spot_img
HomeMundoEUA completam 250 anos em disputa sobre independência - 15/06/2026 - Mundo

EUA completam 250 anos em disputa sobre independência – 15/06/2026 – Mundo

No dia 17 de maio, um domingo nublado e com temperaturas amenas de fim de primavera em Washington, o governo Donald Trump organizou um evento em frente ao Congresso americano chamado “Reconsagrando 250: Jubileu Nacional de Oração, Louvor e Ação de Graças”.

Parte da série de cerimônias organizadas pela Casa Branca para marcar os 250 anos da independência dos Estados Unidos, no próximo 4 de julho, o evento contou com políticos republicanos, líderes evangélicos próximos a Trump e discursos em vídeo de membros do primeiro escalão do governo. Todos tinham a mesma mensagem: a de que os EUA foram fundados como uma nação cristã.

“Era óbvio para os nossos fundadores que nossa fé era o solo sobre o qual a América se ergue, nosso alicerce como povo”, disse em fala gravada o vice-presidente J. D. Vance. “A moralidade e a religião que formaram a identidade americana eram firmemente cristãs, fundadas com base nos princípios e divindade de Jesus Cristo.”

O próprio presidente americano enviou um vídeo lendo um trecho da Bíblia particularmente famoso entre trumpistas, interpretado como uma metáfora sobre os EUA.

Trata-se de uma passagem do capítulo sete do segundo livro de Crônicas, em que Deus diz a Salomão: “Se vocês se afastarem de mim e aban­donarem os decretos e os mandamentos que dei a vocês e prestarem culto a outros deuses e ado­rá-los, desarraigarei Israel da minha terra. […] Farei que ele se torne objeto de zom­baria entre todos os povos.”

Um dos líderes religiosos que participou do evento foi o pastor Gary Hamrick, da igreja Cornerstone Chapel, que fica nos arredores de Washington. Para ele, é “óbvio” que os pais fundadores incorporaram sua fé cristã na formação dos EUA. “A Declaração da Independência faz referência a Deus quatro vezes. Nossos direitos inalienáveis não vêm do governo, mas do nosso Criador”, afirma o pastor à Folha.

“Agora, os EUA são uma nação cristã? Somente se o povo seguir e obedecer a Deus”, diz o religioso. “Somos uma mistura de culturas, temos muitas crenças e religiões. Mas é inegável que nossas raízes históricas foram formadas pelo cristianismo”, afirma o pastor, que é próximo do governo Trump.

Hamrick participa do documentário “By Dawn’s Early Light” (com a primeira luz da aurora, verso do hino americano), produzido pela chamada “Força-tarefa para Eliminar Viés Anticristão”. Trata-se de uma iniciativa da Casa Branca que apresenta “o viés sistêmico contra cristãos e pessoas de fé no Departamento de Justiça do governo Joe Biden“.

A igreja de Hamrick foi investigada pela Receita Federal em 2023 por supostamente apoiar um candidato, algo que instituições isentas de impostos são proibidas de fazer nos EUA. O pastor classificou o episódio de perseguição religiosa. “Fui alvo do governo Biden porque fiz um sermão sobre a eleição de 2020. Não pedi voto [em Trump], apenas mostrei as diferenças entre os partidos e incentivei as pessoas a votar de acordo com seus valores”, diz.

Para o historiador Alan Taylor, da Universidade da Virgínia, os conservadores que falam em uma fundação cristã dos EUA estão enganados. “Isso não significa que a religião não foi importante, mas a ironia é que [os principais fundadores] não eram pessoas particularmente religiosas. Entretanto, para instar o povo a apoiar a revolução, essas elites frequentemente apelavam a valores cristãos.”

Taylor, autor de uma série de livros sobre a formação dos EUA, lembra que a Constituição americana “não menciona Deus em lugar algum”.

“A única coisa que diz é que o governo federal não pode interferir na vida religiosa. E existe um evento apócrifo em que um civil pergunta a Alexander Hamilton, um dos principais fundadores: por que não incluíram Deus na Constituição? Sua resposta foi: ‘Nós esquecemos!’.”

