Amparo del Giudice escava com as próprias mãos uma montanha de escombros em busca do filho, uma das vítimas dos terremotos mais devastadores na Venezuela desde 1900.
A tragédia dela é uma entre tantas deixadas por dois terremotos de magnitude 7,2 e 7,5, que atingiram o norte da Venezuela na quarta-feira (24) com menos de um minuto de diferença. O balanço oficial é de 589 mortos, mas há temor de que o número final chegue a milhares.
Desesperada com a passagem do tempo sem a chegada de equipes de resgate, Giudice escavava com as mãos enquanto chorava e gritava, inconsolável, em um bairro de La Guaira, a região mais afetada pelos terremotos.
“São muitas pedras e, com as mãos, não dá”, diz, impotente, sentada a poucos metros do local onde acredita que seu filho esteja. “Não há nem água”, afirma, ao reclamar da falta de ajuda do regime.
Alessandro del Giudice, 23, voltou a usar seu capacete de bombeiro voluntário para ajudar a avó Amparo a encontrar um sinal de vida do pai. “Ele está ali”, soluça.
La Guaira, com cerca de 25 mil habitantes e situada a 40 km de Caracas, abriga o aeroporto internacional de Maiquetía, o principal do país, e é o balneário favorito dos moradores da capital. A maioria dos prédios altos com piscina ficou danificada em Los Corales, um bairro de classe média onde Giudice não encontra sossego.
A líder interina Delcy Rodríguez, que assumiu o poder após a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos em janeiro, visitou na quinta-feira (25) a região, declarada por ela “zona de desastre” e onde a agência AFP constatou saques.
O ministro da Saúde, Carlos Alvarado, informou na noite desta quinta um balanço de 235 mortos e 4.300 feridos, atualizado para 589 mortes na manhã desta sexta. Estimativas não oficiais falam em dezenas de milhares de desaparecidos, embora o número oficial seja de pouco mais de uma centena.
Nuvens de poeira ainda pairam entre edifícios luxuosos com vista para o mar do Caribe, reduzidos a montanhas de escombros. Boa parte das construções ao longo da costa ficou inabitável, enquanto outras desapareceram. A principal estrada que margeia La Guaira se partiu em vários pontos.
Dois hotéis cinco estrelas estão entre as estruturas que desabaram. Equipes de resgate e voluntários subiam nas montanhas de escombros do que foram torres de até 15 andares. Gritos com os nomes dos desaparecidos ecoavam entre enormes paredes rachadas.
“Família Pérez, vivos”, lê-se na lateral de uma casa que parece ter sido arrancada da terra. Há estruturas destruídas e rostos tristes por todos os lados. As réplicas continuam, e alguns edifícios gravemente afetados rangem a cada uma delas.




