spot_img
HomeMundoNa África, papa ergueu sua voz, mas não gostou do seu eco...

Na África, papa ergueu sua voz, mas não gostou do seu eco – 23/04/2026 – Mundo

Quando o papa Leão 14 fala, as pessoas escutam.

No entanto, ele está aprendendo que nem sempre consegue controlar como elas o interpretam.

Desde o início da viagem de 11 dias do pontífice à África, que terminou nesta quinta-feira (23), sua missão de destacar as injustiças pelo continente foi interpretada através das lentes de sua disputa com o presidente Donald Trump.

Os comentários de Leão em Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial foram quase abafados por suas declarações no primeiro voo da viagem, quando ele respondeu a uma diatribe que Trump publicou sobre ele nas redes sociais depois que o papa se manifestou repetidamente contra a guerra no Irã. O papa disse aos jornalistas que viajavam com ele que não tinha “nenhum medo” do governo Trump.

À medida que a viagem avançava, as críticas subsequentes do papa ao comportamento autoritário foram vistas como sendo direcionadas tanto a Trump quanto aos líderes africanos. Coletivamente, seus comentários cada vez mais diretos também pareciam sugerir que um pontífice anteriormente cauteloso havia finalmente encontrado sua voz.

Ele nem sempre parecia gostar de como as pessoas interpretavam o que dizia. No meio da viagem, Leão abordou o frenesi midiático em torno de sua disputa com Trump, dizendo aos jornalistas que o acompanhavam que comentaristas haviam interpretado equivocadamente algumas de suas palavras na África como mais críticas ao presidente americano.

Quase parecia que ele estava recuando de sua postura inflexível e tentando retornar aos primeiros dias de seu papado, quando tanto católicos liberais como conservadores o abraçavam como alguém que resistia a uma categorização ideológica fácil.

Em seu ainda jovem papado, Leão começou a falar de forma mais incisiva sobre eventos mundiais, incluindo os ataques dos EUA e de Israel ao Irã. Mas, como advogado canonista de formação, ele quer que as pessoas o interpretem de forma restrita, mesmo quando frequentemente fala em metáforas bíblicas vagas e aparentemente alude às ações de líderes políticos sem nomeá-los.

“Minha impressão com essa última situação é que ele queria uma negação plausível”, disse Miles Pattenden, historiador da Universidade de Oxford que estuda a Igreja. “Obviamente o papa não pode mentir, mas ele pode dizer as coisas de tal forma que haja mais de uma maneira de interpretá-las.”

O papa repreendeu veículos de notícias por criarem o que ele disse ser uma narrativa imprecisa em torno de um discurso em Camarões, onde lamentou um mundo “devastado por um punhado de tiranos”. Muitos veículos de notícias, incluindo o New York Times, disseram que ele parecia estar falando não apenas para líderes locais, mas também para Trump.

O papa disse que os comentários haviam sido preparados duas semanas antes e que “não era de meu interesse de forma alguma” continuar a debater com o presidente.

Pattenden disse que estava cético em relação à explicação do papa de que “não há nada para ver aqui”. “Qualquer pessoa, até mesmo um dos meus alunos, sabe que você pode revisar seus comentários de duas semanas atrás”, disse Pattenden. “E provavelmente é uma boa ideia fazer isso se você pode prever que as pessoas vão interpretá-los de uma maneira específica.”

O papa Francisco, antecessor de Leão, era mais propenso a provocar e até parecia energizado pelo conflito. O pontífice argentino era “totalmente confortável em situações desconfortáveis”, disse David Lantigua, professor associado de teologia na Universidade de Notre Dame. “Não acho que Leão compartilhe esse tipo de temperamento.”

Ainda assim, o papa, que se reuniu com líderes de regimes autoritários que reprimem a dissidência e fomentam a desigualdade massiva, pareceu disposto a confrontar alguns deles do púlpito.

Falando aos jornalistas no avião de volta nesta quinta-feira, Leão também continuou a criticar a guerra no Irã, lamentando que o conflito causou “a morte de tantos inocentes”. Ele também expressou frustração com o ritmo lento das negociações de paz. “Um dia o Irã diz ‘sim’ e os EUA dizem ‘não’, e vice-versa”, disse ele, “e não sabemos para onde isso vai, o que criou essa situação caótica para a economia global.”

Na Argélia, o pontífice disse àqueles “que ocupam posições de autoridade” que deveriam “promover uma sociedade civil vibrante, dinâmica e livre”.

Em Camarões, onde Leão se reuniu com Paul Biya, 93, que está em seu oitavo mandato, o papa alertou contra “uma sede idólatra de lucro”.

E na Guiné Equatorial, Leão se encontrou com o líder autoritário Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, que é o presidente mais longevo do mundo e governa com mão de ferro um país com vastas reservas de petróleo, onde mais da metade da população vive abaixo da linha da pobreza. Em uma missa na quarta-feira (22), onde o líder acompanhou o papa, Leão pediu uma sociedade que sirva ao “bem comum em vez de interesses privados, diminuindo a distância entre os privilegiados e os desfavorecidos”.

Novamente falando no avião na quinta-feira, Leão disse que esperava que tal engajamento com líderes pudesse levá-los em direção a uma melhor governança.

Tal engajamento, disse Leão, é “interpretado por alguns como se o papa ou a Igreja estivesse dizendo: ‘Está tudo bem que eles vivam assim'”. Ele disse, porém, que “é importante conversar com chefes de Estado, para encorajar talvez uma mudança de mentalidade, uma maior abertura para pensar no bem do povo”.

Leão, 70, manteve uma agenda extenuante na viagem, fazendo 18 voos e celebrando oito missas em 11 dias, frequentemente em regiões remotas. Além de suas paradas em palácios presidenciais e catedrais, ele visitou asilos, um hospital psiquiátrico, universidades e uma prisão, muitas vezes sob calor intenso.

Nas palavras de Leão, algumas pessoas ouviram as sementes de um tipo diferente de futuro.

“A maneira como o papa fala, ele nos dá autoridade”, disse Mufua Theophile, 30, que viu a missa final de Leão em Iaundé, capital de Camarões, na semana passada. O pontífice, disse Theophile, “nos faz ter esperança” de que “uma nova geração de jovens também pode ter liberdade para usufruir dos direitos do país”.

Fonte: Folha de São Paulo

RELATED ARTICLES

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

- Advertisment -spot_img

Outras Notícias