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Venezuela: María Corina tenta retorno após terremoto – 29/06/2026 – Mundo

Líder da oposição venezuelana, María Corina Machado está trabalhando para retornar ao país o mais rápido possível, segundo pessoas com conhecimento direto de seus planos. A ação pode remodelar o cenário político enquanto a líder interina, Delcy Rodríguez, tenta responder ao pior desastre natural do país em décadas.

María Corina tentou viajar para Curaçao a partir dos Estados Unidos na semana passada, com a intenção de chegar à Venezuela, segundo as fontes da Bloomberg, que pediram para não serem identificadas.

Uma equipe de segurança privada já estava se preparando para recebê-la na pequena ilha holandesa próxima à costa venezuelana, mas ela cancelou essa tentativa depois que o governo de Donald Trump deixou claro que ela estaria viajando por sua própria conta e risco e sem apoio dos EUA.

Vários funcionários americanos disseram à líder da oposição e à sua equipe que estão preocupados que seu retorno possa causar um confronto com o regime atual e desviar a atenção dos esforços de resgate. Mas ela teria recebido encorajamento de pelo menos um funcionário de alto escalão dentro do governo Trump.

Não está claro se as preocupações entre a maioria dos assessores de Trump envolvidos na política para a Venezuela e a tentativa fracassada de viajar atrasarão ou cancelarão seus planos.

Um obstáculo é que María Corina não possui passaporte venezuelano válido e precisa de permissão para viajar. Portanto, qualquer tentativa de reentrar no país sem a permissão do governo arrisca um confronto com as autoridades em Caracas. Os planos de que seguranças particulares protegessem a oposicionista na chegada à Venezuela representavam outro risco de conflito, disseram as fontes.

A líder política machucou as costas enquanto fugia secretamente da Venezuela para Curaçao, em dezembro, para viajar à Noruega e aceitar o Prêmio Nobel da Paz. A jornada incluiu uma viagem noturna em um pequeno barco, com a ajuda da Grey Bull Rescue, uma organização sem fins lucrativos liderada por veteranos de combate americanos e especializada em extrações sigilosas.

O secretário de Estado americano Marco Rubio e outros funcionários em Washington apoiaram o eventual retorno de María Corina assim que um acordo fosse alcançado com o governo chavista, mas o governo Trump também pediu que ela fosse paciente. O temor é de que uma volta cedo demais poderia alimentar a polarização e a instabilidade. Isso poderia ser intensificado pelo estresse do terremoto desta semana, que matou mais de 1.500 pessoas.

Um retorno da oposicionista forçaria Delcy a escolher entre acolher sua principal rival política, em uma demonstração de unidade nacional, ou arriscar acusações de que seu governo está apertando o controle sobre a política durante uma emergência nacional. A forma como a líder interina lida com a crise já está moldando as percepções sobre seu governo após os EUA removerem Nicolás Maduro no início de janeiro.

A equipe de María Corina, o Ministério da Informação da Venezuela, a Casa Branca e o Departamento de Estado não responderam aos pedidos de comentário feitos pela Bloomberg.

O retorno também testaria Delcy, cuja taxa de desaprovação subiu para 59% em maio, um aumento de quase 12 pontos percentuais em relação a abril, segundo uma pesquisa da AtlasIntel realizada para a Bloomberg News.

A líder interina foi confrontada por moradores irritados durante uma visita a um bairro de Caracas danificado pelo terremoto na noite de sexta-feira (26), com pessoas acusando as autoridades de não fazer nada por elas e gritando “Fora!”. María Corina, ainda a líder política mais popular da Venezuela, poderia canalizar a frustração pública com a resposta do governo.

No entanto, alguns observadores veem a crise como uma oportunidade para Delcy também. Permitir que María Corina retorne e participe dos esforços de socorro representaria o sinal mais claro até agora de abertura política sob a transição apoiada pelos EUA e projetaria uma imagem de unidade nacional após a deposição de Maduro.

Por outro lado, o falecido Hugo Chávez, mentor de Maduro e arquiteto do movimento socialista moderno na Venezuela, usou a crise das enchentes que mataram milhares em 1999 e a resposta de seu governo para aprofundar o papel das forças armadas e a centralização do poder.

O número de mortos da tragédia atual subiu para mais de 1.400 após dois terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 atingirem o país com um minuto de diferença na quarta-feira. Os tremores feriram mais de 3.000 pessoas e provocaram mais de 430 réplicas até sábado (27), segundo as autoridades.

O desastre já levou Delcy a buscar uma política externa incomumente pragmática. Seu governo acolheu ajuda dos EUA, bem como de governos antes vistos como adversários políticos, incluindo El Salvador, Chile, Equador, Israel, Paraguai e Itália.

Essa abertura, no entanto, não se estendeu dentro da Venezuela. Líderes da oposição acusaram as autoridades na sexta-feira (26) de bloquear esforços de socorro ao parar um caminhão de ajuda em Caracas e assediar voluntários em um centro de coleta na cidade de Cumaná, no nordeste da Venezuela.

O governo também buscou centralizar a assistência humanitária, pedindo aos cidadãos que canalizem doações e registros de voluntários através de centros de coleta oficiais e plataformas estatais, enquanto promove o VenApp como o principal canal para relatar pessoas desaparecidas e coordenar o socorro.

Enquanto isso, a oposição construiu uma rede humanitária paralela e um registro de pessoas desaparecidas mostrando que mais de 55 mil pessoas permanecem sem paradeiro conhecido.

As autoridades também restringiram o acesso ao estado mais atingido, La Guaira, com Rodríguez dizendo que a medida é necessária para proteger as operações de resgate e implementar controles sanitários.

María Corina permaneceu no exterior desde que saiu do esconderijo e deixou a Venezuela no final do ano passado. Ela prometeu retornar desde então, particularmente após Maduro ser capturado por forças americanas em janeiro.

Em uma mensagem de vídeo após os terremotos, a líder da oposição disse aos apoiadores que “muito, muito em breve, vamos nos abraçar na Venezuela”.

A forma como Delcy lida com o desastre — e se ela permite que sua principal rival política retorne durante ele — pode se tornar um teste definidor de seu jovem governo.

Fonte: Folha de São Paulo

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