Vamos analisar a mais recente disputa entre Igreja e império no mundo, o conflito aberto entre o presidente Donald Trump e o papa Leão 14, em termos de três círculos concêntricos, partindo das realidades gerais da política católica até as especificidades intensas deste caso.
No nível geral, não há nada em um conflito entre uma autoridade secular e o pontífice romano que deveria deixar os católicos em estado de choque. Nada no ensinamento católico diz que os papas estão livres de erros sobre políticas públicas, e o registro histórico oferece provas abundantes de que eles cometem erros profundos.
Sendo assim, quando os papas se envolvem em politicagem, não é ímpio que políticos discordem deles, e tais desavenças não são inerentemente liberais, seculares e modernas. Na verdade, são medievais e extremamente “tradicionais”.
Na atual zona de controvérsia —os argumentos que colocam o papa ou o Vaticano ou cardeais proeminentes contra o conservadorismo nacionalista— os conservadores frequentemente têm queixas razoáveis.
O ensinamento social católico em sua forma ideal desafia tanto a direita quanto a esquerda, mas essa corda bamba é difícil de atravessar, e os líderes da Igreja tendem frequentemente a desafiar um lado mais duramente enquanto oferecem “acompanhamento” ao outro.
Sob o papa João Paulo 2º, católicos mais politicamente liberais razoavelmente sentiam que o Vaticano estava acompanhando mais a direita do que a esquerda, mas sob o papa Francisco a dinâmica se inverteu.
Embora Francisco fosse contra o aborto e a eutanásia e outras bandeiras progressistas, ele claramente priorizava questões econômicas e ambientais e, ainda mais claramente, simplesmente não gostava pessoalmente de conservadores, especialmente conservadores americanos, em comparação com liberais.
Leão 14 trouxe maior estabilidade à Igreja em parte simplesmente mostrando aos conservadores uma face mais paternal e levando suas preocupações sobre ritual e clareza doutrinária mais a sério, mesmo ainda soando como Francisco quando fala sobre questões como imigração ou mudança climática.
Em resposta, vimos uma clara separação entre católicos de direita muito conectados à internet que querem estar bravos com o papado o tempo todo e um eleitorado conservador mais amplo que está satisfeito em ter um papa que emite notas de esquerda desde que ele não pareça ter intenção de causar disrupção doutrinária.
Mas a inclinação à esquerda do Vaticano nos debates políticos atuais ainda pode mostrar falhas de caridade ou clareza. A falha de caridade aparece especialmente quando líderes da Igreja falam sobre imigração: deveria ser possível defender migrantes de maus-tratos enquanto também se reconhece as razões legítimas pelas quais católicos americanos podem considerar a política de fronteira de Joe Biden uma calamidade, ou por que católicos europeus podem se preocupar com a transformação religiosa de suas nações pela imigração muçulmana.
O Vaticano claramente se sente mais confortável trabalhando com Joe Biden ou Emmanuel Macron do que com Trump ou Marine Le Pen. Mas falta um espírito de compreensão quando se trata de entender por que grande parte de seu próprio rebanho prefere os populistas.
A falha de clareza, por sua vez, é um problema consistente para a retórica da Igreja em questões que vão de riqueza e pobreza a guerra e paz. Há uma hesitação clerical compreensível em ser muito concreto nesse tipo de questão, para que o papa ou os bispos não pareçam estar ditando alíquotas de impostos ou detalhes de tratados.
Mas o resultado é que o comentário papal sobre política econômica pode soar não apenas de esquerda, mas vago, e sua posição sobre política externa pode derivar para um pacifismo ingênuo que não é fiel à tradição católica.
E se você é, digamos, um funcionário católico no Pentágono, poderia ser inteiramente razoável pressionar o Vaticano a reconhecer que o poder militar às vezes tem um papel inteiramente moral a desempenhar.
Esses são os pontos gerais que poderiam ser feitos em defesa do desacordo católico-conservador com Roma. Eles começam a se desfazer, no entanto, à medida que entramos no segundo círculo, o debate específico sobre a guerra no Irã, sendo a questão que levou o conflito entre a Igreja e o governo Trump a ferver.
Aqui não é o papado que luta com a questão concreta; são os argumentos do governo que oscilam, vacilam e evaporam. Você encontrará apoiadores de Trump reclamando que a condenação papal da guerra é muito abrangente, ou que os mensageiros —como os três cardeais americanos de inclinação liberal que apareceram no “60 Minutes” no fim de semana— são muito partidários, ou que não ouvimos o suficiente do Vaticano sobre os males do regime iraniano.
Mas essas queixas são secundárias à questão central: a guerra é justa ou não? E o governo simplesmente não apresentou um caso coerente e consistente para a justiça do conflito.
Agora, as melhores reportagens que temos sugerem que o governo americano entrou nesta guerra sem um objetivo estratégico claro ou uma justificativa moral consistente, sem consideração suficiente pelas armadilhas que poderiam ser acionadas —e apesar da oposição do vice-presidente (católico), do presidente, e das dúvidas de seu secretário de Estado (católico).
Isso não significa que um resultado decente não possa ser salvo. Mas é uma situação em que o líder da Igreja Católica tem todas as razões para dizer: isso parece uma guerra injusta.
E a resposta do presidente a essa crítica —e aqui chegamos ao círculo mais interno da história— enfaticamente não pertence a um morde e assopra normal entre Igreja e Estado, papa e império. Nem é mesmo um tipo normal de anormalidade trumpiana.
Em vez disso, temos profanação e sacrilégio declarados, em um padrão que começou com sua postagem nas redes sociais no Domingo de Páscoa, xingando e ameaçando violência e sarcasticamente louvando Alá, e então escalou por meio de uma postagem atacando Leão 14 e finalmente uma postagem barata de inteligência artificial retratando a si como Jesus Cristo.
Enquanto Trump tem defensores cristãos, eles tendem a separar a última ofensa de suas predecessoras, sugerindo que está tudo bem o presidente ser profano sobre teocratas islâmicos, aceitável que ele discuta com raiva com o bispo de Roma (que não tem autoridade neste reino da América…), deixando o meme de Trump-Cristo como a única ofensa real.
Mas a questão central de uma perspectiva religiosa não é se muçulmanos ou católicos ou evangélicos deveriam se sentir pessoalmente ofendidos pelas especificidades de qualquer incursão presidencial. É que há um fio consistente ligando ameaças profanas no Domingo de Páscoa, um ataque verbal contra o líder cristão mais famoso do mundo e a representação de si como a Segunda Pessoa da Trindade.
A ofensa composta não é contra a identidade religiosa ou a dignidade papal. É uma violação do primeiro e segundo mandamentos, onde a parte ofendida é Deus.
Se você é um observador secular que assume que blasfêmia é um pecado sem um objeto real, essa escalada importa principalmente como uma janela para o estado mental do presidente em seu segundo mandato.
Se você é um crente, porém, então toda a carreira política de Trump —seu papel catalisador na crise do liberalismo, seu movimento do poder para o exílio e de volta ao poder— existe sob poder providencial. Nesse caso, uma virada para a blasfêmia presidencial é um aviso para seus apoiadores religiosos sobre possíveis conclusões para a história, e o perigo espiritual de simplesmente ficar com ele até o fim.




