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Não é a economia, estúpido
Em 1992, o estrategista James Carville pendurou um cartaz na sede da campanha de Bill Clinton com uma instrução que virou um mantra da política ocidental: “a economia, estúpido”. A ideia era simples —o eleitor vota com o bolso.
Parece que, 34 anos depois, a fórmula deixou de funcionar no Reino Unido. Pesquisas mostram que a imigração superou a economia como principal preocupação dos eleitores britânicos. Não apenas a imigração ilegal, nem apenas os pedidos de asilo: o tema como um todo.
Os eventos desta semana ajudam a explicar por quê.
Na segunda-feira, um homem foi atacado a facadas em Belfast, na Irlanda do Norte. Perdeu o olho esquerdo, teve danos no olho direito e ferimentos no pescoço e nas costas.
O acusado, Hadi Alodid, sudanês de 30 anos, recebeu status de refugiado ao entrar no Reino Unido em 2023. Foi denunciado por tentativa de homicídio e está preso preventivamente.
Na noite seguinte, Belfast pegou fogo. Centenas de homens mascarados, com garrafas e tijolos, incendiaram casas, carros e um ônibus aos gritos de “estrangeiros, fora”.
Uma família africana teve que abandonar sua casa, onde vivia há 20 anos, após ter as janelas apedrejadas. Uma adolescente ucraniana escapou de casa com a porta da frente em chamas. Bombeiros e policiais retiraram famílias de prédios incendiados. Dois policiais ficaram feridos, e 200 agentes extras foram enviados como reforço.
A família da vítima, Stephen Ogilvie, pediu fim à violência e à desinformação: ele está em estado estável. Os ministros do governo regional disseram que os manifestantes estão “usando a dor genuína das pessoas para seus próprios propósitos”.
A vice-primeira-ministra da Irlanda do Norte, Emma Little-Pengelly, condenou a violência, mas disse compreender a raiva.
“As comunidades estão muito preocupadas com o que está acontecendo”, afirmou. A frase resume o desconforto dos políticos tradicionais diante do tema: condenar o método sem hostilizar o sentimento.
Belfast não foi um caso isolado. Na semana anterior, tumultos semelhantes tomaram Southampton, na Inglaterra.
O estopim foi a divulgação do vídeo de uma câmera policial mostrando os últimos minutos de Henry Nowak, estudante de 18 anos esfaqueado em dezembro. O agressor, um sikh nascido no Reino Unido —não um imigrante—, mentiu aos policiais ao acusar a vítima de racismo.
Os agentes algemaram Nowak, que agonizava no chão. Ele morreu pouco depois.
O assassino foi condenado à prisão perpétua no fim de maio. As imagens, vistas por milhões, transformaram o caso em símbolo.
Dois vídeos de violência explícita em duas semanas transformaram uma inquietação latente numa pauta incandescente.
Ninguém capitaliza isso melhor do que Nigel Farage. Seu partido, o Reform UK, construiu sua ascensão sobre a questão migratória, e o líder reagiu ao caso Nowak pedindo, em pronunciamento, que os britânicos respondessem com “pura raiva fria”.
O ativista de extrema-direita Tommy Robinson amplifica as tensões nas redes. E Elon Musk entrou no jogo: publicou mais de 110 posts sobre política britânica em uma única semana.
O fenômeno não é britânico, é europeu.
- Na Holanda, o partido de Geert Wilders venceu as eleições de 2023 prometendo “a lei de asilo mais dura de todos os tempos”.
- Na França, o Reunião Nacional (RN) de Marine Le Pen obteve sua maior votação na Assembleia Nacional em 2024 —com 36% dos eleitores de 18 a 24 anos.
- Na Alemanha, a Alternativa para a Alemanha (AfD) venceu na Turíngia a primeira eleição regional conquistada pela extrema-direita desde a Segunda Guerra.
- Na Espanha, o Vox, que acusa o governo de promover “uma invasão de migrantes”, é a terceira força nas pesquisas e possível fiador de uma futura coalizão.
