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HomeMundoEquador: emergência vira governo sob Daniel Noboa - 20/06/2026 - Sylvia Colombo

Equador: emergência vira governo sob Daniel Noboa – 20/06/2026 – Sylvia Colombo

O presidente do Equador, Daniel Noboa, mantém 45,9% de aprovação, segundo pesquisa da agência Comunicaliza. O dado ajuda a explicar um dos fenômenos políticos mais interessantes da América Latina atual: a emergência deixou de ser apenas uma resposta a crises e passou a se transformar, cada vez mais, em forma de governo.

Pela segunda vez desde que chegou ao poder, o presidente equatoriano decretou a existência de um conflito armado interno. A decisão veio poucos dias depois do anúncio de um novo estado de exceção em parte do país e reforçou uma tendência que marca sua administração desde janeiro de 2024, quando uma onda de violência levou o governo a declarar guerra às organizações criminosas.

A violência que assola o Equador é real. O país vive há anos uma deterioração acelerada da segurança pública, impulsionada pela expansão do narcotráfico, pela disputa de rotas internacionais de drogas e pela crescente capacidade operacional de grupos criminosos. Nenhum governo pode ignorar essa realidade.

Mas reconhecer a gravidade da situação não elimina uma questão fundamental: o que acontece quando instrumentos concebidos para momentos extraordinários começam a se tornar recorrentes?

Estados de exceção, conflitos armados internos e poderes emergenciais existem para enfrentar circunstâncias excepcionais. Sua legitimidade deriva justamente de seu caráter temporário. Quando passam a se repetir, deixam de representar apenas uma resposta à crise e começam a redefinir a relação entre governantes, instituições e cidadãos.

A nova decisão de Noboa também ocorre em um momento em que o presidente continua enfrentando dificuldades para transformar popularidade em governabilidade. Como acontece com frequência na América Latina, vencer eleições e manter apoio popular não significa necessariamente construir consensos institucionais duradouros.

Negociar com o Legislativo, produzir acordos políticos e fortalecer capacidades estatais é um processo lento. Governar por decretos de emergência oferece resultados políticos mais imediatos. Permite transmitir à população a sensação de ação permanente diante de uma ameaça que continua mobilizando medos legítimos.

Nos últimos dias, o assassinato de Carlos Alberto Suástegui, apontado pelas autoridades como uma figura importante do crime organizado, voltou a levantar dúvidas sobre a eficácia da estratégia oficial. O episódio expôs uma pergunta incômoda: até que ponto a retórica da guerra tem sido acompanhada por um fortalecimento efetivo das instituições encarregadas de investigar, processar e desarticular organizações criminosas?

A questão é particularmente relevante porque a popularidade presidencial permanece relativamente sólida. Os 45,9% registrados pela Comunicaliza sugerem que uma parcela significativa dos equatorianos continua disposta a apoiar medidas extraordinárias em nome da segurança.

O fenômeno não é exclusivo do Equador. Em El Salvador, Nayib Bukele construiu uma das lideranças mais populares do continente apoiado na ideia de que uma crise excepcional exigia respostas excepcionais. A redução da violência consolidou seu apoio popular, mas também alimentou debates sobre os custos institucionais da concentração de poder e do enfraquecimento dos mecanismos de controle democrático.

O Equador não é El Salvador. Tampouco a situação dos dois países pode ser comparada de forma mecânica. Ainda assim, ambos ilustram uma tendência regional: quanto mais profunda a sensação de insegurança, maior a disposição dos cidadãos para aceitar a ampliação dos poderes do Executivo.

A pergunta que paira sobre o governo Noboa não é se o combate ao crime organizado deve ser uma prioridade. Evidentemente deve. A questão é outra: depois de sucessivos estados de exceção e de uma nova declaração de conflito armado interno, o Equador está fortalecendo as instituições que sustentam o Estado de Direito ou apenas se acostumando a viver sob a lógica permanente da emergência?

A resposta a essa pergunta pode ser mais importante para o futuro do país do que qualquer decreto presidencial.


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Fonte: Folha de São Paulo

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