“É muito frustrante”, diz Carmelo Mesa-Lago, professor emérito da Universidade de Pittsburgh (EUA), sobre os estudos que realiza sobre Cuba há décadas. “Nos últimos 20 anos, a pesquisa mostra números cada vez piores.”
O cubano explica a sua terra natal por meio dessas cifras, sobre as quais se debruça ainda hoje, 27 anos após sua aposentadoria. “Pesquiso Cuba há 60 anos tentando separar questões ideológicas e factuais”, diz ele. “Sempre me baseei em estatísticas e informes internos.”
Em nenhum momento a situação esteve tão crítica quanto agora, segundo ele —o que se deve, em parte, às recentes medidas dos Estados Unidos contra a ilha. “O governo Trump está apertando os parafusos de Cuba como nunca antes”, afirma.
Mesa-Lago faz referência ao bloqueio de petróleo que Donald Trump impôs após a captura do ditador Nicolás Maduro, em janeiro. A única entrada da commodity a Cuba ocorreu no final de março por um petroleiro russo, após três meses de obstrução.
Ao contrário de muitos no exílio, o pesquisador é favorável ao diálogo com a ilha, ainda que isso custe a manutenção do regime ao qual se opõe. “Se o governo aceita fazer mudanças econômicas radicais ao estilo de China e Vietnã, que faça, porque isso vai melhorar a situação das pessoas”, diz.
O senhor tinha 24 anos quando ocorreu a Revolução Cubana. Olhando em retrospecto para esse momento, quais elementos fizeram com que uma revolução fosse possível na ilha?
Eu creio que foi fundamentalmente uma causa política. Houve uma ditadura muito sangrenta de Fulgencio Batista (1901-1973), que deu um golpe de Estado em 1952. Isso motivou uma série de atividades revolucionárias. O regime basicamente colapsou, e a caravana de Fidel Castro correu por toda a ilha até chegar a Havana.
Ninguém mediu isso, mas eu diria que, nesse momento, 98% ou 99% das pessoas eram a favor da revolução, inclusive eu. Eu trabalhei em 1959 na reforma previdenciária de Cuba. Mas, em 1961, eu já estava descontente com o rumo que a revolução levava e decidi sair.
Então o senhor estava a favor da revolução em um primeiro momento…
Completamente, eu trabalhei no Ministério do Trabalho. Minha tese na Espanha tinha sido sobre a reforma previdenciária em Cuba, e me chamaram para que eu fizesse o que havia proposto na minha tese. Foi incrível: um estudante que faz uma tese propondo uma solução e recebe a grande oportunidade de tentar realizá-la.
O que fez o senhor se afastar da revolução?
Já no começo de 1960 estava claro o caráter socialista do movimento. Não me confiscaram nada, não foi por isso —eu era da classe média, ou seja, vivia em uma casa alugada, tive um carro somente em 1959, depois do triunfo da revolução, e fui o primeiro da minha família que foi à universidade.
Mas tomaram as universidades, e eu estava lecionando em uma universidade privada. Além disso, escrevia em um jornal que se chamava El Mundo, e confiscaram o jornal. Ou seja, as minhas fontes de subsistência desapareceram, e eu não estava de acordo com o caminho que o processo estava tomando. Então decidi ir para a Espanha.
Em 2024, o senhor afirmou em uma entrevista ao jornal El País que aquele era o pior momento econômico da ilha. Qual é a sua avaliação da crise quase dois anos depois? Sabemos que piorou, mas em que termos?
Em 2023, o PIB caiu 1,9%; em 2024, 1,1%; em 2025, 5%. Essas são as cifras oficiais. Para que você tenha uma ideia, no período de 2019 a 2025, o PIB caiu anualmente a uma média de 2,3%. Então estamos falando de uma queda de cerca de 20 pontos percentuais.
