elas deveriam ter entendido os riscos ou culpam seus pais por não protegê-las.

Epstein se declarou culpado na Flórida em 2008 por acusações de prostituição, incluindo solicitar uma menor de idade, em um acordo que resultou em ele passar 13 meses na prisão. Preso novamente em julho de 2019 sob acusações federais de tráfico sexual envolvendo menores em Nova York e na Flórida, ele morreu em uma prisão de Manhattan. Sua morte foi considerada suicídio.

Cerca de US$ 425 milhões foram pagos a pelo menos 200 vítimas por meio de um fundo de compensação, acordos com seu espólio e com bancos acusados de facilitar o abuso.

Em 2004, Danielle Bensky tinha 17 anos quando foi contratada como massagista na mansão de Epstein em Nova York. Quando ela contou ao financista que sua mãe havia recebido diagnóstico de tumor cerebral, Epstein teria ameaçado usar sua influência com hospitais de Nova York para interferir no tratamento de sua mãe, a menos que ela cedesse às suas exigências sexuais. Ela disse que levou a ameaça a sério e que o abuso continuou por cerca de um ano.

Em abril de 2021, Bensky se expôs publicamente, identificando-se como vítima. Mas foi somente quando o Departamento de Justiça começou a divulgar os arquivos que ela começou a receber ameaças violentas.

“Isso coloca as sobreviventes em uma situação em que você se sente destroçada”, disse Bensky sobre os erros do Departamento de Justiça. “Agora estou sempre muito mais cautelosa e olhando por cima do ombro.”

Audra Lynn Fasano, ex-modelo da revista Playboy, disse que Epstein a estuprou também em 2004. Ela tornou pública sua acusação em julho de 2025, quatro anos depois de denunciar Epstein ao FBI. Em fevereiro, seu status de ex-modelo da Playboy apareceu sem edição nos arquivos. Seu código postal também ficou brevemente aparente.

Logo depois, veículos desconhecidos passaram a rondar sua casa. Um estacionou perto da entrada, mas foi embora quando ela começou a gravá-lo. Em maio, o departamento republicou o documento com o detalhe da Playboy editado.

Outra mulher, que nunca se identificou publicamente como acusadora de Epstein e falou com a Reuters sob condição de anonimato, disse que avistou um estranho em março fotografando sua casa depois que seu nome e os de familiares apareceram sem edição nos arquivos. O problema levou um mês para ser corrigido.

As censuras mal feitas geraram ação judicial. Em março, uma acusadora entrou com uma ação coletiva em tribunal federal contra o Departamento de Justiça e o Google pela “divulgação e republicação indevidas” de informações pessoais nos arquivos de Epstein.

O processo, movido por uma mulher cuja identidade é mantida em sigilo nos autos judiciais, afirma que o governo “expôs aproximadamente cem sobreviventes” em violação à Lei de Privacidade de 1974, que proíbe a divulgação de informações pessoais sem consentimento.

O Google, segundo a queixa, republicou os dados, “tornando-os permanentes e globalmente acessíveis”. O processo busca uma ordem exigindo que a big tech remova e pare de exibir as informações pessoais, bem como indenizações, incluindo pelo menos US$ 1.000 por vítima do governo federal. A queixa afirma que as divulgações levaram a assédio e ameaças à segurança das vítimas.

O Departamento de Justiça e o Google não emitiram uma resposta formal no tribunal ao processo. Ambos se recusaram a comentar esta reportagem.

Fonte: Folha de São Paulo

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