- Na Suíça, a direita populista levou a referendo uma proposta de limitar a população do país a 10 milhões de habitantes. A votação será neste domingo (14), e as pesquisas indicam disputa apertada.
Aqui está o nó: a Europa precisa dos imigrantes que suas ruas rejeitam.
A população em idade ativa do continente deve encolher 15% até 2070. A taxa de natalidade na União Europeia é de 1,46 filho por mulher.
Na Alemanha, a Fundação Bertelsmann calcula que a força de trabalho cairá de 46,4 milhões para 41,9 milhões até 2040 —a menos que o país admita 288 mil trabalhadores qualificados estrangeiros por ano.
A Espanha criou 1 em cada 4 dos novos empregos da UE desde 2020; cerca de 70% deles foram ocupados por imigrantes. O premiê espanhol, Pedro Sánchez, resumiu a escolha: ser “uma sociedade aberta e, portanto, próspera, ou fechada e empobrecida”.
Os governos sabem disso. Em privado, admitem. Em público, correm na direção oposta.
Em dezembro, ministros da UE aprovaram regras para enviar requerentes de asilo rejeitados a centros fora do bloco —eco do plano britânico de Ruanda, abandonado. A Holanda já havia assinado, meses antes, uma carta de intenções com Uganda para criar um centro do tipo.
E quando a Justiça barra os planos —como fizeram os tribunais na Itália, na França e na Alemanha—, a resposta é atacar os tribunais: nove líderes europeus assinaram carta acusando a Corte Europeia de Direitos Humanos de ter ido longe demais.
O resultado é uma política feita de remendos. A extrema-direita dita o tema, o ritmo e o vocabulário do debate. Os governos de centro respondem endurecendo regras que a Justiça derruba, terceirizando fronteiras que os traficantes contornam e evitando dizer em voz alta o que seus próprios economistas afirmam: a Europa que envelhece precisa de mais imigrantes, não de menos.
Enquanto a conta demográfica não fecha, quem lucra é quem grita —e as ruas de Belfast mostraram esta semana o tamanho do grito.
O preço de Hormuz
A guerra no Golfo chegou de vez ao bolso do consumidor americano.
A inflação nos EUA subiu a 4,2% em maio, segundo dados divulgados nesta quarta-feira. É o maior nível em três anos. Quando o conflito com o Irã começou, no fim de fevereiro, o índice estava em 2,4%.
Desde então, gasolina e diesel subiram cerca de 40%, e a energia respondeu por mais de 60% da alta de preços do mês. O contágio alcança alimentos e fretes.
A conta política é visível: 68% dos americanos desaprovam a gestão de Donald Trump sobre a inflação, e sua aprovação geral caiu a 35%, segundo pesquisa Economist/YouGov divulgada nesta semana. Dois terços o consideram ineficaz nas negociações com o Irã.
Há mais de duas semanas Trump acena com um acordo de paz que reabriria o estreito de Hormuz, por onde passa parte essencial do petróleo mundial.
Mas o cessar-fogo firmado em abril, com mediação do Paquistão, foi rompido em vários momentos —o próprio presidente americano admitiu que a trégua está “por um fio”. Enquanto a diplomacia patina, as pressões inflacionárias se acumulam.
E não só nos Estados Unidos. O choque é global e do tipo mais incômodo: estagflacionário, com preços em alta e crescimento em queda.
O Federal Reserve adotou postura de espera, mas o mercado aposta em alta de juros até o fim do ano —antes da guerra, esperava cortes.
O Banco da Inglaterra abandonou o viés de afrouxamento, e os juros dos títulos britânicos de dez anos atingiram 5% pela primeira vez em quase duas décadas. O Banco Central Europeu mantém a taxa em 2% e observa.
No Brasil, com a Selic em 15%, o mercado vinha apostando em cortes mais rápidos: em janeiro, o Boletim Focus projetava a taxa em 12,25% no fim de 2026.
Depois do choque do petróleo, a projeção não parou de subir —está em 13,5%, com a inflação esperada para o ano em 5,11%, acima do teto da meta.
