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O erro de separar lutas – 22/03/2026 – Bianca Santana

A ativista Phumi Mtetwa começou a se organizar politicamente aos 13 anos. Era meados dos anos 1980, quando a África do Sul vivia um dos momentos mais intensos da luta contra o apartheid. Boicotes de aluguel e enfrentamentos diretos com o regime eram planejados em sua casa, enquanto a mãe trabalhava em uma fábrica de telefones.

Quando o risco parecia muito alto, planejavam saídas clandestinas do país. Algumas colegas nunca voltaram. “Era um tempo em que não importava se você ia morrer”, disse Phumi.

Dois anos depois da transição democrática formalizada com as eleições de 1994, a África do Sul aprovou uma Constituição que se tornou referência global. Foi o primeiro país do mundo a proibir explicitamente a discriminação por orientação sexual.

Phumi, perto dos 20 anos, havia articulado uma coalizão que reuniu organizações LGBTQIA+, advogados e movimentos sociais para garantir a permanência da chamada “Equality Clause” (Cláusula de Igualdade) no texto final.

“No começo éramos poucas pessoas”, disse. “Mas construímos alianças fortes, parecíamos muitas.” A estratégia era jurídica, mas, principalmente, de disputar o sentido da nova democracia.

O país se tornou símbolo de uma transição política negociada e de avanços institucionais visíveis, como a presença de mulheres no Parlamento e um arcabouço robusto de direitos. Ainda assim, manteve níveis extremos de desigualdade social e racial, mesmo 30 anos depois do fim do apartheid.

“Temos recursos”, disse Phumi. “Mas quem deveria garantir melhores condições de vida está roubando.” A crítica à corrupção vem acompanhada pela reprovação da adoção de políticas econômicas de austeridade e maior alinhamento com agendas neoliberais. A crise do HIV expôs ao limite o Estado, especialmente durante o governo de Thabo Mbeki, marcado pelo negacionismo em relação ao vírus.

Foi nesse momento, no ano 2000, que Phumi se mudou para o Equador. O que começou como uma investigação sobre processos constitucionais semelhantes acabou se transformando em oito anos de imersão nas lutas latino-americanas.

“Foi outra educação política”, disse. Participou de articulações no Fórum Social Mundial, nas mobilizações contra a Alca e em redes como a Marcha Mundial de Mulheres e a Via Campesina. Em diálogo com movimentos indígenas andinos, passou a pensar direitos não apenas como garantias individuais, mas como construção coletiva.

A Conferência de Durban, em 2001, foi outro marco para ela. Disputas em torno de reparações históricas, da questão palestina e da inclusão da orientação sexual nos documentos oficiais revelaram os limites da política internacional. “A orientação sexual foi colocada em disputa com as reparações”, disse. “Como se eu pudesse dividir quem eu sou.”

Para Phumi, um dos principais erros das agendas progressistas é fragmentar as lutas, tratando racismo, gênero, sexualidade e desigualdade econômica como campos separados.

Diante da frustração com as promessas não cumpridas da democracia pós-apartheid, a aposta de Phumi é na reconstrução da ação coletiva, capaz de articular diferentes agendas sem hierarquizá-las.

De volta à África do Sul, hoje ela é uma das diretoras da Jass, Just Associates, organização voltada à educação popular feminista e à construção de alianças globais.


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Fonte: Folha de São Paulo

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