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Folha no Irã: Iranianos sofrem impacto econômico da guerra – 16/05/2026 – Mundo

Em seu açougue no bairro pobre de Shoush, no sul de Teerã, o açougueiro Mojtaba quase não vende mais o item mais caro que tinha na loja, a carne de carneiro. Desde o início da guerra de Israel e Estados Unidos contra o Irã, no fim de fevereiro, o produto mais procurado são os ossos, que custam o equivalente a pouco mais de R$ 5.

“A gente costumava jogar fora os ossos, mas agora um monte de gente vem comprar”, diz Mojtaba. “E se não fosse o subsídio do governo [R$ 25 por mês por pessoa], já tínhamos fechado as portas.” Os preços das carnes subiram mais de 40% desde o começo da guerra, e o movimento caiu pela metade.

Saeid, 52, desempregado, passa no açougue de Mojtaba todos os dias. Mas só vai para perguntar os preços e ver o quanto subiram. A última vez em que ele comeu frango, a proteína mais barata, foi há mais de um mês. Antes, comprava toda semana. “Quem está pagando o preço desta guerra é a gente”, diz Saeid, que perdeu o emprego em uma barbearia no ano passado.

Nas ruas de Teerã, é difícil achar sinais da guerra. As autoridades limparam os destroços da maioria dos locais bombardeados no início do conflito. As ruas e os cafés estão cheios. Mas os efeitos econômicos do conflito, principalmente a inflação dos alimentos, estão bem presentes.

Com o bloqueio americano no estreito de Hormuz, muitas mercadorias não chegam ao país ou precisam ser transportadas por rotas terrestres alternativas, por Turquia e Azerbaijão, e pelo mar Cáspio, encarecendo o frete.

Mas integrantes do governo e analistas alinhados a ele ouvidos pela Folha afirmam que o Irã consegue aguentar mais três ou quatro meses da guerra econômica de Washington e Tel Aviv. Eles apostam que o fôlego do Irã para resistir à inflação é maior do que o de Donald Trump, que enfrenta queda na popularidade devido a alta de preços de combustíveis nos EUA a seis meses das eleições legislativas.

Nas ruas de Teerã, todas as noites há manifestações de apoio ao governo. Na última quarta-feira (13), a Folha esteve em uma delas na praça Enghelab, no centro da cidade, com a presença da seleção iraniana de futebol, que vai disputar a Copa do Mundo.

Milhares de pessoas entoavam gritos de apoio ao país, carregando fotos de Ali Khamenei, o aiatolá morto em ataque no início da guerra, Mojtaba Khamenei, seu filho e atual líder supremo, bandeiras do Irã e do Hezbollah.

Não se veem protestos contra o governo em Teerã. Em dezembro e janeiro, uma onda de protestos contra a situação econômica deixou um saldo de milhares de mortos no país pela repressão das forças de segurança iranianas.

O discurso oficial é que o Irã está vencendo a guerra e pode resistir muito tempo às pressões americanas. As autoridades sentem-se vitoriosas ao controlar o estreito de Hormuz, que deixou o mundo refém.

“Trump achou que ia conseguir fazer ‘mudança de regime’ em Teerã, mas errou por mil quilômetros —houve mudança de regime em Hormuz”, diz Foad Azodi, professor da Universidade de Teerã. “Nós conseguimos aguentar a pressão econômica por muito mais tempo que Trump.”

Segundo dados do banco central iraniano, a inflação geral está em 73,5%, enquanto os preços de alimentos e bebidas subiram 115%. Em março, o ministro do Trabalho do Irã, Ahmad Meydari, anunciou um aumento de 60% no salário mínimo do país, que foi de 103 milhões de riais por mês (pouco mais de R$ 390) para 166 milhões de riais (R$ 630). O rial sofreu enorme desvalorização e é negociado a cerca de 1,9 milhão por dólar americano.

Ninguém mais leva dinheiro para fazer compras —seria necessário carregar uma mochila cheia de notas para obter poucos produtos. Quase todas as transações são feitas com cartões de débito e transferências eletrônicas usando o celular.

Também foram anunciados aumentos para os programas de auxílio para famílias. O Ministério do Bem-Estar Social do Irã disse que distribuirá vouchers eletrônicos para cerca de 87 milhões de pessoas fazerem compras em lojas designadas.

À emissora estatal IRIB o chefe do Judiciário do Irã, Gholam Hossein Mohseni Ejei, disse que “o inimigo está tentando pressionar economicamente a população”.

Óleo de cozinha se transformou em um símbolo da carestia. Na fronteira entre a Turquia e o Irã, no noroeste do país, inúmeras pessoas cruzam a pé para comprar galões de cinco litros de óleo de girassol. A mercadoria é preciosa. No mercado de Shoush, em Teerã, o galão saía pelo equivalente a R$ 60 antes da guerra. Agora, está a mais de R$ 120.

Grande parte do óleo de girassol, canola e milho vendida no país é importada e inflacionou com o bloqueio americano. Além disso, o governo iraniano eliminou subsídio ao produto no final do ano passado para reduzir gastos, pressionando ainda mais os preços.

“Muita gente que ganha o salário mínimo não consegue mais pagar aluguel e comprar os alimentos”, diz Behzad, dono de uma banca que vende alimentos. “Meu movimento caiu uns 70%”.

Outro grande golpe foi o bloqueio da internet. Muitos iranianos dependiam de redes sociais para seus negócios. Zeynab Dezfouly e seu noivo, Mansour Salimi, faziam 70% das vendas de suas bolsas e chapéus de crochê pelo Instagram quando a internet foi bloqueada, no início da guerra.

Com a perda da loja online, eles passaram a vender na rua, em dois mercados, na oficina de costura e em um site local iraniano, que está fora do bloqueio imposto pelo governo. “Se a situação continuar piorando, se a pressão continuar, vamos ter que demitir gente”, disse Zeynab, que emprega direta e indiretamente dez pessoas.

Ainda assim, um integrante do governo manifestou confiança. Não há falta generalizada de produtos nas lojas, e o governo tomou medidas para aliviar os efeitos da inflação sobre a população. “Isso aqui parece um país em guerra para você?”, indagou à Folha. “Nós somos resilientes. Trump achou que viria aqui pegar o petróleo e invadir nosso país, não conseguiu nada.”

Fonte: Folha de São Paulo

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