Esta é a edição da newsletter China, terra do meio desta terça-feira (10). Quer recebê-la toda semana no seu email? Inscreva-se abaixo:
Xi Jinping e Donald Trump conversaram por telefone por quase uma hora na última quarta-feira (4). O tom foi cordial, e os dois lados classificaram a ligação como positiva.
O anúncio dos pontos discutidos revelou bastante coisa sobre como a China e os Estados Unidos enxergam as relações atualmente. Na edição de hoje, te ajudo a interpretar a forma como cada lado reportou a conversa.
A China, como tradicionalmente faz, divulgou sua leitura do telefonema por meio de nota oficial do Ministério de Relações Exteriores.
Xi não assumiu compromissos nem falou em acordos imediatos e não deixou margem para interpretações quando o assunto era Taiwan. A nota chama o tema de “o mais importante” da relação sino-americana e faz uma advertência direta sobre vendas de armas.
O texto deixa claro que o comércio americano com Taiwan pode avançar, mas a segurança territorial não entra em negociação.
Trump preferiu divulgar o resultado da ligação nas redes sociais, em vez de usar o site oficial da Casa Branca ou mesmo o Departamento de Estado, e transformou a chamada em inventário econômico.
- Destacou seu “ótimo relacionamento com Xi” e mencionou conversas acerca de energia e soja, com volumes definidos de exportação para a China;
- Citou debates sobre a situação na Ucrânia e no Irã, pontos ignorados na declaração de Pequim.
Há também uma hierarquia implícita nos tópicos apresentados.
Para a China, Taiwan aparece como eixo central e inegociável, enquanto Trump o menciona depois de comércio, energia e viagem bilateral, dizendo entender a preocupação de Xi sobre o status da ilha. A ordem não é trivial e sinaliza onde cada lado está disposto a investir capital político.
Por que importa: a ligação não teve nenhum anúncio bombástico, mas produziu enquadramentos estratégicos.
Pequim delimitou sua linha vermelha e ancorou a relação em previsibilidade institucional. Trump, como esperado, buscou projetar ganhos econômicos imediatos e destacar a importância de sua liderança pessoal.
Se os números comerciais se materializarem, isso reforçará a lógica transacional americana. Resta ver como esses limites serão testados diante das esperadas novas vendas de armas americanas a Taiwan nos próximos meses.
pare para ver
“Resident alien”, trabalho da chinesa Hung Liu, radicada nos EUA. O painel é baseado no seu primeiro green card e parte de um consistente acervo que aborda temas muito “americanos” (documentos, deslocamento, trabalho, marginalização de imigrantes). Veja outros trabalhos dela aqui.
o que também importa
★ A China reagiu de forma dura à decisão da Suprema Corte do Panamá que anulou o contrato da CK Hutchison, empresa de Hong Kong, para operar dois portos no canal do Panamá, chamando-a de “absurda” e “vergonhosa”. Pequim disse que tomará todas as medidas necessárias para proteger os interesses de suas empresas, enquanto o presidente panamenho declarou que “não se deixará intimidar” pelos chineses. A CK Hutchison anunciou que iniciou um processo de arbitragem internacional. A medida acontece após sucessivas pressões de Donald Trump, que desde o início do mandato acusa incorretamente os panamenhos de ceder o controle do canal à China. Com a saída da operadora de Hong Kong, a dinamarquesa Maersk assumirá provisoriamente os terminais.
★ O fundador do extinto jornal Apple Daily, Jimmy Lai, foi condenado a 20 anos de prisão em Hong Kong, no desfecho do maior julgamento com base na lei de segurança nacional imposta por Pequim após os protestos de 2019. Considerado culpado de conspiração com forças estrangeiras e publicação de material sedicioso, o cidadão britânico se declarou “preso político”. EUA, Reino Unido e União Europeia criticaram a sentença. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, classificou-a como “injusta e trágica” e pediu libertação humanitária. Pequim reagiu e disse que ninguém que desafie a lei ficará impune.
★ Um fundo chinês afirmou que Pequim proibiu novos investimentos em Israel ao classificar o país como “área de alto risco”. A alegação, reportada pela imprensa israelense, consta em processo movido pelo kibutz Hanita contra o Ballet Vision, fundo sob controle chinês. Os autores cobram cerca de US$ 11 milhões (R$ 57 milhões) por descumprimento contratual, enquanto o Ballet Vision sustenta que as restrições impostas por Pequim impedem novos aportes e alega prejuízos acumulados. Pequim não respondeu oficialmente às acusações.
fique de olho
A China formalizou acusação contra Zhang Jianhua, ex-vice-diretor do órgão regulador da indústria de defesa, por suborno e abuso de influência, segundo informou a Suprema Procuradoria Popular (equivalente chinês ao Ministério Público Federal) nesta terça-feira (10).
As autoridades classificaram os valores envolvidos como “particularmente grandes”.
Zhang começou a carreira estatal na China North Industries Group e acumulou quase 40 anos de carreira no setor, tendo ocupado cargos estratégicos na Administração Estatal de Ciência, Tecnologia e Indústria de Defesa Nacional, incluindo chefia de centro de revisão de projetos e funções nas áreas financeira e de auditoria.
Ele vinha sendo investigado pelo órgão anticorrupção desde outubro de 2024, quando foi expulso do Partido Comunista, e se entregou às autoridades em maio do ano passado.
O caso faz parte de uma ofensiva mais ampla contra corrupção nas Forças Armadas e nas indústrias estratégicas.
- A acusação ocorre após a destituição, na semana passada, de três parlamentares ligados aos setores aeroespacial, nuclear e de defesa, movimento que se soma à investigação de Zhang Youxia, um dos generais mais graduados do país.
A China não divulgou o cronograma dos próximos passos, mas, em geral, a Procuradoria apresenta a acusação e o caso é encaminhado a um tribunal que agenda o processo. Pelo Código Penal chinês, casos de suborno podem resultar em penas que variam de 10 anos de prisão à prisão perpétua, ou até pena de morte com possibilidade de suspensão da execução, dependendo da gravidade e do dano causado.
Por que importa: a nova acusação reforça que o cerco anticorrupção avança sobre o coração do complexo militar-industrial chinês.
Mais do que disciplinar quadros, a campanha tem dimensão estratégica: Pequim tenta garantir que metas de modernização até 2027 não sejam corroídas por redes de favorecimento interno.
A medida, porém, não é livre de riscos, já que purgas sucessivas em áreas sensíveis podem gerar instabilidade operacional e afetar justamente o ritmo de modernização que o governo quer acelerar.
para ir a fundo
- A Câmara Chinesa de Comércio do Brasil abriu inscrição para interessados em participar da PFP Expo, evento em Guangzhou dedicado à indústria de impressos, empacotamento e etiquetagem que acontece nos dias 4 a 6 de março. Empresários que queiram integrar a delegação brasileira podem entrar em contato neste link.
- O BRICS Policy Center, no Rio de Janeiro, recebe no dia 09 de março a professora Karin Vazquez para discutir o processo de construção e transformação do Sul Global. O evento é gratuito e as inscrições podem ser feitas aqui.




