A guerra no Sudão, que completa três anos nesta quarta-feira (15), aprofunda-se como uma das crises mais graves —e, paradoxalmente, negligenciadas— de todo o mundo. O conflito é marcado pela violência desenfreada contra civis, destruição sistemática da infraestrutura e colapso generalizado dos serviços essenciais. E nos últimos meses, com a incorporação dos drones, vem se tornando ainda mais mortal.
Os alertas são feitos de forma reiterada por várias organizações, incluindo as Nações Unidas (ONU) e os Médicos Sem Fronteiras (MSF), que denunciam falhas da resposta internacional diante de uma catástrofe humanitária. Diferentemente de outros conflitos ora em curso, caso das guerras na Ucrânia e no Irã, a violência no país localizado no Norte da África mobiliza pouco, em geral, os líderes globais. Não por acaso, os combates configuram, para alguns, o “maior conflito esquecido” da atualidade.
Os números, em contrapartida, são tenebrosos. Desde 15 de abril de 2023, os confrontos entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e os paramilitares das Forças de Apoio Rápido (RSF) podem ter matado mais de 100 mil pessoas, incluindo combatentes e civis, de acordo com estimativas. Uma contagem precisa de vítimas é considerada inviável diante dos combates contínuos e do acesso limitado às áreas de conflito.
Em paralelo, quase 14 milhões de pessoas foram deslocadas, segundo o MSF. Esse número, para efeito de comparação, é superior ao estimado para o conflito na Ucrânia, o maior na Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Segundo o Acnur, a agência da ONU para refugiados, a guerra no país do Leste Europeu, iniciada em fevereiro de 2022, forçou o deslocamento de quase 10 milhões.
As negociações por um cessar-fogo no Sudão continuam estagnadas. Iniciativas lideradas por EUA, países árabes, União Africana e outros atores que visavam a uma trégua fracassaram nos últimos anos. Também há poucos ganhos territoriais de lado a lado. A guerra opõe Abdel Fattah al-Burhan, comandante do Exército regular, a Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido como Hemeti e líder das RSF, um grupo paramilitar que busca controlar o Estado após a queda do antigo regime.
No país que registrava índices altos de pobreza e problemas socioeconômicos já antes do conflito, a guerra desmantela estruturas básicas de sobrevivência, afirmam organizações humanitárias.
“O sofrimento causado pela guerra atingiu novos níveis de agonia para a população, sobretudo devido ao seu impacto em infraestruturas essenciais: mercados, hospitais, estações de água e centrais de energia”, escreveu o chefe do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) no Sudão, Daniel O’Malley, em nota publicada pela organização. “Todo o país foi, em algum momento, afetado por ataques indiscriminados.”
A crise atinge com intensidade as crianças. Mais de 15 mil menores de cinco anos foram internados por desnutrição aguda no último ano, enquanto doenças se espalham devido ao colapso do sistema de saúde, diz a MSF. Programas de vacinação foram interrompidos, e a vigilância epidemiológica deixou de funcionar, o que favorece surtos de sarampo, cólera e hepatite E em várias regiões do país. Em todo o país, 37% das unidades de saúde estão inoperantes, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
A infraestrutura de saúde também se tornou alvo. Dados da OMS indicam que, desde o início da guerra, mais de 2.000 pessoas morreram em 217 ataques a instalações médicas. Em 2025, o Sudão concentrou 82% das mortes globais relacionadas a esse tipo de violência. Hospitais foram bombardeados, saqueados ou ocupados, enquanto profissionais de saúde lidam com ameaças, detenções e deslocamento forçado.
Em 20 de março, um bombardeio atribuído ao Exército sudanês matou 70 pessoas, incluindo 15 crianças, em um hospital na região de Darfur Oriental. Duas semanas depois, um ataque supostamente conduzido pelas RSF provocou a morte de outras 10, entre eles, 7 profissionais de saúde, em Al Jabalain.
Nos últimos meses, organizações passaram a registrar o uso disseminado de drones, o que marca uma nova etapa do conflito, ainda mais mortal. Mais de 500 civis foram mortos por ataques do tipo de janeiro a meados de março de 2026, de acordo com a ONU. Crianças estão entre as principais vítimas: quase 80% das mortes e ferimentos infantis registrados neste ano estão relacionados a esse tipo de armamento.
Ataques com drones, algo que já era comum em outros conflitos pelo mundo, têm ocorrido cada vez mais longe das linhas de frente, atingindo infraestruturas logísticas e áreas civis densamente povoadas, afirma a MSF. Atualmente, a região de Kordofan, no centro-sul do país, é a zona de conflito mais ativa.
A fome avança rapidamente. Segundo agências internacionais, 61,7% da população (cerca de 28,9 milhões de pessoas) enfrenta insegurança alimentar aguda. Em regiões como Darfur do Norte e Kordofan do Sul, famílias sobrevivem com apenas uma refeição por dia, muitas vezes recorrendo a folhas ou ração animal.
No cenário de caos, relatos de atrocidades são comuns. Somente no ano passado, a MSF disse que suas equipes fizeram mais de 250 mil consultas de emergência e registraram mais de 4.200 casos de violência sexual, usada com frequência como arma de guerra, sobretudo contra mulheres e meninas.
A despeito da violência, a MSF relata bloqueios impostos pelas autoridades sudanesas, que impedem a chegada de ajuda a áreas críticas. Regiões como Kordofan permanecem praticamente inacessíveis, aumentando o risco de novas atrocidades, afirma a organização.
“O silêncio e a inação estão prolongando o sofrimento de milhões”, escreve em nota a MSF, que pede medidas urgentes para proteger civis, garantir acesso à ajuda e responsabilizar os autores de violações, num cenário considerado desolador. O número de pessoas desaparecidas registrado pela Cruz Vermelha ultrapassou 11 mil, um aumento de mais de 40% no último ano.




