A Suíça decide em plebiscito, neste domingo (14), se o país quer um limite populacional de 10 milhões de habitantes. Pelo ritmo atual, a marca seria alcançada em 2040; para evitá-la, o governo, anos antes, seria instado a impedir a entrada de imigrantes ou convidá-los a sair do território alpino.
Em uma Europa que se debate com o problema há décadas, a proposta, inédita no mundo, atrai e apavora políticos, empresários e eleitores em todo o continente.
À frente da novidade, o Partido Popular Suíço (SVP, na sigla em alemão) afirma que a infraestrutura do país está chegando ao limite, com transporte público sobrecarregado e congestionamentos em estradas. A legenda populista de direita, em busca de uma base de votos maior, vende o “sim” no plebiscito como uma medida de sustentabilidade.
Com 41.285 km², área menor do que dois Sergipes, a Suíça é um dos países que mais cresce em termos populacionais na Europa. Apenas nas últimas duas décadas, um salto de quase 22%, contra pouco mais de 5% da média da União Europeia. Um movimento alimentado sobretudo pela imigração de trabalhadores qualificados.
De seus 9,1 milhões de habitantes atuais, 31% não nasceu no país, segundo o escritório de estatísticas Eurostat. Boa parte vem da UE desde que a Suíça se tornou signatária do Espaço Schengen, em 2002, um acordo que prevê a livre circulação no continente.
Afrontar uma das bases de funcionamento do bloco europeu seria o primeiro de muitos dos efeitos colaterais de uma vitória do “sim”. Foi graças ao livre trânsito que uma miríade de empresas internacionais se instalou no país, atraindo pessoal de formação elevada.
Gente que não apenas ocupou postos de trabalho como criou outros. De acordo com levantamento de uma consultoria local, 39% dos fundadores de empresas suíças são estrangeiros.
Junto vieram problemas, como o custo habitacional, que disparou nos centros urbanos nas últimas décadas. O preço do metro quadrado de Zurique, € 18.299 (R$ 107.320), já é quase o dobro do de Paris, crescendo só no ano passado 4,16%. Das 5 cidades mais caras no ranking anual do Global Property Guide, 4 são suíças.
Em contrapartida, reverter o processo tiraria 7,1% do crescimento do país de 2028 a 2045, segundo estudo da BAK Economics. Mesmo que a proposta a ser votada tenha prazos, o baque de uma proibição teria consequências imediatas, como a queda de investimentos.
Previsões parecidas afloram desde abril, quando pesquisas de opinião apontaram empate de 47% a 47% entre quem se diz a favor do projeto e quem o rejeita. O assunto começou a ser tratado como um brexit, não apenas pelo desastre financeiro e político que a medida significou para o Reino Unido, como também pelo próprio risco de aprovação. Em maio, a campanha em favor da rejeição parece ter surtido efeito, deixando o placar em 52% a 45%, de acordo com levantamento encomendado pela emissora pública SRG.
A Suíça, no entanto, não foge do roteiro europeu de imputar à imigração boa parte dos problemas. Esta semana, por exemplo, foi marcada pela espiral de violência em Belfast detonada pelas imagens de um ataque a faca perpetrado por um refugiado sudanês. Incentivados indiretamente por postagens de políticos de extrema direita e até pelo bilionário Elon Musk, vigilantes caçaram imigrantes em suas casas.
Secretário de Estado do governo britânico para a Irlanda do Norte, Hilary Benn chegou a dizer que as cenas atuais lhe fizeram lembrar o passado conflituoso do país.
Na União Europeia, ganha corpo uma nova legislação sobre o assunto, que permitirá aos países-membros recrudescer a política imigratória, acelerando processos de deportação e o envio de solicitantes de asilo a “hubs de retorno” em países fora do bloco.
Ainda que o debate suíço pareça civilizado perto de tais atos e medidas, o sentimento de preconceito e xenofobia está presente. Pior, dizem observadores, desta vez não está restrito ao populismo de direita.
Também seduz setores do centro político: sociais-democratas, preocupados com os efeitos da crise imobiliária sobre seus eleitores, e verdes, que vislumbram um caminho, ainda que torto, de preservação ambiental.
“Metade das exportações da Suíça são para a Europa. Temos acordos bilaterais e, se quisermos mantê-los em vigor, a UE insiste que a livre circulação de mercadorias esteja associada também à livre circulação de pessoas. Portanto, se dermos um tiro no próprio pé ao dificultar metade das nossas exportações, isso será péssimo”, afirma Christian Koch, nascido na Alemanha, mas com três passaportes no bolso, um deles suíço.
Funcionário de uma companhia de investimentos em Zurique, Koch não nega os impactos do vertiginoso crescimento no número de imigrantes no país nas últimas décadas, mas pondera que a Suíça depende do fluxo de trabalhadores estrangeiros para construção civil, setor de serviços e diversos outros trabalhos “que os suíços não querem fazer.”
Ou que o país simplesmente não consegue preencher sozinho, como na área da saúde: 52% do corpo clínico suíço é composto por médicos alemães.
Koch lembra que consultas como a de domingo já aconteceram no passado. A diferença, desta vez, é o efeito sobre a classe média de uma rara, mas incômoda alta da inflação. “Ainda assim, o voto popular em geral é o começo de alguma coisa, não o fim”, pondera.
Se aprovado, o mecanismo teria de ser submetido também aos 26 cantões, equivalentes a estados, porém com muito mais peso, sem mencionar contestações judiciais. “É possível, inclusive, outro plebiscito”, diz o financista, lembrando de uma opção que os britânicos não têm com o brexit.
Frequentemente criticada no exterior, a versão suíça de democracia direta, que consulta a população sobre os mais variados assuntos quatro vezes por ano, parece ser uma vantagem em assuntos divisivos como este do teto populacional, acredita Koch. “Vota-se no assunto, não no partido. Eles não ganham poder demais.”




