Quando uma das superpotências medievais tentou controlar o chefe da Igreja Católica, há cerca de 700 anos, o resultado foi um “exílio” do papado que durou décadas, seguido de uma crise na qual até três papas simultâneos chegaram a disputar o mando dos fiéis.
Nesse período conturbado, os pontífices simplesmente abandonaram Roma e se instalaram na cidade fortificada de Avignon, no sul da atual França. A mudança, traumática tanto no seu começo quanto no fim, ficaria conhecida como “cativeiro da Babilônia” (uma alusão ao exílio dos judeus no território mesopotâmico depois da destruição de Jerusalém, em 586 a.C.).
A reputação papal e a unidade do catolicismo saíram muito arranhadas do episódio, estimulando movimentos críticos à supremacia dos papas que, mais tarde, foram parte da inspiração para a Reforma protestante.
O momento histórico voltou ao debate recente depois que aliados do governo Donald Trump evocaram o episódio para pressionar o Vaticano, sugerindo um paralelo entre a tentativa de subordinar o papado no século 14 e as tensões atuais entre a Casa Branca e a Santa Sé.
Os eventos que desembocaram no “cativeiro da Babilônia” começaram no papado do italiano Bonifácio 8º, que governou a Igreja de 1294 a 1303. Assim como seus predecessores, Bonifácio argumentava que os papas tinham autoridade sobre todos os governantes seculares (isto é, não religiosos), cuja obrigação era garantir os direitos da Igreja.
Não era essa, porém, a visão de Filipe 4º, também conhecido como “o Belo”, rei da França. O monarca exigiu que os religiosos de seus domínios pagassem um imposto para ajudar a financiar uma guerra no território da Gasconha, na atual fronteira entre França e Espanha.
Em resposta, o papa primeiro publicou um documento negando que Filipe ou qualquer outro rei tivesse algum direito sobre as propriedades da Igreja e, mais tarde, afirmou: “É estritamente necessário para a salvação que toda criatura humana esteja sujeita ao Pontífice Romano [ou seja, ao papa]”.
Bonifácio, entretanto, não tinha aliados fortes o suficiente para colocar essas medidas em prática. Ele estava prestes a excomungar Filipe, o Belo (ou seja, ia “suspender” sua pertença à comunidade cristã) quando soldados franceses, aliados a cardeais rebeldes, invadiram seu palácio em Anagni, perto de Roma, para ameaçá-lo, chegando a prendê-lo por três dias.
“Bonifácio nunca se recuperou do choque. Voltou para Roma traumatizado, vagando por seus aposentos, gritando por conta da raiva e da humilhação que sofrera”, escreve o historiador irlandês Eamon Duffy, da Universidade de Cambridge, em “Santos e Pecadores: Uma História dos Papas”.
O papa morreu um mês depois do episódio. O sucessor de Bonifácio ficou apenas nove meses no cargo e, no conclave seguinte, surgiram dois grupos entre os cardeais: os que queriam continuar a disputa contra a França, e os que desejavam fazer a paz com a Coroa francesa.
Após mais 11 meses de impasse na eleição papal, o vitorioso foi Bertrand de Got, arcebispo de Bordeaux. O novo papa, que adotou o nome pontifical de Clemente 5º, era de origem francesa e aceitou ser coroado em Lyon como forma de reatar laços com Filipe 4º.
“Ele permaneceu na França, em parte por causa da situação política caótica na Itália central, em parte na esperança de negociar a paz entre França e Inglaterra [que estavam em guerra]”, explica Duffy.
Com isso, Clemente se mudou para Avignon em 1309 e, aos poucos, toda a burocracia papal começou a se transferir para a região também. Em tese, Avignon podia ser vista como território neutro, já que a região não era oficialmente parte do reino da França, estando subordinada ao Sacro Império Romano-Germânico (com sede na atual Alemanha).
Na prática, porém, a proximidade com os territórios franceses deixava os papas constantemente vulneráveis à pressão da monarquia francesa. Isso ficou claro logo depois da mudança, quanto Filipe praticamente coagiu Clemente 5º a condenar por heresia a Ordem dos Cavaleiros Templários (à qual Filipe devia dinheiro). Diversos templários acabaram sendo condenados à fogueira.
Todos os papas de Avignon que vieram depois também eram franceses, assim como a esmagadora maioria dos cardeais (112 de um total de 134) que eles foram escolhendo com a passagem do tempo.
Os pontífices do período fortaleceram as estruturas administrativas e financeiras da Igreja, buscando aumentar seu controle sobre a escolha de bispos e o uso das rendas obtidas por dízimos e outros mecanismos em toda a Europa. Esse dinheiro era usado inclusive para fins militares.
Ocorre que os papas continuavam sendo senhores de vastas terras na Itália, e as guerras entre as cidades-Estado italianas (na época a região não era um país unificado) muitas vezes acabavam afetando os territórios papais.
Calcula-se, por exemplo, que o papa João 22 (retratado como vilão no romance “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco) gastou mais de 60% de seu “orçamento” com despesas militares de 1316 a 1334.
Foi, em parte, por causa desses conflitos envolvendo as terras pontifícias na Itália que o papa Gregório 11, francês de nascimento, decidiu voltar para Roma em 1377. Quando morreu, foi sucedido por um italiano.
Mas esse novo papa logo se desentendeu com os cardeais (ainda de maioria francesa), os quais elegeram outro pontífice em seu lugar e voltaram de mala e cuia para Avignon.
“Até futuros santos ficaram confusos. Santa Catarina de Siena apoiou o papa italiano, enquanto São Vicente Ferrer apoiou o francês”, diz Duffy.
A dupla linha sucessória de papas rivais ficou conhecida como Grande Cisma do Ocidente e se manteve, de uma forma ou de outra, até 1417 (hoje, a sucessão sediada em Roma é considerada a válida pela Igreja).
Em 1409, um concílio (reunião dos principais membros da hierarquia católica) em Pisa tentou depor os papas e eleger um terceiro, mas nenhum dos três aceitou a supremacia de qualquer outro. A eleição de um papa consensual, Martinho 5º, acabou acontecendo num novo concílio, na cidade alemã de Constança.
Todos esses vaivéns, além de afetarem seriamente o prestígio do papado, também acabaram fortalecendo a ideia de que a autoridade dos pontífices não era absoluta, mas podia ser complementada ou até superada pelos demais membros do clero reunidos em concílios, por exemplo. Essa visão foi suprimida pelos líderes do novo papado unificado, mas estimularia novos desafios à autoridade deles.




