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Ucrânia: Rússia aposta no cansaço europeu, diz analista – 16/06/2026 – Mundo

Com a Guerra da Ucrânia ultrapassando a Primeira Guerra Mundial em duração, os relatos da linha de frente e análises especializadas apontam que o conflito, mais uma vez, estagnou. Os avanços russos dos últimos meses diminuíram de ritmo, e os ucranianos chegaram a recuperar território perdido —enquanto negociações para o fim do conflito ainda parecem distantes.

Isso porque o presidente Vladimir Putin aposta no cansaço dos países europeus com a guerra, que então deixariam de financiar as Forças Armadas ucranianas e tornariam uma vitória completa da Rússia possível, diz o analista Tomasz Smura.

Membro do Fórum de Segurança de Varsóvia e diretor da Fundação Casimir Pulanski, o especialista polonês avalia que os objetivos de Moscou, apesar de esforços diplomáticos, continuam maximalistas: o reconhecimento internacional de territórios ucranianos capturados e o isolamento diplomático da Ucrânia, com a proibição de que o país faça parte da Otan e da União Europeia.

“A Rússia ainda acredita que pode atingir esses objetivos se simplesmente esperar mais alguns meses ou anos, apostando que a opinião pública europeia se cansará do conflito e encerrará seu apoio aos ucranianos”, diz Smura, no Brasil para a 23ª edição da Conferência de Segurança Internacional do Forte.

“Acredito que nosso papel como europeus é demonstrar que essa avaliação está errada, pois apoiaremos a Ucrânia pelo tempo que for necessário“, afirma o especialista. “É preciso mostrar aos russos que não faz sentido continuar a guerra e que eles precisam começar a negociar seriamente.”

Além disso, Smura avalia que o esforço de guerra da Rússia não é sustentável —apesar da imagem de resiliência econômica e social que Putin tenta demonstrar ao mundo.

“Os russos também estão cansados. Contando mortos e feridos, eles certamente perderam mais do que um milhão de soldados”, diz —a Rússia não divulga números atualizados de baixas, mas estimativas de institutos ocidentais e de governos como o do Reino Unido estimam que entre 1,18 e 1,25 milhão de russos foram mortos ou feridos na guerra desde 2022. Já o governo em Kiev diz ter sofrido meio milhão de baixas, enquanto o Kremlin diz que mais de 1,5 milhão de ucranianos foram mortos.

“Se você comparar isso com a Guerra do Afeganistão [entre 1979 e 1989], quando cerca de 50 mil soldados soviéticos morreram [estimativas variam entre 30 e 70 mil para o conflito] e isso levou a União Soviética à beira da revolução… é difícil de imaginar que a Rússia terá a capacidade de continuar a guerra intensiva que existe hoje pelos próximos anos”, afirma Smura.

Em junho, o especialista fez parte de uma delegação de representantes de países bálticos, nórdicos e da Polônia aos Estados Unidos, onde se reuniram com membros dos partidos Democrata e Republicano, incluindo integrantes do governo Donald Trump. Smura diz que, apesar das frequentes críticas da Casa Branca contra a Otan, a recepção foi amigável —mas as razões para isso são claras.

“Para os americanos, nós somos os garotos-propaganda do ‘aliado perfeito’, porque os países da nossa região gastam mais de 3% do nosso PIB com Defesa”, uma exigência constante do governo Trump a países europeus. “Alguns gastam ainda mais, como a Polônia [que gastou 4,5% em 2025 e pretende alcançar 4,8% este ano]. Depois da invasão da Ucrânia, compramos 500 tanques de guerra, mais do que a França e o Reino Unido possuem”, afirma Smura, que diz enxergar apoio significativo à aliança militar ocidental entre democratas e republicanos.

“Ainda assim, quando necessário, é preciso ser assertivo nas relações com qualquer grande potência, como os EUA e a China, seja você europeu ou latino-americano. Mostrar seus limites e deixar claro que linhas não podem ser cruzadas”, avalia o especialista. “Fizemos isso quando houve uma pressão e uma comunicação perigosa de Trump sobre a Groenlândia. Acredito que a UE, o Brasil e países do leste asiático têm muito a cooperar e insistir no cumprimento do direito internacional e da Carta das Nações Unidas.”

O jornalista viajou a convite da Conferência de Segurança Internacional do Forte.

Fonte: Folha de São Paulo

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