A explosão dramática de uma instalação de armazenamento de combustível em Moscou na última quinta-feira (18) pode ter sido causada não por um drone ucraniano, mas por um míssil de defesa aérea russo, indica uma análise de vídeos de redes sociais verificados pelo The New York Times.
A explosão se tornou a imagem definidora do maior ataque de drones da Ucrânia à capital russa desde o início da guerra. Autoridades russas disseram ter abatido 992 drones ucranianos em todo o país naquele dia, além daqueles que atingiram seus alvos.
O teto do silo de armazenamento voou alto no ar, parecendo surfar sobre uma coluna de fumaça preta antes de despencar de volta à terra enquanto a instalação no sudeste de Moscou era engolida pelo fogo.
A possibilidade de que a explosão tenha sido um incidente autoinfligido destacou as dificuldades que as defesas aéreas russas estão enfrentando, à medida que a Ucrânia aumenta a escala de seus ataques com drones para romper um escudo de defesa em camadas de sistemas projetados para proteger a capital.
Um vídeo verificado pelo Times e originalmente compartilhado no site chinês de mídia social Douyin mostra rastros de dois mísseis de defesa aérea sendo lançados do solo no que parece ser uma tentativa de interceptar drones ucranianos voando perto da refinaria de petróleo de Kapotnia.
Um míssil viaja em uma trajetória de voo baixo em direção ao silo de combustível, que explode aproximadamente no momento de sua chegada à instalação. Especialistas disseram que o míssil parecia consistente com um projétil disparado de um sistema de defesa aérea portátil, comumente chamado de MANPAD, que soldados usam como armas convencionais para derrubar ameaças que se aproximam.
“O vídeo apoia fortemente a suposição de que este é um lançamento de MANPAD, em sua origem, trajetória baixa e rastro fino sem fumaça de lançamento acompanhante em seus primeiros momentos de voo”, disse Michael Clarke, especialista britânico em segurança e professor de estudos de defesa.
Vários outros vídeos de redes sociais, também verificados pelo Times, mostram homens uniformizados na beira de uma estrada na quinta-feira disparando MANPADs perto da refinaria de Moscou em uma tentativa de derrubar drones ucranianos voando acima.
Alistair Saddington, professor de aeronáutica de defesa na Universidade de Cranfield, na Inglaterra, disse que as imagens “de fato parecem mostrar os rastros de fumaça de exaustão de mísseis de curto alcance”.
“Se são MANPADs ou não, não sabemos com certeza, mas o balanço de probabilidades sugere que são”, disse Saddington, citando outras imagens circulando nas redes sociais mostrando pessoas disparando tais armas.
O ataque de quinta-feira e outros semelhantes fazem parte de um esforço do presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, para levar a guerra para dentro da casa dos russos e pressionar o presidente da Rússia, Vladimir Putin, a negociar um fim para o conflito. Eles ocorrem em meio a uma ofensiva ucraniana mais ampla contra instalações de petróleo e combustível que tem causado filas e racionamento em postos de gasolina russos.
Putin não se pronunciou publicamente sobre o ataque de quinta-feira, que não resultou em mortes, nem sobre os ataques ucranianos contínuos na região de Moscou na sexta-feira (19). O governador da região de Moscou, Andrei Vorobiev, disse que uma menina de 8 anos morreu nos ataques de sexta-feira.
Dmitri Peskov, porta-voz do Kremlin, disse na sexta-feira que Putin estava recebendo atualizações ao longo do dia e que “os sistemas de defesa aérea estão operando em alto nível, apesar de tudo”. O Ministério da Defesa russo não respondeu imediatamente a um pedido de comentário do Times.
As guerras na Ucrânia e no Oriente Médio demonstraram que se defender contra grandes enxames de drones baratos é uma das tarefas mais difíceis na guerra moderna.
Sistemas de defesa aérea tradicionais, como os que protegem a capital russa, são caros e foram projetados para abater aeronaves ou mísseis que se aproximam. Nunca se esperou que tais sistemas fossem usados contra os drones que a Rússia e agora a Ucrânia estão disparando em quantidades tão grandes.
Na sexta-feira, a Rússia parecia ter reforçado suas defesas colocando um sistema de defesa antimísseis Pantsir montado em veículo perto da mesma rodovia onde os militares dispararam MANPADs durante o ataque de quinta-feira, de acordo com imagens verificadas pelo Times. Os sistemas podem abater drones, mas têm dificuldade em neutralizar grandes enxames.
A Ucrânia só recentemente começou a produzir drones de longo alcance em grande escala, permitindo que Kiev lance os tipos de ataques com centena que a Rússia vem direcionando contra alvos ucranianos há algum tempo. A Ucrânia ainda carece dos mísseis balísticos que a Rússia dispara regularmente contra cidades ucranianas.
“A Rússia provavelmente está tendo dificuldades para interceptar centenas de drones da mesma forma que a Ucrânia”, disse Saddington. “Interceptá-los com grandes mísseis de defesa aérea projetados para abater aeronaves de combate é muito caro e reduzirá rapidamente os estoques, então alternativas de baixo custo precisam ser buscadas.”
Ele disse que MANPADs não eram necessariamente uma ótima alternativa, observando que “dispará-los em baixa altitude em um ambiente urbano” era uma indicação do desespero da situação, possivelmente, “neste caso, com consequências não intencionais”.




