Diante das derrotas, o narcisismo de Donald Trump não permite outra reação senão minimizá-las. Foi o que se viu esta semana, logo após a Suprema Corte confirmar o direito à cidadania para “todos os nascidos ou naturalizados nos Estados Unidos“, conforme inscrito na 14ª Emenda da Constituição. Ele criticou a decisão e disse que não precisa de emenda alguma. Quer resolver a parada no Congresso.
A reação chega a ser patética. Ainda que a Suprema Corte tenha oferecido seguidas vitórias ao presidente no seu atual mandato, a derrota de terça-feira (30) foi histórica e exemplar. Os magistrados formaram maioria para defender uma baliza constitucional que, de fato, remete ao que significa ser americano. Isso, às vésperas da celebração dos 250 anos de independência dos EUA.
O placar de julgamento, 6 a 3, também não pode ser minimizado. Quem leu o voto vencedor foi o presidente do tribunal, John Roberts. Foi seguido pelas três juízas progressistas, Sonia Sotomayor, Elena Kagan e Ketanji Brown Jackson, e por dois conservadores, Brett Kavanaugh e Amy Coney Barrett. Esta, indicada por Trump para a corte e apoiada pelo Maga, deve ter descido aos infernos como traidora.
Votaram pelo fim da cidadania por jus soli (direito do solo) Neil Gorsuch, Samuel Alito e Clarence Thomas. Alito condenou os “turistas do parto”, e Thomas, lamentavelmente, mostrou mais uma vez o que não se espera de um juiz negro num país de matriz escravocrata.
A sanha de fechar as portas para milhões de imigrantes e até para pessoas que vão aos EUA estudar ou trabalhar, com vistos temporários, manifestou-se no dia da posse de Trump em 2025, sob a forma de um decreto. Ali o empossado também falava em “turistas do parto”, ou seja, mulheres que iriam dar à luz nos EUA como estratégia de permanência.
Um argumento equivocado, pois os “turistas do parto” não chegam a 1% do universo dos indocumentados. E, sem cidadania possível, este universo só vai aumentar. É o que alerta o Centro de Pesquisas Pew, estimando em 6 milhões os nascidos nos EUA vivendo com pelo menos um progenitor não autorizado a ficar. Destes, 4,5 milhões são crianças e jovens abaixo dos 18 anos. A famigerada ordem presidencial mergulha famílias numa situação surreal, na qual mães e pais esperam pelo visto permanente, com bebês na ilegalidade.
Comunidades latinas festejaram a decisão, mas é importante olhar o impacto disso sobre os asiáticos. Em termos absolutos, o grupo mais afetado pela ordem de Trump é o dos latinos; os asiáticos, porém, especialmente os chineses, ainda que menos numerosos, estão há mais tempo nesta luta. Oportuno lembrar o caso do jovem cozinheiro Wong Kim Ark, que, em 1898, conquistou na Suprema Corte o direito a ser cidadão.
Wong nasceu no bairro de Chinatown, em San Francisco, em 1873, quando a 14ª Emenda funcionava para integrar à sociedade escravizados libertos e seus descendentes. Acuados por um preconceito crescente, os pais de Wong, ambos imigrantes, retornaram à terra natal com o filho. Tempos depois, Wong quis voltar a San Francisco para construir sua vida. Tinha 25 anos.
Autoridades disseram-lhe que não poderia desembarcar. Wong invocou a Constituição, atraiu advogados aguerridos e ganhou a causa três anos depois. Ganhou para si e para todos os americanos, consolidando algo muito difícil para Trump entender: cidadania é o direito a ter direitos.
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