A saída de Vladimir Padrino do comando das Forças Armadas venezuelanas marca um dos movimentos políticos mais relevantes desde a queda do ditador Nicolás Maduro. Padrino foi o principal fiador militar do regime e o executor da política de repressão.
Próximo de Hugo Chávez desde os anos 1990, ele se consolidou como uma das figuras de maior confiança do líder. Após a morte de Chávez, coube a Padrino garantir a continuidade de um sistema que já não contava com seu fundador. Com Maduro, sua influência se expandiu.
Nomeado ministro da Defesa em 2014, Padrino exerceu funções que ultrapassavam o âmbito militar. Sob sua liderança, os militares passaram a ser parte orgânica do poder. Ministérios estratégicos e áreas-chave da economia foram ocupados por oficiais.
Alimentação, energia, transporte, petróleo: setores centrais do funcionamento do país foram entregues a militares, consolidando uma elite com acesso direto a recursos e influência política. Além disso, sempre tiveram mil benefícios, incluindo seus próprios bares e restaurantes nos quais bebidas e comidas importadas eram abundantes.
À frente das Forças Armadas, Padrino comandou a repressão às manifestações. Em 2017, mostrou mão de ferro durante os protestos contra a nova Assembleia Constituinte em que dezenas de manifestantes, muitos deles jovens, foram mortos.
Sua saída representa uma fissura relevante. Mas não basta para uma transformação real do cotidiano dos venezuelanos.
Dois meses após a queda de Maduro, a vida dos venezuelanos continua marcada por deterioração persistente. Dados recentes da Bloomberg mostram que a inflação anual voltou a disparar, atingindo cerca de 600% em fevereiro.
A base da economia permanece fragilizada. A produção de petróleo caiu cerca de 21%. Sem moeda forte circulando, os preços sobem, e os salários perdem valor.
O impacto é direto. Cerca de 80% dos venezuelanos afirmam que sua situação econômica não melhorou nos primeiros meses do ano.
Essa desconexão expõe os limites da estratégia adotada pelos Estados Unidos. A aposta de Washington, com base no alívio seletivo de sanções e no controle indireto da renda petroleira, parte do pressuposto de que mudanças políticas rápidas se traduziriam em melhora econômica. Não foi o que ocorreu.
A economia venezuelana não responde a sinais políticos com velocidade. A escassez de dólares, a fragilidade institucional e a dependência do petróleo impõem limites a qualquer tentativa de recuperação.
Enquanto isso, no cotidiano, a realidade continua dura. Fazer compras exige um exercício de cálculo permanente, com preços dolarizados e rendas corroídas. Abastecer o carro depende da disponibilidade irregular de combustível, quando este existe. Serviços básicos falham, e o acesso ao consumo revela uma desigualdade cada vez mais visível entre quem consegue escapar da economia em bolívares, com remessas do exterior, e quem permanece preso a ela.
A saída de Padrino López pode marcar o início de uma nova etapa política. Mas, por enquanto, nada mudou no bolso e na mesa dos venezuelanos.
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