“Adeus, padre”, escreveu na rede social X o jornalista Salvatore Cernuzio pouco antes das 10h do dia 21 de abril de 2025. O post de despedida deixou em alerta seus seguidores de que a frase pudesse estar relacionada ao papa Francisco. Três minutos depois, o perfil do canal de notícias do Vaticano confirmava que o pontífice tinha “voltado à casa do Pai”.
Naquela manhã, dia seguinte ao domingo de Páscoa, Francisco morreu na Casa Santa Marta, onde morava no Vaticano. Aos 88 anos, sofreu um AVC (acidente vascular cerebral) seguido de insuficiência cardíaca. Sua saúde estava frágil tanto pela idade quanto pela recuperação dos quase 40 dias de internação hospitalar.
As últimas palavras foram pronunciadas por volta das 5h, quando chamou o enfermeiro de plantão para pedir água. “Obrigado, desculpe o incômodo”, disse o papa. Dali em diante, o mal-estar se tornou irreversível. A morte foi decretada às 7h35, madrugada no Brasil.
A cena é descrita por Cernuzio no livro “Padre: un ritratto inedito di papa Francesco” (Padre: um retrato inédito do papa Francisco, em italiano), publicado no início de abril na Itália (ed. Piemme). Em italiano, “padre” pode significar tanto “pai” quanto se referir a “sacerdote”. Cernuzio é jornalista dos canais do Vaticano, como o site Vatican News.
“Entre os secretários estava presente só dom Juan Cruz Villalón, que foi chamado em sua sala. A princípio, não houve um alarme específico, mas Juan teve a intuição de ministrar ao papa Francisco a unção dos enfermos”, escreve Cernuzio. “O papa ter morrido sem ter recebido o sacramento, como foi escrito por alguns, é uma fake news.”
O lançamento do livro faz parte das iniciativas que marcam o primeiro aniversário da morte de Francisco. Com o papa Leão 14 em viagem pelo continente africano até dia 23, o principal evento em Roma será a missa na Basílica de Santa Maria Maior, onde está o túmulo de Francisco. Marcada para as 18h (13h em Brasília), será transmitida online pelo Vaticano.
Em 144 páginas, o autor repassa os dias em que Francisco ficou internado no hospital, a volta para o Vaticano, sua morte e funeral. Ao mesmo tempo, conta da proximidade que teve com o pontífice por quatro anos. Cernuzio foi um dos poucos a visitá-lo no hospital e esteve com ele na Casa Santa Marta cinco dias antes da morte.
A relação é descrita como a de “um avô e um neto, um filho e um pai”, iniciada depois que o jornalista entregou uma carta a Francisco durante o voo da viagem ao Iraque, em 2021. Dois meses depois, foi convidado por telefone pelo papa a visitá-lo na Santa Marta.
Para Cernuzio, o pontificado de 12 anos está se consolidando como um divisor de águas. “Penso que há um antes e depois de Francisco. Um novo estilo de ser Igreja, de organizar e de caminhar. Ele anteviu zonas de crise e abriu as janelas para que entrasse ar limpo. Penso, em particular, no combate a abusos, no qual interveio com rigor”, diz.
Entre os feitos de Francisco no tema de abusos cometidos dentro da Igreja está a carta apostólica “Vocês São a Luz do Mundo”, de 2019, com regras como a obrigatoriedade de que suspeitas de abuso sejam denunciadas a autoridades da Igreja.
O vaticanista cita ainda o processo sinodal. Foram cinco sínodos convocados por Francisco, sendo o mais importante o da sinodalidade (a palavra remete a “caminhar junto”, em grego), que aconteceu entre 2021 e 2024.
Essa última edição envolveu dioceses do mundo todo e terminou com duas reuniões entre clero, religiosos e leigos, que foram chamados para debater o futuro da Igreja. Um dos principais temas foi o papel das mulheres em postos de liderança. Divisivo, o sínodo chegou a ser visto pela ala conservadora como um risco de cisma.
“Para alguns pode ter parecido algo inútil, mas estou convencido de que com o tempo vai dar frutos importantes”, afirma Cernuzio.
Entre reformista e disruptivo, o vaticanista prefere definir o papado como profético. “Ele estava à frente de todos, tinha uma visão de longo alcance apesar da idade e das críticas dentro da própria Igreja. É o que acontece com aqueles que são, de fato, proféticos”, diz.
Sobre Leão 14, Cernuzio não acha que Francisco tenha direcionado a escolha do conclave em sua direção. Ainda que, analisando agora, não pareça casual, diz, o gesto de ter promovido o então cardeal Robert Prevost para a Ordem dos Bispos, dando a ele mais visibilidade às vésperas da eleição. A nomeação foi divulgada oito dias antes de Francisco ser internado.
“Ele? Ele é um santo”, disse Francisco ao vaticanista na única vez em que Prevost foi mencionado entre eles. Ocorreu logo depois de o americano ter sido nomeado cardeal pelo papa, em 2023.
Nas palavras de Cernuzio, a expressão era usada pelo argentino para “indicar pessoas capazes de lidar serenamente com confrontos, tensões, situações intrincadas e de conseguir criar comunhão”. Um perfil bem-vindo diante de guerras e da ira da qual foi vítima do presidente Donald Trump.




