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História de amor sobrevive a duas guerras na Síria – 07/02/2026 – Ilustríssima

[RESUMO] Repórter reencontra casal curdo que conheceu em 2015, após invasão do grupo terrorista Estado Islâmico a Kobani, na Síria. Raushan Khalil e Barzan Iso haviam se casado quatro dias antes do início da guerra e decidiram permanecer na cidade sitiada, documentando os horrores que deixaram mais de 3.000 mortos. Onze anos depois, muita coisa mudou na Síria, mas o casal novamente se vê cercado por um conflito armado, enquanto tenta, como antes, ser feliz em meio ao medo, a armas e à escassez de energia e alimentos.

Onze anos atrás, fui para a Síria cobrir uma guerra e tropecei em uma história de amor. Na semana passada, voltei ao norte da Síria e encontrei a mesma história de amor, viva e resistindo a uma nova guerra.

Conheci Raushan Khalil e Barzan Iso em 2015 depois de uma sucessão de acasos —ou, como é de praxe em reportagens, quando eu achava que tudo tinha dado errado, acabou que deu certo.

Foi uma foto que me levou à Síria pela primeira vez.

No dia 2 de setembro de 2015, a imagem de um menininho deitado de bruços numa praia, sem vida, com uma camiseta vermelha, chocou o mundo. Alan Kurdi, de três anos, tinha morrido afogado tentando chegar à Grécia de bote com sua família. Sua mãe, Rehan, e o irmão Galib, de cinco anos, também morreram no mar.

A Síria vivia os horrores de uma guerra civil (2011-2024) em que o ditador Bashar al Assad cometeu todo tipo de atrocidades para tentar se manter no poder. Os curdos do norte da Síria enfrentavam um inimigo a mais —o Estado Islâmico, que desde 2014 avançava sobre seus territórios, espalhando o terror com sua versão distorcida do Islã.

Meu plano era ir para Kobani para encontrar a família de Alan Kurdi. Antes de tentar a travessia para a Europa, Alan morava na casa de seus avós na cidade. Eu queria entender o que leva um pai e uma mãe a enfiar seus filhos pequenos dentro de um bote, sabendo que há grandes riscos de a família toda morrer afogada. De que inferno fugiam essas pessoas, por que elas se dispunham a arriscar tudo?

Três dias antes de embarcar da Turquia rumo ao Iraque, de onde eu iria atravessar para a Síria, descobri que meu planejamento para a reportagem tinha ido por água abaixo. A pessoa que me ajudaria na Síria se ocupou com outro trabalho e não poderia mais me acompanhar.

Foi então que cheguei a Barzan.

Eu precisava desesperadamente de um fixer, como chamamos o jornalista local que ajuda estrangeiros em reportagens. Um colega turco me indicou um jornalista turco que conhecia muita gente na Síria —e não falava uma palavra de inglês. Ele, por sua vez, me pôs em contato com um sujeito chamado Barzan.

Pelo telefone, explicou a Barzan que eu precisava de um fixer para trabalhar comigo na Síria e fez o acerto com ele, em turco. Ele disse que Barzan era da cidade de Kobani e tinha feito várias reportagens para a televisão sobre o histórico cerco do EStado Islâmico à cidade. Falava inglês, turco, árabe e kurmanji.

Chegar em Rojava, a área do norte da Síria onde vivem os curdos, é uma epopeia. É preciso voar para Erbil, capital do Curdistão iraquiano, e de lá pegar um táxi em uma viagem de três horas e meia até Faysh Khabour.

Uma vez lá, cruza-se o rio Tigre, que delimita a fronteira entre Síria e Iraque. Na época, a travessia era feita em barquinhos de alumínio. Tudo isso com as devidas autorizações das forças curdas iraquianas e sírias.

Barzan me esperava do lado sírio. Nunca vou me esquecer daquela cena.

Ele estava encostado em um Hyundai prata empoeirado, com o pára-brisa quebrado. Tinha um ar de galã latino. Dentro do carro, uma mulher pálida e bem magra estava sentada no banco do passageiro. Ela acariciava Liza, uma gatinha branca que estava em seu colo, em cima de um jornal. Era Raushan. Entre os dois bancos, uma garrafa térmica e uma metralhadora Kalashnikov.

De Faysh Khabur até Kobani são 500 quilômetros. Mas a viagem de carro levava mais de dez horas, porque as estradas são esburacadas e era preciso parar em inúmeros postos de controle, que ocasionalmente eram atacados. Ao longo do trajeto, Barzan e Raushan me contaram sua história: um casal de sírios que se apaixonou via internet e passou a lua de mel na cidade de Kobani cercada pelo Estado Islâmico.

Barzan era jornalista e ativista dos direitos curdos na Síria. Ele tinha se exilado na Turquia após dois de seus irmãos serem presos. Raushan era uma síria filha de mãe russa que largou a faculdade de direito em Aleppo após colegas serem atacadas por membros da oposição a Assad. Integrantes da oposição, em parte extremistas, consideravam todos os russos cúmplices do regime. Ela foi morar com a avó em Rybinsk, cidade a 314 quilômetros ao norte de Moscou.

De seu quarto na gelada Rybinsk, Raushan assistiu a Barzan em um programa de TV curdo, fazendo uma defesa das mulheres, e mandou uma mensagem para ele no Facebook. Os dois começaram a se escrever. Passaram para o Viber, um aplicativo tipo Skype, e se conheceram pessoalmente no aeroporto de Istambul. Apaixonados, resolveram se casar e viver em Kobani, cidade da família de Barzan.

Os curdos vivam um momento de otimismo. Estava em curso seu projeto de estabelecer uma zona autônoma laica e igualitária no norte da Síria. Beneficiavam-se do vácuo de poder, uma vez que Assad se ocupava lutando contra a oposição no resto do país.

