spot_img
HomeMundoIrã: Cessar-fogo prejudica ambição eleitoral de Netanyahu - 16/04/2026 - Mundo

Irã: Cessar-fogo prejudica ambição eleitoral de Netanyahu – 16/04/2026 – Mundo

Ao lançar a guerra contra o Irã, Binyamin Netanyahu prometeu a seus compatriotas que o conflito seria um divisor de águas para Israel. “Esta guerra levará à paz”, disse o primeiro-ministro israelense, que se prepara para um inédito sétimo mandato nas eleições ainda este ano. “Fomos à batalha para mudar a situação; fundamentalmente, para pôr fim à ameaça.”

Mas quando Donald Trump anunciou um cessar-fogo cinco semanas depois, com o regime iraniano ainda de pé, ainda disparando mísseis e ainda insistindo em seu direito de enriquecer urânio, havia poucos sinais de que o conflito tenha sido transformador para Israel —ou para as perspectivas políticas de Netanyahu.

Aliados e adversários do premiê esperam que a campanha contra o regime iraniano, amplamente apoiada pelo público israelense, desempenhe papel de destaque nas eleições, que devem ocorrer em no máximo seis meses.

No entanto, a primeira pesquisa de opinião após o cessar-fogo trouxe leitura sombria para Netanyahu, cuja coalizão está atrás da oposição nas pesquisas há mais de dois anos: 63% dos israelenses estavam insatisfeitos com os resultados da guerra. Menos da metade estava satisfeita com o desempenho de Netanyahu, que também atraiu críticas contundentes de seus oponentes políticos.

“Netanyahu está lutando por seu futuro”, disse um diplomata, sob anonimato. “E, como está, o cessar-fogo não é bom para ele. Ele ainda não conquistou nada que possa vender [ao público israelense].”

Em um vídeo após o término do festival de Pessach, a Páscoa judaica, este ano celebrada em 1º de abril, Netanyahu exaltou a campanha de Israel, argumentando que ela atrasou o regime iraniano “muitos anos”, dizimou sua liderança e capacidades militares e forçou Teerã a aceitar um cessar-fogo sem que suas precondições fossem atendidas.

O Irã está mais fraco do que nunca, Israel está mais forte do que jamais esteve”, disse Netanyahu.

Mas os oponentes do líder, tanto da esquerda quanto da direita, buscaram retratar a guerra como o mais recente exemplo do que dizem ser uma das principais deficiências do premiê israelense nos anos de conflito no Oriente Médio desde o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023: a incapacidade de desferir um golpe decisivo em qualquer um dos inimigos de Israel, apesar de repetidas promessas de vitória total.

“Três anos após o 7 de outubro, o Hamas governa Gaza, o Hezbollah governa o Líbano, e em vez de um Khamenei de 86 anos governando o Irã, um Khamenei de 56 anos governa o Irã”, disse Yair Lapid, líder do maior grupo de oposição, Yesh Atid. “Pela milésima vez, ficou provado que a força militar sem um plano diplomático não leva a uma vitória decisiva.”

Também há sinais de decepção de pessoas mais próximas a Netanyahu. Zvika Fogel, membro da coalizão de Netanyahu do partido de ultradireita Poder Judaico, postou e depois deletou uma publicação no X acusando Trump de “se esquivar”. Um oficial israelense disse que Israel estava “preocupado com o acordo e ainda gostaria de alcançar mais”.

Analistas disseram que parte do problema para Netanyahu foi que seus compatriotas entraram na guerra, que pesquisas sugeriam ter apoio de mais de 80% dos israelenses, com altas expectativas sobre o que era alcançável.

Uma pesquisa do Instituto de Estudos de Segurança Nacional, think-tank de Tel Aviv, na primeira semana de combates, constatou que 69% dos israelenses achavam que a guerra enfraqueceria significativamente o regime iraniano. Em outra pesquisa do instituto, mais recente, o número havia caído para 43,5%.

“As pessoas estavam prontas para suportar o fardo de 40 dias de guerra, ficando em abrigos, perdendo seus salários, cancelando suas férias, estando em perigo constante de mísseis”, disse Aviv Bushinsky, que anteriormente serviu como chefe de gabinete de Netanyahu e agora é analista político. “Mas em troca, esperavam receber muito mais do que temos agora.”

Dahlia Scheindlin, pesquisadora e analista política, disse que outra vulnerabilidade potencial para o primeiro-ministro foi a impressão de que Trump pressionou Israel a aceitar um cessar-fogo, com Netanyahu sendo deixado de lado quando o presidente americano negociou com o Irã.

“Os israelenses gostam quando Israel parece forte. Eles particularmente gostam quando Israel toma suas próprias questões de segurança em suas próprias mãos. E adoram a parceria com os EUA”, disse Scheindlin. “Mas não gostam da sensação de que Trump deu as cartas.”

Netanyahu rebateu os críticos das conquistas militares de Israel e insistiu que a campanha não havia terminado. “Ainda temos objetivos a cumprir, e os alcançaremos seja por acordo ou pela retomada dos combates”, disse. “Nosso dedo está no gatilho.”

Ele também ordenou o maior ataque ao Líbano desde a retomada das hostilidades entre Israel e o grupo militante Hezbollah, apoiado pelo Irã, no mês passado, apesar das ameaças de Teerã de que isso poderia comprometer a trégua.

Analistas disseram que mais combates ou um acordo entre os EUA e o Irã que impusesse custos significativos a Teerã —como forçá-lo a abrir mão de seu estoque de urânio enriquecido ou aceitar restrições em seu programa de mísseis— poderiam mudar a forma como a guerra é percebida em Israel. Mas eventos anteriores durante os últimos dois anos de combates sugeriram que isso teria, em última análise, efeito limitado no comportamento dos eleitores.

Scheindlin observou que, apesar de Israel ter desferido golpes pesados em seus inimigos —como matar o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, em 2024 e bombardear os locais nucleares do Irã em 2025—, as pesquisas nos últimos 18 meses sugeriram que a coalizão de Netanyahu conquistaria entre 49 e 56 dos 120 assentos no Parlamento em uma eleição, bem abaixo dos 64 que conquistou em 2022.

“Quase não houve nada em pesquisas confiáveis além dessa faixa”, disse ela.

Um oficial da oposição disse estar cético de que a guerra com o Irã provaria ser uma exceção, mesmo que as negociações de cessar-fogo dessem a Netanyahu uma mão melhor do que ele tem agora.

“Netanyahu conseguirá salvar um empate disso? Talvez”, disse o oficial, referindo-se às percepções públicas sobre como a guerra transcorreu. “Mas ele está atrás, então o que ele precisa é avançar. E acho que ele viu isso como uma oportunidade para fazê-lo. Claro que ainda é cedo, mas não vejo como ele ganha apoio com base nisso.”

Aliados de Netanyahu apontam que uma eleição inconclusiva —que as pesquisas sugerem ser um resultado provável— permitiria que ele permanecesse no cargo como chefe de uma administração interina. Mas Bushinsky disse que mesmo isso precisaria de mais conquistas do que o primeiro-ministro conseguiu reunir.

“Quando Trump e Netanyahu lançaram [a guerra], disseram que estavam pavimentando o caminho para uma mudança de regime no Irã”, disse ele. “Mas se a guerra terminar com o cessar-fogo como está atualmente, ela pavimentará o caminho para uma mudança política em Israel.”

Fonte: Folha de São Paulo

RELATED ARTICLES

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

- Advertisment -spot_img

Outras Notícias