Tradução: o Banco Central deve cortar bem menos do que se esperava. O Copom se reúne na semana que vem, na terça e quarta, e dirá o quanto a guerra do outro lado do mundo vai custar ao crédito no Brasil.
Frase da semana
Infelizmente, a Rússia está novamente escolhendo a guerra. Uma resposta fraca. Ele simplesmente não quer pôr fim à guerra.
Baratas contra Modi
Começou como piada e virou caso de polícia —ou quase.
Em maio, o presidente da Suprema Corte da Índia, Surya Kant, comparou jovens desempregados a “baratas” e “parasitas da sociedade”.
A resposta veio em 24 horas: nasceu o Cockroach Janta Party, o Partido do Povo Barata —paródia do Bharatiya Janata Party (BJP), a legenda do primeiro-ministro Narendra Modi.
O deboche pegou. O movimento, fundado por Abhijeet Dipke, soma mais de 22 milhões de seguidores no Instagram e é hoje descrito como a maior expressão online de dissidência contra Modi.
No sábado (6), fez seu primeiro teste fora das telas: centenas de jovens, alguns de máscara de barata e com apostilas de vestibular na mão, protestaram no centro de Nova Délhi pedindo a renúncia do ministro da Educação —o estopim foi o vazamento que anulou um vestibular de medicina e travou a carreira de milhões de estudantes.
A sátira esconde um dado sério: na Ásia, movimentos juvenis nascidos nas redes ajudaram a derrubar governos no Sri Lanka, em Bangladesh e no Nepal. Modi conhece a lista.
No radar
Referendo na Suíça (domingo, 14) — Os suíços votam a proposta da direita populista de limitar a população do país a 10 milhões de habitantes. As pesquisas indicam empate técnico. Se aprovada, a medida pode forçar o fim do acordo de livre circulação com a União Europeia.
G7 em Évian (15 a 17) — O último G7 de Emmanuel Macron como presidente da França, na cidade termal ao pé dos Alpes. Trump e Lula confirmaram presença. O clima promete ser pesado —guerra no Irã, tarifas e a trégua na Ucrânia na mesa.
Superquarta dupla (16 e 17) — Copom e Federal Reserve decidem juros nos mesmos dias, ambos sob pressão da inflação da guerra. Em Washington, será a primeira reunião comandada por Kevin Warsh, o novo presidente do Fed, acompanhada de novas projeções econômicas. Em Brasília, o mercado quer saber se o ciclo de cortes sobrevive ao choque do petróleo.
A semana toda:
- Irã. Trump prometeu o acordo que reabriria o Estreito de Hormuz para “os próximos dias” —e a promessa já se estende por mais de duas semanas. Qualquer assinatura mexe imediatamente com petróleo, inflação e bancos centrais.
- Ucrânia. Zelenski propôs, em carta aberta, um encontro direto com Putin. O Kremlin respondeu com frieza: que o ucraniano vá a Moscou. Trump, que estabeleceu junho como prazo para um acordo, disse que o encontro “seria ótimo”. A semana dirá se a ideia avança ou morre.
O mês todo:
- Copa do Mundo. O maior evento do planeta começa no dia em que você lê esta newsletter: México x África do Sul, no Estádio Azteca, na Cidade do México —o primeiro estádio a abrir três Copas. É o primeiro Mundial sediado por três países (México, EUA e Canadá) e o primeiro com 48 seleções. O Brasil de Carlo Ancelotti estreia no sábado (13), contra o Marrocos, em Nova Jersey.
Fora da pauta
“World Cup Fever,” de Simon Kuper (Pegasus Books, 2026) — eleito um dos melhores livros do ano pela The New Yorker. Kuper, colunista do Financial Times radicado em Paris, cobriu todas as edições do torneio desde a Itália, em 1990. O livro percorre nove Copas para mostrar como o Mundial se transformou —de torneio semiprofissional a negócio global de compras multinacionais e ética duvidosa.