Terras indígenas e colônias em expansão

A divergência entre o significado da religião na fundação dos EUA é apenas uma das várias discordâncias sobre os mitos fundadores do país.

Tradicionalmente, afirma-se que a revolta dos americanos contra os ingleses começou após a criação de novos impostos pelo Parlamento britânico, no qual os colonos não eram representados. Nas últimas décadas, porém, uma nova onda da historiografia vem colocando mais ênfase no papel dos povos indígenas na independência americana —especificamente, das terras ocupadas por esses povos.

“A questão da terra estava no centro da disputa entre as colônias e a Grã-Bretanha e também na criação e expansão dos EUA como um novo país”, diz Colin Calloway, historiador britânico-americano do Dartmouth College, em New Hampshire. “Elas eram colônias de povoamento. Dependiam da remoção, de uma maneira ou de outra, dos povos indígenas para que a terra pudesse ser usada pelos colonos.”

As tensões com a Coroa britânica começaram após a Guerra dos Sete Anos. Em um conflito global, a Inglaterra conquistou uma ampla faixa de terra na América do Norte, principalmente às custas da França, onde uma série de povos indígenas viviam. Para os colonos, isso significava uma nova oportunidade de expansão desimpedida.

“As populações [das colônias] estavam dobrando a cada 22 anos”, afirma Taylor. “Em uma sociedade agrária como a da época, pais querem que seus filhos tenham o mesmo padrão de vida que eles tiveram como agricultores. Isso significa que vai ser preciso ter o dobro de terra para a próxima geração.”

Para a Coroa, entretanto, isso significaria mais custos militares a fim de proteger esses colonos das outras potências europeias e de retaliações indígenas. Por isso, em 1763, o rei George 3º proibiu a expansão das colônias para o oeste dos Apalaches e reconheceu aquela terra, que já era alvo de intensa especulação imobiliária, como uma reserva indígena.

“Pessoas como George Washington, que tinham muitos investimentos em terras [ainda controladas por] indígenas, começam a ver o Império Britânico não como aliado, mas como obstáculo. E Washington lutou pelos britânicos [na Guerra dos Sete Anos]. Ou seja, há uma linha direta entre a tentativa britânica de proteger de alguma forma a terra indígena e a Revolução Americana”, diz Calloway.

Taylor afirma que é importante entender a questão da terra em conjunto com outros fatores que desencadearam a revolução. “As elites coloniais se sentiam deixadas de fora das decisões que afetavam seu futuro”, diz.

“Eles achavam que o Parlamento e a Coroa agiam unilateralmente. A criação de novos impostos é uma dessas ações que ofendiam os líderes coloniais, e a restrição a novas expansões é outra.”

Para Calloway, depois da independência, “a expansão americana avançou como um rolo compressor sobre a terra indígena”. “Os povos nativos são vistos como um obstáculo. Então, em 1830, o Congresso aprova a Lei de Remoção Indígena, que deporta de 80 mil a 100 mil pessoas para o oeste do rio Mississippi. Hoje chamaríamos isso de limpeza étnica.”

A ênfase no colonialismo, na expulsão indígena e em outros capítulos menos heroicos da história americana está sob ataque do governo Trump. Em 2025, o presidente criticou museus do Instituto Smithsonian por retratarem os EUA de forma que ele considerou excessivamente negativa, afirmando que davam destaque demais à escravidão e a outros aspectos sombrios do passado do país.

Trump publicou ainda um decreto com o título “Restaurando a Verdade e a Sanidade à História Americana”. O texto diz que muitas instituições culturais atacam “as incríveis conquistas” dos EUA e determina que o governo altere descrições de monumentos públicos que “critiquem os americanos do passado”.

“Para muitos americanos, é difícil arranhar a história do país e examinar o lado sombrio”, diz Calloway. “E eu acho que o que acontece hoje é que o governo e seus aliados querem usar a história como arma, como ferramenta para reforçar suas ideias —de que a história deveria ser necessariamente patriótica.”

Fonte: Folha de São Paulo

RELATED ARTICLES

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

- Advertisment -spot_img

Outras Notícias