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Israel vai causar guerra civil no Líbano, diz especialista – 21/03/2026 – Mundo

Em retaliação à guerra iniciada por Estados Unidos e Israel contra o Irã, o grupo armado libanês Hezbollah, aliado de Teerã, lançou ataques contra o Estado judeu, precipitando uma nova invasão israelense do Líbano e bombardeios constantes contra o país desde então.

O conflito já matou mais de mil pessoas, de acordo com o governo em Beirute, e deslocou cerca de 1 milhão de libaneses —quase 20% da população do país, que tem 5,8 milhões de habitantes. Para além da destruição e caos, as ações de Israel perigam causar uma nova guerra civil no Líbano, de acordo com Yezid Sayigh, intelectual palestino radicado em Beirute e membro do Centro Carnegie para o Oriente Médio.

Em entrevista à Folha por telefone, Sayigh explica por que a guerra inflama tensões sectárias no Líbano, e como Israel não deve se contentar apenas com um desarmamento do Hezbollah.

O sr. mora em Beirute, que está sob bombardeio constante de Israel. O que mudou na sua vida nessas últimas semanas?

Para mim, pouca coisa mudou porque vivo em uma parte de Beirute que não parece ser alvo de ataques israelenses. Entretanto, hoje [dia 11 de março] fui acordado por volta das 5 da manhã por um bombardeio contra um apartamento a 350 metros de distância do meu.

Além disso, há muitas pessoas deslocadas, fugindo do sul do Líbano ou dos bairros de Beirute sob ataque, e a maioria delas está abrigada em escolas públicas —ou seja, as aulas estão suspensas. Há também um número enorme de pessoas morando em seus carros, que estão estacionados por toda parte.

O sr. escreveu recentemente que os objetivos de Israel no Líbano vão além de conter o Hezbollah. Que objetivos seriam esses?

Acho que está claro que o governo do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu busca mudanças políticas radicais na região. Isso inclui, por óbvio, fazer colapsar o regime no Irã. E eu falo em colapso de regime em vez de mudança de regime porque o padrão de ataques sugere um desejo de desmantelar completamente o país. Trata-se de um objetivo radical —que não parece ser compartilhado pelos Estados Unidos de Donald Trump.

Isso se reflete na situação do Líbano, onde nenhum agente externo, nem os EUA, nem os europeus, nem mesmo a França, que tem uma relação paternalista-colonial com o Líbano, tem um interesse grande o bastante no país para intervir e parar os israelenses. Então, por enquanto, Israel tem carta branca para agir no Líbano.

E, se eu puder adivinhar sua próxima pergunta, o que pode acabar com a guerra no Líbano é se o governo Trump estiver disposto a encerrar a guerra no Irã. Quando isso acontecer, eles buscarão paz em toda a região.

Mas, nesse sentido, quais são os objetivos concretos de Israel no Líbano hoje? Qual o resultado ideal para o governo Netanyahu?

Israel quer coisas demais e encontrará obstáculos. Os objetivos políticos estão pouco claros, mas o que está claro é que Israel busca destruir o Hezbollah por completo, não simplesmente derrotá-lo militarmente. [Tel Aviv] quer que o Hezbollah deixe de existir como uma organização e partido político.

O governo libanês, em uma declaração surpreendente, disse que o Hezbollah não tem direito de começar uma guerra contra Israel e que toda atividade militar [do grupo] é ilegal, ordenando que o Exército prenda membros armados do Hezbollah.

Não há precedente para isso e foi um passo importante para o governo, mas na prática significa que Beirute quer que o Hezbollah se reduza a apenas um partido político. Israel não se contentará com isso, e acho que eles querem a dissolução completa [do grupo], isto é, que se torne uma organização proscrita no Líbano e que seus membros sejam presos, tornando impossível para o Hezbollah se reorganizar ou mesmo operar como um partido.

Isso é realista?

Não. Israel teria de entrar em todas as áreas do Líbano onde há famílias xiitas [o Hezbollah segue essa vertente do islã, que também é majoritária no Irã], e existem muitas comunidades mistas neste país. Ou seja, [Tel Aviv] não vai conseguir garantir a dissolução do Hezbollah. A não ser, e aqui está o cerne da questão, que puna o resto do Líbano, as outras comunidades, de tal forma que o governo faça esse trabalho pelos israelenses.

Israel precisa que o governo libanês envie o Exército e a polícia para revistar casa a casa e desarmar e prender membros do Hezbollah. Entretanto, está claro que o governo, mesmo que quisesse, não tem a capacidade de fazer isso. Há um medo enorme neste país que o Exército libanês rache se receber uma ordem assim, como aconteceu na guerra civil dos anos 1970 e 1980. Todos sabem disso, até mesmo os americanos, e é por isso que Washington rechaçou, por anos, a pressão israelense e protegeu o governo do Líbano de ter que tomar essa decisão.

É possível que, após anos de treinamento americano, o Exército não rache? Sim. Mas ninguém quer correr esse risco. E se as autoridades libanesas não querem agir militarmente contra o Hezbollah, a pressão contínua de Israel vai levar a uma guerra civil, e suas ações parecem feitas para que isso ocorra. Isso porque, ao forçar Beirute a fazer uma escolha impossível, Tel Aviv pode fortalecer outros grupos sectários, como os cristãos maronitas e ortodoxos, e o Estado colapsa.

No fim, parece ser isso que Israel quer, ou, no mínimo, que parece aceitar. Acho que [Tel Aviv] não se importa se houver outro Estado falido na região, como vimos por muitos anos na Síria, no Iêmen e no Iraque.

Que opções o governo libanês tem para impedir esse cenário?

Nenhuma. Beirute está buscando conversas diretas com Israel que poderiam levar a uma nova relação diplomática baseada em segurança mútua, mas os israelenses ignoraram esse movimento —em parte porque não há razão para que aceitem nada menos do que a rendição completa do governo libanês.

Em outras palavras, Beirute não tem nada a oferecer a Tel Aviv a não ser entrar em guerra contra o Hezbollah. E acho que Israel sabe que o governo libanês não pode fazer isso e, assim, optou por uma estratégia de causar a maior dor possível contra a comunidade xiita para que ela se vire contra o Hezbollah ou deixe de proteger o Hezbollah de outras comunidades.

Isso está começando a acontecer: algumas famílias xiitas deslocadas não conseguem mais encontrar abrigo em comunidades cristãs. Ou seja, Israel está alimentando essa polarização sectária, já que as pessoas, é claro, têm medo de que os deslocados se tornem um alvo de um bombardeio —e isso pode acontecer não porque são membros do Hezbollah, mas porque Israel busca um pretexto para um ataque.

Recentemente, por exemplo, Israel bombardeou um hotel em um bairro cristão que abrigava famílias xiitas sem aparente conexão com o Hezbollah. Tudo isso expande a guerra e tem os objetivos políticos de criar divisões mais profundas, aumentar o medo e, finalmente, pressionar o governo libanês a agir.


Raio-X | Yezid Sayigh

Filho do conhecido economista e nacionalista árabe palestino Yusif Sayigh e da antropóloga britânica Rosemary Boxer, Yezid nasceu em 1955 em Baltimore, nos EUA, e se mudou no ano seguinte para Beirute, no Líbano. Graduado em Química pela Universidade Americana de Beirute, especializou-se em ciência política e estudos militares no King’s College de Londres, no Reino Unido, e foi assessor da delegação palestina durante as negociações com Israel que culminaram nos Acordos de Oslo. É membro do Centro Carnegie para o Oriente Médio, em Beirute.

Fonte: Folha de São Paulo

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