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Análise: Guerra de rede social de Trump dificulta acordo – 22/04/2026 – Mundo

Após o avassalador ataque nazista à Polônia de 1939, a Segunda Guerra Mundial entrou em um período de estranha calma. Por oito meses, houve apenas batalhas esporádicas e muitas preparações, sem nenhuma paz à vista.

Em sua encarnação como um senhor da guerra virtual, que ataca e recua por meio de postagens, Donald Trump ensaia a versão 2026 do que foi apelidado pela imprensa britânica de 1940 de sitzkrieg, ou “guerra sentada” em alemão, em oposição à blitzkrieg (“guerra-relâmpago”) da abertura do conflito.

O presidente americano optou por recuar mais uma vez no seu embate com o Irã, deixando agora em aberto o prazo para que Teerã apresente uma proposta de negociação. Enquanto isso, ambos os rivais mantêm suas posições no teatro de operações navais do estreito de Hormuz, sem ceder.

Os EUA mantiveram o bloqueio a portos iranianos, imposto para forçar a abertura da via vital ao mercado de energia mundial. Parece e é contraditório, mas o Irã também adota ambiguidade: num dia anuncia a liberação do tráfego, no outro o veta, usando o embargo como justificativa.

Sobressai a posição de Teerã, cujo regime teocrático tornou-se um protetorado militar da Guarda Revolucionária. A questão da reabertura de Hormuz é simbólica: ela foi anunciada também numa postagem pelo chanceler e negociador Abbas Araghchi na sexta-feira (17).

No dia seguinte, a Guarda já havia revogado a ordem, que havia sido celebrada em uma torrente de postagens de Trump, alternando elogios e ameaças ao Irã. A confusão metódica sugere o americano jogando com as divisões no rival, mas também sem interlocutor certo.

É uma aposta de risco. É fato que a teocracia teve boa parte de sua elite morta e suas forças ofensivas manietadas. Isso dito, ainda controla Hormuz, e o medo de uma retaliação que destrua boa parte da capacidade do golfo Pérsico de produzir petróleo guia os sucessivos recuos de Trump.

Para o regime iraniano, é uma luta existencial. Para o americano, uma corrida contra o cronograma que o colocará diante de um eleitorado crescentemente hostil nas eleições congressuais de novembro. Deixar o conflito em banho-maria é uma opção, mas ela favorece Teerã.

A tática errática do republicano também dificulta a construção de confiança mínima. Chamado pela diplomacia iraniana de “grupo de WhatsApp de um homem só”, Trump parece que terá de ceder se quiser ver uma solução mais rápida, ainda que provisória, para a crise.

As conversas em Islamabad deverão ocorrer, mas é improvável que Teerã aceite termos restritivos demais a seu programa nuclear. Na prática, tudo sugere que Trump terá de rever sua rejeição ao acordo de 2015, do qual se retirou em 2018.

O bode adicional na sala é Hormuz. O prolongamento dos bloqueios só tenderá a ampliar a crise global e pressionar Trump, e a esta altura o Irã não parece tão preocupado com o impacto na sua já devastada economia. Não é um nó que se desata em duas reuniões.

É um jogo para ver quem pisca primeiro, não muito distante da falsa calmaria de há quase 90 anos na Europa. O problema é que, no mundo ultraconectado atual, do qual Trump é um sintoma agudo, oito meses podem virar oito horas.

Fonte: Folha de São Paulo

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