“Israel tem de ser apagado do mapa“, disse o então presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, à plateia de um evento com o explícito nome “Congresso Mundo Sem Sionismo”. Em novembro de 2005, o engenheiro civil tinha assumido havia poucos meses o comando do país persa, sepultando um ciclo reformista.
Membro da linha-dura da teocracia islâmica —embora tenha sido seu primeiro presidente secular—, Ahmadinejad ocupou a Presidência até 2013, em uma gestão marcada pelo acirramento do enfrentamento com os Estados Unidos, pelas declarações antissemitas, pela defesa do programa nuclear e pela repressão brutal a protestos contra sua reeleição em 2009.
Após deixar o cargo, ele continuou na vida pública iraniana, fazendo parte do Conselho de Discernimento. O colegiado é indicado pelo líder supremo, que até este sábado (28) era Ali Khamenei, e tem como papel aconselhar o aiatolá.
Apesar disso, o político sofreu um processo de isolamento após se desentender com Khamenei. Em 2021 e 2024, ele tentou se candidatar à Presidência, mas foi desqualificado pelo Conselho de Guardiões, grupo de juristas com poder de veto.
A trajetória de Ahmadinejad, 69, terminou neste fim de semana, quando ele foi morto pelos bombardeios comandados pelos EUA e Israel. Embora as primeiras notícias afirmassem que o ex-presidente havia sobrevivido, sua morte foi confirmada neste domingo (1º).
Segundo a agência de notícias iraniana Ilna, ele foi alvejado em sua casa, na zona leste de Teerã, juntamente com seus guarda-costas.
Nascido em uma aldeia de menos de 5.000 habitantes, Ahmadinejad cresceu na capital e se formou em engenharia civil na Universidade de Ciência e Tecnologia do Irã. Em 1979, ainda como universitário, participou da Revolução Islâmica como líder estudantil.
Há relatos de que ele tenha sido parte do grupo que manteve 52 americanos reféns na embaixada por 444 dias, embora Ahmadinejad e outros sequestradores tenham negado a participação dele no incidente.
Uma vez derrubado o xá Mohammed Reza Pahlavi, o jovem engenheiro se uniu à recém-criada Guarda Revolucionária, onde participou da guerra entre o Irã e o Iraque, de 1980 a 1988. Alguns anos depois, em 1993, foi indicado para governar a província de Ardabil, seu primeiro posto político de maior relevância.
Em 2003, foi eleito prefeito de Teerã em uma guinada conservadora que, dois anos depois, levou para o âmbito nacional. Sua eleição para o comando do país persa reforçou a aversão à cultura ocidental, principal mote da Revolução Islâmica liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, antecessor de Khamenei.
Cinco dias depois da posse de Ahmadinejad, o Irã passou a converter urânio, um processo necessário para a construção de armamentos nucleares. Teerã sempre negou a intenção de construir uma bomba atômica e afirmou que o programa tinha fins energéticos —declarações que nunca tranquilizaram rivais da região, como Israel, ou o Ocidente.
Nos anos seguintes, o país continuou a ampliar as instalações nucleares, passou a enriquecer urânio e foi alvo de uma série de sanções do Conselho de Segurança da ONU. Apesar da pressão externa, Ahmadinejad manteve a defesa do programa nuclear iraniano.
“Apesar do direito inalienável de todos os países, inclusive da nação iraniana, de produzir combustível nuclear com fins pacíficos, e apesar da transparência das atividades iranianas e de nossa cooperação com os inspetores da Aiea (Agência Internacional de Energia Atômica), algumas potências intimidadoras estão tentando colocar obstáculos, exercendo pressões políticas e econômicas contra o Irã”, declarou o chefe de Estado iraniano em 2008, durante discurso na Assembleia-Geral da ONU.
O ultraconservador criou uma proximidade com o presidente Lula (PT) que, durante seus dois primeiros mandatos, recebeu Ahmadinejad no Brasil em meio aos protestos contra sua reeleição, acusada de fraude.
“Há uma oposição que não se conforma [com o resultado das eleições]. O resultado desse conflito são inocentes morrendo, o que é lamentável e inaceitável por parte de qualquer democrata do mundo”, afirmou Lula em 2009.
O apoio do petista a Ahmadinejad gerou críticas internacionais, que Lula rejeitou afirmando que o Irã não deveria ser isolado por seu programa nuclear.
Além de ameaçar riscar Israel do mapa, frase que repetiu em mais de uma ocasião, o então presidente iraniano negava a existência do Holocausto e chamava o Estado judeu de “tumor canceroso”.
Internamente, sua gestão restringiu direitos —proibindo, por exemplo, músicas ocidentais em rádio e aumentando a fiscalização do uso “correto” das vestimentas islâmicas por mulheres. Ao mesmo tempo, Ahmadinejad foi o primeiro a apontar mulheres para compor seu gabinete desde a Revolução Islâmica.
Ao longo de oito anos no poder, o político linha-dura transformou a retórica em arma diplomática e a confrontação em método de governo. Sua morte, em meio a bombardeios que aprofundam a instabilidade regional, encerra uma trajetória moldada pelo conflito, mas as tensões que ajudou a consolidar seguem vivas.




