O ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos, na sigla em inglês) ordenou que seus agentes suspendam a maioria das abordagens de veículos em todo o país. A ordem foi dada depois que oficiais mataram a tiros dois homens em apenas seis dias durante abordagens de trânsito nos estados do Texas e do Maine, informaram autoridades nesta terça-feira (14).
Um terceiro homem morreu nesta terça em decorrência de uma operação do ICE, na Flórida. Um policial ouvido pela rede de televisão americana CNN afirmou que quatro ocupantes de um veículo fugiram a pé. Um deles atravessou a rodovia e foi atropelado por um caminhão.
A mudança nas táticas de prisão, que o “czar da fronteira” do presidente Donald Trump, Tom Homan, chamou de “pausa temporária” nas abordagens de veículos, foi implementada um dia depois que um agente do ICE matou um imigrante colombiano, Joan Sebastián Durán Guerrero, 26, em Biddeford, no Maine.
A morte de Guerrero ocorre menos de uma semana após a morte de um cidadão mexicano, Lorenzo Salgado, baleado pelo ICE em Houston, no Texas.
Embora ambos os homens tenham sido caracterizados pelo Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS), órgão superior do ICE, como “estrangeiros ilegais”, autoridades do DHS reconheceram que nenhum deles era o alvo pretendido das operações de deportação que levaram à sua morte.
Até esta terça, não foram publicadas imagens de vídeo de nenhum dos dois incidentes, e as autoridades federais não apresentaram nenhuma evidência para sustentar as afirmações de que os homens eram uma ameaça aos agentes ou ao público em geral, justificando o uso de força letal para detê-los.
Os incidentes consecutivos elevaram para pelo menos seis o número de pessoas mortas a tiros, e para 22 o número de pessoas baleadas durante operações de fiscalização de imigração desde janeiro de 2025, quando Trump voltou ao cargo e lançou uma campanha de deportações em massa.
Desde o início de junho, as prisões do ICE no Maine mais que quadruplicaram, chegando a cerca de 70 por dia no início deste mês, de acordo com dados internos do ICE compartilhados com a agência de notícias Reuters por uma pessoa próxima ao assunto.
O caso no Maine provocou protestos nesta segunda (13), e novas manifestações ocorreram também na terça.
“Não é uma mudança de política, é uma pausa temporária”, disse Homan sobre a suspensão das abordagens de veículos em entrevista ao canal Fox News ainda nesta terça. “Esta será uma revisão de curto prazo para garantir que os agentes do ICE estejam seguros e agindo da maneira correta.” Ele acrescentou que os agentes têm outras opções para prender pessoas além de abordá-las em seus veículos. “As operações continuam. As prisões estão em números recordes. As deportações estão em números recordes.”
O DHS afirmou em um comunicado, quase 12 horas após o incidente de segunda, que um agente do ICE, “temendo pela segurança pública”, abriu fogo quando o motorista tentou fugir.
As autoridades não explicaram como o motorista poderia ter representado uma ameaça que justificasse os tiros. De acordo com a política do ICE, os agentes só podem usar força letal quando houver “perigo iminente de lesão corporal grave ou morte para o agente ou para outra pessoa” e isso não é autorizado “apenas para impedir a fuga de um suspeito em fuga”.
O senador norte-americano Angus King, independente do Maine que faz parte da bancada democrata, disse aos repórteres que os agentes envolvidos não estavam usando câmeras corporais.
O DHS informou que os agentes estavam vigiando o último endereço conhecido de alguém com uma ordem definitiva de deportação do país e seguiram um carro que viram saindo da residência. O secretário do departamento, Markwayne Mullin, disse posteriormente a King que o motorista daquele carro —o homem morto— não era o alvo da operação, segundo um porta-voz do senador.
“Ele foi morto porque era considerado um ser inferior, sem direitos”, escreveu o presidente colombiano Gustavo Petro sobre Guerrero. Petro acrescentou esperar que o serviço diplomático da Colômbia nos EUA tome as medidas “mais rápidas possíveis” para responsabilizar os culpados.
Guerrero, que cresceu em Bucaramanga, na Colômbia, tinha uma companheira e uma filha pequena e trabalhava em dois empregos, incluindo entrega de comida, informou o jornal local Portland Press Herald. Vizinhos disseram ao veículo que sua companheira e sua filha testemunharam as consequências dos tiros e foram vistas chorando na rua.
A procuradoria-geral do Maine informou que está investigando o caso em conjunto com autoridades locais, estaduais e federais.
Já sobre o caso da morte em Houston, o ICE afirmou em comunicado que Salgado, um cidadão mexicano que vivia ilegalmente nos EUA há mais de três décadas, bateu com sua van em um veículo da polícia e tentou atropelar um policial. A agência não apresentou nenhuma evidência para corroborar a versão.
As prisões de imigrantes aumentaram nas últimas semanas, mesmo com o governo Trump tendo deixado de realizar operações de varredura em grande escala em cidades governadas por democratas. Essas operações foram amplamente criticadas como violentas e excessivas depois que dois cidadãos americanos foram mortos em janeiro por agentes federais em Minnesota.