Mas, no meio do sonho curdo, o Estado Islâmico começou a avançar e cercou Kobani.

Em vez de mudar de planos, os dois decidiram ficar na cidade e documentar os horrores para o mundo. Passaram sua “lua de mel” na Kobani sitiada pelo Estado Islâmico, na batalha que seria chamada de Stalingrado dos curdos —deixou mais de 3.000 mortos.

No ano seguinte, voltei a Kobani com o fotojornalista Fábio Braga para fazer mais reportagens para a Folha e as pesquisas que deram origem ao livro “Lua de Mel em Kobane”.

Na semana passada, quando retornei ao norte da Síria, muita coisa tinha mudado. Não havia mais barquinhos para a travessia da fronteira. Um micro-ônibus atravessa uma ponte modular pré-fabricada, em uma espécie de pinguela sofisticada.

O “posto de imigração” foi reformado, agora tem cadeiras e piso. Nas cidades curdas, não se veem mais as onipresentes fotos dos mártires —da primeira vez, imagens de soldados mortos na guerra contra o Estado Islâmico estavam em todas as esquinas.

Mas a guerra estava de volta. Desta vez, em vez de combater o regime de Bashar al Assad e o Estado Islâmico com apoio dos Estados Unidos e uma coalizão internacional, os curdos lutavam contra o governo de Ahmed al-Sharaa, que derrubou Assad em dezembro de 2024, e as facções extremistas aliadas. E estavam sozinhos, abandonados pelos EUA.

O exército sírio avançava pelas áreas antes controladas pela SDF, a força liderada pelos curdos, quando Raushan me recebeu em sua casa em Amude, a duas horas e meia da fronteira.

Não fomos para a casa da família de Barzan onde estive nas duas viagens anteriores, em Kobani. A cidade estava sitiada havia 10 dias pelas forças do governo sírio e facções extremistas. A mãe e os irmãos de Barzan permaneciam lá, sem acesso a eletricidade, combustível, comida ou medicamentos. Barzan, trabalhando com a SDF, passava o dia tentando coordenar com a ONU e a Cruz Vermelha comboios humanitários para Kobani e Hassakeh.

Liza não estava, mas cinco outros gatos me recepcionaram. Mars, um filhote encontrado no motor do carro de Barzan, dormiu comigo durante seis dias no colchão da sala. Dark e Daria me mantinham acordada enquanto discutiam sua relação em altos miados todas as noites.

Eletricidade ainda é item de luxo na região. Eles dependem de gerador, mas como o combustível está caro e difícil de achar, tínhamos apenas algumas horas por dia para carregar o celular, tomar banho e jantar. Todo o resto é com lanterna.

Na primeira noite, Raushan me levou para ver as milícias de cidadãos que se organizam pelo WhatsApp para patrulhar as cidades. Eram pedreiros, empresários, encanadores, estudantes de sociologia, que levavam suas Kalashnikov e pistolas e montavam postos de controle, com fogueiras para espantar o frio de dois graus Celsius e raps de libertação dos curdos para manter o moral.

“Espera, esqueci uma coisa”, disse-me Raushan, antes de entrarmos no carro para fazer o tour noturno, às 2h. Esqueceu as chaves? O celular? “Não, minha arma.” O casal não leva mais a Kalashnikov, “muito difícil de usar de dentro do carro, se precisar”. Agora, eles carregam uma pistola HS 9mm.

Diante dos conflitos constantes, a maioria dos curdos anda armada. O tio de Barzan, Ibrahim, torturado na famigerada prisão Saidnaya em Damasco durante a ditadura de Assad, dorme com uma pistola embaixo do travesseiro. Na sala de sua família, ele me mostrou as várias metralhadoras debaixo dos sofás.

Raushan e Barzan queriam que eu conhecesse a casa que estão construindo. Ficaria pronta em dois meses, mas tiveram que parar as obras, por causa da guerra.

“Espero que as coisas se acalmem… já perdi minha primeira casa, bombardeada em Kobani”, disse Barzan.

Raushan e Barzan, ambos com 41 anos, estão adiando o projeto de ter filhos. “Todo mundo vive me perguntando isso, mas será que eu quero ter filhos no meio da instabilidade que vivemos, sem saber quando vai ter guerra de novo? Não sabemos nem se vai ter escola!”

Apesar do cessar-fogo, o clima é de medo.

“Nas últimas semanas, não dormimos quase nada, ficamos acordados acompanhando os ataques, o cerco em Kobani e as negociações”, conta Rashan. ‘Também não comemos quase nada.”

Eles não sabem até que ponto vão conseguir manter a autonomia na região, que tem cotas de 50% no funcionalismo público para mulheres e Forças Armadas femininas. São “progressismos” impensáveis para o governo conservador islâmico de Al-Sharaa, ex- integrante da Al Qaeda. E o casal teme sofrer retaliações, por ter trabalhado com a SDF, que combateu algumas das facções extremistas que agora fazem parte das Forças Armadas sírias.

“A luta de verdade só está começando”, disse-me Barzan quando foram divulgados os termos do cessar-fogo.

Mesmo em meio à incerteza, a vida do casal conserva nesgas de normalidade.

Honrando sua ascendência russa, Raushan prepara um borsch incrível para celebrar minha visita. Eu lavo os pratos, roubando a atribuição de Barzan —na casa feminista, ele é encarregado de lavar toda a louça e limpar a caixa de areia dos gatos. E leva bronca quando esquece.

Animada, Raushan me conta de seus planos para as próximas férias. Está juntando dinheiro para saltar de paraquedas quando for visitar sua mãe na Rússia.

“Eu preciso de adrenalina, sabe?”

Fonte: Folha de São Paulo

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