Yeison Lamus, 47, cruzou metade da Venezuela, desde o estado fronteiriço de Táchira até o epicentro do desastre causado pelos terremotos de uma semana atrás, o estado de La Guaira, em busca do irmão.
Jhonattan, 40, foi um dos 146 imigrantes deportados pelos Estados Unidos no mesmo dia em que ocorreram os fortes tremores. O grupo fora alocado pelo Estado venezuelano em uma área que desabou. Yeison desde aquele dia não tem notícias do irmão. Quando tentou acessar o local nesta quarta-feira (1º), foi impedido.
A agência de inteligência da Venezuela, Sebin, tem proibido a imprensa e familiares de vítimas de acessarem o entorno do local onde estavam os deportados. O espaço foi completamente destruído, e dezenas seguem sob os escombros.
A reportagem foi barrada no local, localizado em uma área montanhosa da cidade litorânea de Macuto, no estado de La Guaira. O mesmo aconteceu com Yeison e sua família, que estavam ali. E esse é um relato que se multiplica entre os parentes desses deportados.
Nenhuma justificativa foi apresentada pelos membros da Sebin. Ao fundo, havia um trator parado em meio aos escombros; quebrada, disseram os agentes. Procurado, o Ministério de Comunicações da Venezuela, que tem atendido à imprensa internacional diante da tragédia, não se manifestou.
Informações públicas do programa Vuelta la Pátria, criado pelo Estado chavista, indicam que os 146 imigrantes chegaram durante a tarde do dia do terremoto ao Aeroporto Internacional de Maiquetía (agora fechado e parcialmente colapsado) vindos de Miami, na Flórida.
Eram 120 homens, 9 mulheres e 7 crianças. Não se sabe quantos morreram, quantos sobreviveram e quantos continuam sob os escombros em condições desconhecidas. As famílias afirmam não estar recebendo nenhuma assistência.
Já nas primeiras horas após os terremotos, elas inundaram a página do Instagram do Vuelta La Pátria com perguntas desesperadas:
“Meu filho foi um dos que chegaram e estava no hotel, agora não sei nada sobre ele.”
“Meu esposo veio nesse voo e conseguiu me ligar. O edifício onde eles estavam veio abaixo em questão de minutos, e há muitos feridos e pessoas mortas. É uma situação lamentável e que dá desespero.”
Caracas levava todos os deportados para o local conhecido como Hotel Santuario, que se tratava de uma instalação criada pela Missão Negra Hipólita, um programa social chavista para atender pessoas em situação de rua e usuários de drogas.
Os imigrantes retornados eram levados para lá e, no dia seguinte, direcionados a seus respectivos estados dentro do país. O grupo do “voo 164”, no qual estava Jhonattan, não teve tempo.
O espaço está localizado em uma encosta na divisa entre as cidades de Macuto e Caraballeda. A região costeira possui muitos hotéis de veraneio e é conhecida como a praia dos caraquenhos. Inúmeros desses hotéis colapsaram nos terremotos.
Em um deles, socorristas afirmavam que ainda havia 30 corpos embaixo dos escombros na manhã desta quarta-feira. Em todos os dias anteriores alguém havia sido resgatado vivo ali. O cheiro era pungente.
Enquanto falava com a reportagem no meio-fio das ruas de Macuto após ser impedida de acessar o local para obter qualquer informação, a família de Jhonattan recebeu uma notícia por WhatsApp. Uma amiga disse que o corpo dele estaria no Bolipuerto, o porto de La Guaira que virou um necrotério a céu aberto.
A família correu para o carro, a caminho do local. Dentro do porto, centenas de corpos, alguns envoltos em sacos pretos, outros parcialmente descobertos, acumulavam-se embaixo do sol forte. Ao fundo, havia milhares de sacos de cal e centenas de caixões.
Apesar da grande quantidade de funcionários ali, o atendimento era lento. A família ficou três horas no local para receber uma notícia, e ela não foi boa. Não havia registro de que o corpo de Jhonattan estava ali.
Eles seguiram, então, para o hospital geral do Estado. Outra negativa. Até a publicação dessa reportagem, uma semana após os terremotos, a família não sabia seu paradeiro.
Jhonattan deixou o país há dez anos, no ápice da crise econômica, em busca de dinheiro e trabalho que lhe permitisse ajudar os pais idosos. Eram as remessas de dinheiro que ele enviava que mantinham o casal de aposentados. Primeiro, foi ao Chile, por onde esteve por sete anos.
Há três, mudou-se para os Estados Unidos, no estado de Nova Jersey. Pediu asilo no país e foi agraciado pelo TPS, o programa de proteção temporária que permitira aos venezuelanos trabalharem e impedia sua deportação. O presidente Donald Trump encerrou o programa na semana passada.
O irmão de Yeison foi preso quando se apresentou para uma audiência rotineira na corte de migrações, como tem acontecido com tantos outros imigrantes. No dia 24 de junho, foi deportado. A única que sabia de sua chegada era a irmã. Ele queria fazer uma surpresa para o pai de 86 anos chegando sem aviso na casa da família.
Quando soube dos terremotos, ela contou a todos que Jhonattan estava em La Guaira. Ali começou o desespero. A família se conectou pelas redes sociais com vários outros familiares de deportados do “voo 164”.
“Na Venezuela vamos deitar com um golpe e nos levantamos com outro. Mas sempre voltamos a nos levantar. Agora, foram duros demais com a gente, não? Isso já é demais”, diz Yelitza Osuna, prima de Jhonattan que acompanha a busca.




