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EUA: Escravizados foram libertos, mas direitos cortados – 19/06/2026 – Mundo

Quando os estados do sul dos Estados Unidos, incapazes de aceitar a vitória de Abraham Lincoln nas eleições de 1860, declararam sua secessão e iniciaram a Guerra Civil americana, o presidente precisou evitar usar a palavra “escravidão” para tentar convencer milhões de pessoas a lutar em um conflito fratricida que, até hoje, é a guerra que mais matou americanos na história.

Em seu primeiro discurso após o início da guerra, apenas um mês depois da posse, Lincoln disse ao Congresso que o sul “forçou sobre o país esta questão: dissolução imediata, ou sangue”. E apelou ao senso democrático dos americanos.

“A questão vai além do futuro destes Estados Unidos. Ela apresenta a toda a humanidade a pergunta: poderá ou não poderá uma república constitucional, uma democracia, um governo do povo pelo povo, manter sua integridade territorial contra seus inimigos domésticos?”

A omissão do presidente sobre a causa da guerra, a escravidão, não tinha como objetivo esconder suas opiniões sobre o tema —que eram conhecidas, embora moderadas para a época. O republicano, líder desse partido abolicionista criado dez anos antes, foi eleito com a promessa de manter a escravatura de pé onde ela ainda existia e simplesmente impedir sua expansão nos novos territórios adquiridos pelos EUA no oeste.

Mesmo essa posição era intolerável para a elite escravocrata do sul, que formou os Estados Confederados da América e deu início à guerra em abril de 1861. Inicialmente um conflito com o objetivo restrito de manter o país unido, a Guerra Civil se transformou lentamente em uma grande cruzada de libertação —que inspiraria Lincoln a dizer, em 1863, no famoso discurso de Gettysburg, que os EUA passavam por um “novo nascimento da liberdade”.

“A escravidão cresce nos EUA de forma muito mais profunda do que geralmente pensamos”, afirma Stephen Engle, historiador da Universidade Atlântica da Flórida e especialista na Guerra Civil. “Ela está no DNA americano. É muito difícil pensar na história da independência e do desenvolvimento do nosso capitalismo sem ela.”

Para ele, é preciso entender, porém, que “a Guerra Civil não foi combatida nos termos que Lincoln queria”. “A escravidão foi abolida por causa da guerra, mas o próprio presidente desviava do assunto, porque, se ele dissesse que era uma guerra sobre a escravidão, não teria um Exército. Ninguém ia se alistar para libertar um escravo”, diz Engle.

Ao final do conflito, esse sentimento já tinha mudado. Quando conquistavam latifúndios no sul, soldados do norte, chocados com o sistema escravocrata, frequentemente faziam justiça com as próprias mãos contra donos de escravos. Em pelo menos uma ocasião, um oficial do norte permitiu que libertos açoitassem seu antigo dono com a mesma chibata da qual foram vítimas por anos.

Com o fim da guerra, entretanto, esse ardor revolucionário deu lugar a um período de reação —muitos historiadores, inclusive, tratam a Guerra Civil como uma tentativa de contrarrevolução por parte dos escravocratas.

Após seu assassinato, Lincoln foi sucedido pelo vice-presidente Andrew Johnson, um sulista contrário à ideia de dar direitos políticos a negros libertos que tomou atitudes lenientes com os estados derrotados na guerra durante o período chamado de Reconstrução.

“Antes da guerra, os abolicionistas queriam não apenas a destruição da escravatura, mas também cidadania e igualdade para os negros“, diz Manisha Sinha, professora de história americana da Universidade de Connecticut. “No século 19, o Partido Republicano era um partido abolicionista —não confundir com o partido atual, que é bem diferente ideologicamente”, afirma.

Ela conta que a ala radical do partido queria redistribuir os latifúndios dos escravocratas e dá-los aos ex-escravizados. “Mas [Johnson] era um homem muito racista que não queria dar direitos a pessoas negras, e certamente não queria redistribuir terras.”