Além disso, há a questão do petróleo. Em 2024, Cuba ainda estava recebendo petróleo, embora a exportação de petróleo da Venezuela à ilha tenha atingido seu pico por volta de 2017. Já era um problema em 2024, mas se acentuou em 2025 e 2026 devido às ações de Trump.
Eu considero esta crise pior do que a dos anos de 1990, porque naquele momento havia uma ajuda da União Soviética. Entre 1960 e 1990, Cuba recebeu US$ 65 bilhões da URSS, dos quais só pagou US$ 500 milhões.
A maior parte dessa ajuda era em créditos brandos ou em doações. Ou seja, Cuba estava em uma posição melhor economicamente, então estava caindo de um ponto alto. O ponto de partida desta segunda crise é muito abaixo da situação que havia nos anos de 1980.
Todas as vezes que há uma crise em Cuba, lemos que o regime está prestes a cair. O que muda agora?
Eu diria que uma razão fundamental é o fornecimento de petróleo. O governo Trump está apertando os parafusos de Cuba como nunca antes. Com a captura de Maduro, o fornecimento de petróleo da Venezuela à ilha cessa.
Esse é o problema fundamental, porque tem repercussões não só no transporte, mas também na indústria, na agricultura —tudo está relacionado com o petróleo e a falta de eletricidade. Isso faz com que os produtos na geladeira das pessoas estraguem, por exemplo.
E há ainda uma queda brutal da produção agrícola e pecuária de Cuba. É raríssimo encontrar no anuário estatístico de Cuba um produto agrícola ou pecuário que não tenha caído nos últimos cinco anos. A indústria é a mesma coisa. O último anuário disponível, que é de 2024, mostra que a queda da produção industrial é enorme.
Ou seja, a escassez de petróleo não é novidade, mas a intensidade da escassez.
Exato. O fechamento do fluxo de petróleo a Cuba é novo. Não há antecedentes como este. Outro ponto que também se deve levar em conta é que as medidas de Trump contra o turismo são muito fortes. E a pandemia já havia dizimado o turismo em Cuba. Tudo está concatenado e é uma série de problemas que vêm juntos.
Quando falamos de crise em Cuba, normalmente há duas opiniões: as autoridades culpam completamente o embargo, e os críticos culpam o sistema econômico. O que o senhor pode dizer dessas duas correntes?
Eu escrevi um artigo avaliando os 62 primeiros anos da economia de Cuba sob o embargo. E me fiz exatamente a mesma pergunta que você está fazendo: onde está a verdade? Analisei muito cuidadosamente, com cifras e estatísticas oficiais, e o resultado foi que havia fatores compensatórios que aliviavam consideravelmente o embargo.
A ajuda venezuelana, o crescimento do turismo e os envios de remessas, por exemplo. Todos esses fatores mais do que compensavam o cálculo oficial do embargo. Mas, naquele momento, só havia o primeiro governo de Trump.
Agora o embargo está, sim, ocasionando um dano fundamental a Cuba. Eu diria que era secundário antes, mas a partir desta gestão de Trump já se converte em fator fundamental.
Mas todos os meus livros demonstram que o sistema de Cuba tem sido um desastre. Há uma deterioração brutal nos serviços sociais. Cuba estava entre os dois ou três primeiros países da América Latina em indicadores como mortalidade infantil e educação em 1957, e houve uma queda.
Recentemente, a mortalidade materna voltou à situação de muito antes da revolução, dos anos de 1940. Antes diziam: “Falha a alimentação, mas temos acesso a medicina grátis e saúde universal”. Isso já desapareceu, já não existe.
Os cubanos estão ouvindo há anos que a culpa da crise é dos EUA e agora sofrem apagões justamente por um embargo agressivo. Isso não pode fazer ressuscitar o ímpeto antiamericano?
Essa é uma pergunta muito difícil porque, para responder a isso, seria necessário fazer uma pesquisa livre em Cuba, e isso é impossível.
