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Soldado israelense narra expulsão de palestinos em 1948 – 13/07/2026 – Mundo

Olhando para o vilarejo palestino de Hirbet Hiz’a, um soldado israelense reflete sobre suas ações. “Viemos, atiramos, incendiamos, explodimos, expulsamos, repelimos e exilamos”, diz a si mesmo. “Tudo isso se passou há muito tempo, mas, desde então, nunca deixou de me assombrar.”

O romance “A História de Hirbet Hiz’a” —um dos textos canônicos da literatura israelense— descreve os meses de guerra que levaram à criação do Estado de Israel, em 1948, e o custo que acarretaram à população palestina. O autor, o israelense S. Yizhar, participou do conflito.

A chegada do livro ao Brasil marca um momento importante no debate público sobre a região. Uma prova de sua urgência é que, na edição lançada pela Mundaréu, o tradutor do texto preferiu manter o anonimato, o que é incomum. A decisão de permanecer anônimo reflete o clima de polarização em torno do conflito.

S. Yizhar é o nome artístico do israelense Yizhar Smilansky. Nascido em 1916 na Palestina sob mandato britânico, lutou na guerra de 1948. Entrou mais tarde no Parlamento representando o partido sionista-trabalhista Mapai. Firmou-se como um dos grandes intelectuais de sua geração.

O livro saiu em 1949, apenas um ano após a guerra. Acredita-se que Yizhar tenha se inspirado em suas próprias ações como soldado no vilarejo palestino de Khirbet al-Khisas para criar a fictícia Hirbet Hiz’a de seu romance —algo que ele negava, apesar das muitas coincidências históricas.

O romance acompanha um grupo de soldados israelenses que recebeu a ordem de destruir um povoado palestino e expulsar seus moradores. O narrador parece ser um dos únicos soldados que se incomodam com aquilo. O texto reflete as suas dúvidas.

Os soldados estão “cortando descaradamente uma fatia da vida dessas casas, desses quintais e dessas pessoas”, pensa ele enquanto vê seus colegas saquearem a vila. Não os impede, porém. Em vez de criar um herói, S. Yizhar investe na incômoda complexidade moral do momento.

O soldado vai criando maneiras de se justificar. Pergunta se os árabes teriam tratado os judeus de maneira mais justa. Depois, insiste consigo mesmo em que está seguindo ordens. Por fim, quase culpa os palestinos por não terem fugido antes. “Quanto mais saíssem por vontade própria, menos problemas teríamos ao entrar na aldeia, reduzindo o trabalho sujo de expulsá-los”, sugere.

São diversos os méritos desse romance. Não foi o único, entre palestinos e israelenses, a denunciar as violações cometidas no conflito. Yizhar, no entanto, consegue acusar sem recair em lugares-comuns nem em simplificações.

É interessante, por exemplo, a sutileza de revelar o nome do vilarejo apenas na segunda metade do livro. Um soldado pergunta ao outro, quase por acaso, como se chama o local que estão destruindo. Quase como se não fizesse diferença.

Também é sutil a maneira como Yizhar retrata a desumanização dos palestinos, transferindo-a ao vocabulário. Em diferentes trechos, os soldados descrevem os movimentos dos árabes como “contorções inúteis de uma minhoca”. Correm “como formigas”.

A exceção é o narrador, que, com mais empatia, pensa nos palestinos como “peixes recém-tirados da água, ainda sentindo falta do mar”.

É incômodo, dito isso, ver que sua empatia se limita ao plano intelectual. O narrador se incomoda com suas ações e sofre quase como se fosse ele a vítima. “Quando começam os pensamentos, começam os questionamentos”, então “é preferível que os pensamentos nem comecem”, reflete ele. Mas não age.

Há alguma crítica a ser feita ao gênero literário que a intelectual americana-israelense Gil Hochberg chama de tradição de “atirar-e-chorar”, no sentido de que serve para apaziguar as crises de consciência sem produzir uma mudança efetiva. Mas é justamente ao retratar essas contradições que o romance de Yizhar se agiganta.

O texto também se firma por sua presciência. Yizhar publicou o texto em 1949, mas muito do que ele diz se estende até hoje. Muitos leitores, por exemplo, encontrarão ecos do conflito recente em Gaza.

“Quem vai imaginar que aqui um dia existiu uma Hirbet Hiz’a cuja população expulsamos?”, pergunta-se o narrador entre os pomares de maçãs e laranjas. Vem, então, a pergunta que resume o livro: “O que, no fundo, perpetramos hoje aqui?”

Fonte: Folha de São Paulo

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