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Líbano: imigrantes no Brasil perdem parentes em guerra – 16/05/2026 – Mundo

“Não sobrou nada, nem um dedo, nada.” Com a voz serena e os olhos mirando o vazio, Hussein Nahle narra a morte do sobrinho Abas, 22, vítima de um bombardeio de Israel na aldeia de Taybeh, no sul do Líbano.

Hussein, 60, é dono de uma pequena loja de esfirras em Perdizes, na zona oeste de São Paulo. Ele diz que o sobrinho fora visitar um amigo que se recusou a acatar a ordem de retirada emitida pelo Exército israelense. “A vila estava quase vazia, então o avião viu os dois e jogou bomba neles.”

Taybeh, vila de maioria xiita na fronteira de Israel, foi esvaziada e demolida. Dentre os 15 mil moradores desalojados, estão as famílias de três irmãos de Hussein: Wafa, mãe de Abas, deslocou-se para Brumana, nas cercanias de Beirute; Wafik e Rafik foram acolhidos por conhecidos em Trípoli, no norte do país.

O drama de Hussein não é uma excepcionalidade. O Brasil é o país que mais recebeu imigrantes da diáspora libanesa, em ondas que se repetem desde o fim do século 19. Entre imigrantes e descendentes, a Associação Cultural Brasil-Líbano estima o tamanho da comunidade em cerca de 8 milhões de pessoas. Muitas dessas famílias, em especial quem veio nas levas mais recentes, mantêm contato próximo com quem ficou no Líbano.

Para elas, a ação militar de Israel no sul do país, com o objetivo declarado de lutar contra o grupo extremista Hezbollah, é bem mais do que vídeos e infográficos no noticiário. Hussein, que mora no Brasil desde 1997 e é casado com uma brasileira, manda todos os dias ao acordar mensagens para saber se está tudo bem com os irmãos.

Nem sempre a resposta é positiva. “Os soldados israelenses entraram nas casas e levaram tudo o que conseguiram pegar, televisão, moto, coisas pequenas”, afirma o comerciante. Depois de pilhados, diz ele, os domicílios foram implodidos pelos militares.

A professora da USP Safa Jubran, 63, também mantém o ritual matinal de buscar notícias tranquilizadoras dos parentes que ainda vivem do outro lado do mundo.

“A guerra impactou drasticamente suas vidas: membros da mesma família ficaram separados quando Israel bombardeou os acessos às cidades do sul. Eles ficaram sem água e sem energia elétrica, vivendo com medo, sem perspectiva e sem saber o que o futuro reserva”, diz ela à Folha.

Ela imigrou em 1983, um dos anos mais dramáticos da guerra civil libanesa. A docente conta que, desde o início da mais recente onda de ataques contra seu país de origem, não consegue se desligar do noticiário. “Isso acaba prejudicando minha concentração no trabalho” —trabalho este que demanda muita concentração: Safa é uma das mais importantes tradutoras da língua árabe no Brasil.

O impacto não se restringe aos libaneses que vivem por aqui, mas também a filhos e netos já nascidos brasileiros. “Eu acho tudo muito triste”, afirmou o escritor Milton Hatoum, 73, em recente entrevista à rádio CBN. Manauara, ele afirmou ter recebido imagens da casa de um primo que “dá vontade de chorar, porque não sobrou nada”.

A diáspora histórica levou à criação de uma também relevante comunidade de brasileiros no Líbano, de cerca de 20 mil pessoas. No dia 26 de abril, uma tragédia atingiu essa comunidade, quando uma mãe e seu filho de 11 anos foram mortos por um bombardeio israelense. Eles visitavam a casa que a família tinha abandonado após ordens de Tel Aviv para retirada no sul do país. Apesar do cessar-fogo, a residência foi alvejada, matando os dois e ferindo o pai, libanês, e outro filho.

A professora Safa diz que gostaria que a resposta do governo brasileiro fosse “mais clara, firme e contundente”. “O posicionamento foi tímido diante da gravidade da situação, especialmente considerando que brasileiros também perderam a vida nos bombardeios”, afirmou.

O Itamaraty emitiu uma nota afirmando que o ataque foi “mais um exemplo das reiteradas e inaceitáveis violações ao cessar-fogo anunciado em 16 de abril, as quais já resultaram na morte de dezenas de civis libaneses, incluindo mulheres e crianças, assim como de uma jornalista e de dois integrantes franceses da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (Unifil)”.

No papel, Líbano e Israel estão sob um cessar-fogo que, no entanto, nunca de fato silenciou os combates. A ofensiva começou com ataques do Hezbollah ao vizinho do sul em apoio ao Irã, por sua vez, alvo de ofensiva de Washington e Tel Aviv a partir do dia 28 de fevereiro.

Enquanto não há uma perspectiva clara de fim das hostilidades, apesar da trégua prorrogada nesta sexta-feira (15) por mais 45 dias. A comunidade libanesa no Brasil segue, aflita, na espera por boas notícias. É uma “mistura de sentimentos: tristeza, raiva, indignação e impotência”, resume Safa.

Hussein oferece à reportagem uma esfirra de queijo –”come, acabou de sair do forno”– antes de contar que tentou convencer os irmãos a virem para o Brasil, mas a oferta foi recusada. “Nenhum deles quis deixar a família lá”, afirma. “E trazer todo mundo é caro demais para quem já perdeu tudo.”

Fonte: Folha de São Paulo

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