A imprensa americana mostra que o governo Trump está negociando muito mais uma transição econômica do que política. Ou seja, não falam em tirar os Castros do poder, mas manter o regime e fazer uma abertura política. Como avalia isso?
Em geral, as pessoas no exílio são contra qualquer aproximação. Houve um chamado diálogo em 1979 —que, na realidade, foi um monólogo— no qual nos acusaram de sermos “dialogueiros”. Alguns diziam que eu era comunista, uma coisa totalmente absurda. Uma minoria pequena é a favor do diálogo e de uma solução pacífica.
Quais o senhor diria que foram as medidas acertadas do regime nos últimos anos?
Há uma visão de que Cuba era um país subdesenvolvido antes da revolução, mas isso não é verdade. O próprio Che Guevara rejeitou isso. Cuba estava entre os países com indicadores sociais mais altos da América Latina.
Já China e Vietnã, dois países que têm o chamado socialismo de mercado, eram subdesenvolvidos e devastados por guerras. O que causou essa mudança foi a transformação do sistema soviético stalinista para uma economia híbrida.
Não há nada disso em Cuba. China e Vietnã empataram com Cuba e depois a ultrapassaram. Estamos falando de uma transformação na qualidade de vida dos habitantes.
Houve algumas mudanças nos anos 90 introduzidas por Fidel, mas, quando começou a ajuda da Venezuela, ele recuou. Com Raúl também houve mudanças, mas com muitos zigue-zagues; passava-se uma medida com a mão direita, e a esquerda colocava tantos entraves que era impossível.
O setor privado de Cuba não tem nada a ver com o da China e do Vietnã. O setor privado nesses dois países tem maioria no PIB; em Cuba, as micro e pequenas empresas não chegam nem à metade.
Agora, por que não fizeram essas reformas em Cuba quando o exemplo asiático mostra que o Partido Comunista segue no poder? Eu creio que a liderança de Cuba estava aterrorizada de que, se começasse a fazer mudanças, isso se tornaria uma bola de neve.
Sob Fidel havia controle absoluto, mas Raúl teve que lutar com setores muito ortodoxos. As medidas positivas vinham com tantos entraves que não podiam funcionar. As reformas estruturais em Cuba não deram resultado e houve um declínio da economia.
O senhor quer acrescentar algo?
Pesquiso Cuba há 60 anos tentando separar questões ideológicas e factuais. Fui favorável ao diálogo e visitei a ilha várias vezes. É muito frustrante. Nos últimos 20 anos, a pesquisa mostra números cada vez piores.
Eu não poderia voltar a Cuba com a idade que tenho porque o sistema de saúde se deteriorou de uma maneira que eu não poderia sobreviver se precisasse de algo.
Mas sempre tentei olhar para as pessoas que estão sofrendo em Cuba. Para mim, o mais importante é que se alivie a penúria do povo cubano. Sei que isso é um anátema para boa parte do exílio, mas é como sinto, e isso me ajuda a balancear meu trabalho.
Sempre me baseei em estatísticas e informes internos. Uma vez me disseram que eu parecia um sueco na televisão, porque não mostrava emoção. Eu disse que isso me alegrava. Eu quero que haja mudança, mas não quero que as pessoas morram de fome.
Para mim, o ideal seria o modelo dos países escandinavos ou o exemplo da Costa Rica, que combina mudanças sociais com uma democracia completa. Mas, se o governo aceita fazer mudanças econômicas radicais ao estilo de China e Vietnã, que faça, porque isso vai melhorar a situação das pessoas.
Raio-x | Carmelo Mesa-Lago, 91
Havana, 1934. Professor emérito da Universidade de Pittsburgh (EUA), foi membro da Academia Nacional de Seguridade Social dos EUA e atuou como consultor de organizações como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento. Foi vencedor do Prêmio de Pesquisa sobre Trabalho Decente, concedido pela OIT (Organização Internacional do Trabalho).




