Em um vídeo gravado para o evento “A América Lê a Bíblia”, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recitou um trecho do Antigo Testamento no fim da tarde desta terça-feira (21). Com a Bíblia aberta em cima da mesa, ele leu a passagem olhando diretamente para a câmera.
A particioação do republicano no evento, promovido pelo Museu da Bíblia de Washington, acontece uma semana após ele publicar uma imagem gerada por inteligência artificial em que ele se parece com Jesus usando uma túnica branca e diversos símbolos patriotas.
Após a comparação gerar uma onda de críticas por parte de apoiadores cristãos, Trump passou a tentar se justificar. “Eu achei que era eu como médico [na imagem]”, disse o presidente sobre a publicação nas redes sociais, que ele apagou após a repercussão negativa.
No vídeo desta terça, o presidente leu sétimo capítulo de 2 Crônicas, que se passa durante a dedicação do templo pelo rei Salomão na antiga Jerusalém.
No texto, Deus responde a Salomão após a dedicação do templo, prometendo ouvir as orações e curar a terra se o seu povo se humilhar, orar e se arrepender. Deus se compromete a manter o templo, mas adverte que a desobediência levará à destruição do local e ao exílio da terra.
Além da imagem publicada nas redes, as últimas semanas foram marcadas por tensões entre Trump e o papa Leão 14. Os problemas entre os dois cresceram após o americano criticar o pontifice e chamá-lo de “terrível” e “fraco” pelas redes sociais. Depois, disse que não pediria desculpas a ele.
“O papa disse coisas que estão erradas e ele é contra o que estou fazendo no Irã, e não podemos ter um Irã nuclear”, afirmou o presidente em entrevista a jornalistas na Casa Branca.
Nas últimas semanas, o papa se posicionou contra a guerra, disse que “Deus não abençoa nenhum conflito” e que quem segue Cristo não apoia o lançamento de bombas. Após a reação negativa de Trump, o pontifice disse não temer o governo do republicano e prometeu continuar falando sobre a guerra. Dias depois, ele minimizou a desavença com Trump.
O comportamento de Trump tem sido considerado errático até mesmo por aliados nas últimas semanas. Além das questões com a Igerja Católica, o republicano tem ameaçado destruir todas as pontes e usinas de energia do Irã em meio às negociações para o fim da guerra.
Diante do comportamento cada vez mais explosivo e intimidatório, diferentes teorias buscam explicar as motivações por trás da postura de Trump.
Em entrevista à Folha, o diretor de debates da Universidade de Michigan, Aaron Kall, afirma que o comportamento do ex-presidente não parece seguir uma estratégia totalmente organizada. Segundo ele, Trump recorre ao que chama de “weave” —uma espécie de fluxo de falas e ações— para deslocar a atenção pública de um tema para outro. “Ele faz várias coisas ao mesmo tempo para mover a atenção de um assunto para o outro”, explica.
Kall avalia que parte desse padrão pode estar ligada tanto a frustrações políticas quanto a uma tentativa deliberada de controlar o ciclo de notícias. Para o pesquisador, esse movimento também pode refletir um contexto de desgaste político e de queda nas pesquisas, em que provocações e mudanças rápidas de alvo funcionam como reação ao ambiente de pressão.
A “teoria do louco” tenta explicar o comportamento de Trump, e reflete posição também adotada em parte por Richard Nixon durante a Guerra do Vietnã. Naquele momento, o presidente queria parecer imprevisível e irracional, intimidando adversários com objetivo de fazer com que líderes inimigos, como no Vietnã, acreditassem que ele poderia usar armas nucleares, forçando concessões em negociações.
Kall afirma que há pontos comparativos entre Nixon e Trump, mas o especialista ressalta que não se trata de uma equivalência direta. Ele lembra que, no caso de Nixon, o aumento da instabilidade no discurso e o isolamento político dentro do próprio partido contribuíram para a crise que resultou em sua renúncia, em meio a pressões por um processo de impeachment.