Apesar da oposição de Johnson, os republicanos radicais conseguiram superar seu poder de veto e dar cidadania, voto e direito de ocupar cargos públicos a homens negros no sul. “O número de pessoas negras eleitas no nível municipal, estadual e federal chegou a milhares nessa época, um patamar que só se repetiria nos Estados Unidos no fim do século 20“, afirma Sinha.

Stephen Engle recorda que Robert Smalls, deputado federal pela Carolina do Sul de 1879 a 1887, “disse certa vez que a única coisa pior do que negros incompetentes no governo eram negros competentes no governo, porque isso assustava pra caramba pessoas brancas”.

“Elas pensavam: meu Deus, essas pessoas são capazes, são inteligentes, se formarem maioria, vão mandar em nós. E foi isso que aconteceu na Reconstrução”, destaca.

Com o fim da ocupação militar do sul em 1877, elites brancas retomaram o poder e utilizaram maiorias nos Legislativos estaduais para reverter esse ganho de direitos conquistado na Guerra Civil.

“Eles pensaram: vamos revidar“, diz Engle. “Se os republicanos governavam pela força durante a Reconstrução, quando isso acaba, o controle se dá pelo voto. E eles tiraram direitos de eleitores negros por meio de testes de alfabetização e taxas que não se aplicavam aos brancos, e foram muito bem-sucedidos. Isso durou cem anos.”

Para implementar medidas como essas, os ex-confederados e políticos democratas, partido pró-escravidão na época, tiveram como inspiração o outro país continental nas Américas que praticou a escravatura por séculos: o Brasil.

“Depois da derrubada do Império e da Proclamação da República, as elites brasileiras conseguiram impedir pessoas negras libertas de obter direitos políticos”, diz Sinha. A primeira Constituição republicana, embora extinguisse o voto censitário e inaugurasse o sufrágio universal masculino, barrava analfabetos e pessoas sem renda fixa comprovada de votar —excluindo assim a imensa maioria da população negra.

“Muitos confederados fugiram para o Brasil depois da Guerra Civil“, conta a historiadora. “Alguns deles voltaram para o Mississipi e, durante a Convenção Constitucional de 1890, a primeira que sistematicamente retirou direitos de homens negros, disseram: nós trouxemos para cá o plano brasileiro, que é libertar essas pessoas sem lhes dar direitos.”

Mais de um século depois desse período de rápidos avanços e fortes retrocessos, muitos intelectuais negros enxergam paralelos entre o fim da Reconstrução e o governo Donald Trump.

Em maio, a jornalista Nikole Hannah-Jones escreveu uma coluna no jornal The New York Times relacionando os dois períodos. Segundo ela, graças às tentativas do Partido Republicano atual de redesenhar distritos para diluir o poder político de pessoas negras —e a decisões da Suprema Corte validando essas medidas—, “a representação negra pode desaparecer no sul mais uma vez, onde metade dos americanos negros vive”.

Sinha opina que “o que a Suprema Corte dos EUA faz hoje é similar com o que fez no final do século 19, quando aniquilou leis de direitos civis e legalizou a segregação em 1896”. “Vemos de novo um movimento de reação, e isso se aplica também aos direitos das mulheres, com o fim da liberdade reprodutiva”, afirma, em referência à decisão que derrubou a legalização do aborto a nível nacional nos EUA.

Para a historiadora, “não é surpreendente que muitas das pessoas envolvidas nessa reação admiram os confederados e querem manter monumentos”.

“Muitas dessas homenagens foram removidas depois do assassinato de George Floyd, em 2020. Agora, estão sendo restauradas pelo regime Trump”, afirma Sinha. “Vocês, no Brasil, também enfrentam esses problemas de retorno do autoritarismo, é um problema mundial. Os EUA gostam de pensar que são excepcionais, imunes, que estão apartados da história. Mas, como Lincoln disse: ‘Não podemos escapar da história'”.

Fonte: Folha de São Paulo

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