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Como é a vida dos ucranianos em prisões russas – 10/05/2026 – Mundo

Os carcereiros contam que o jovem tenente ucraniano falava demais. “Eles o chamavam de ‘o tagarela’ porque discutia sem parar”, afirma um ex-agente dos serviços penitenciários russos. Então o espancaram sem piedade.

“Ele tinha lesões extensas, hematomas nas nádegas e na parte posterior das coxas”, diz Alexei, o ex-agente penitenciário russo que trabalhava naquele momento na unidade médica.

Segundo Alexei (nome fictício), o tenente ucraniano foi privado de atendimento médico adequado. Morreu na prisão russa em outubro de 2022 e é possível que seu corpo, gangrenado, tenha sido enterrado como indigente. Alexei nunca soube seu nome.

Milhares de soldados e civis ucranianos foram ou estão sendo submetidos a violência física e psicológica em centros de detenção na Rússia e na Ucrânia ocupada, segundo indicam cerca de dez testemunhos coletados pela agência de notícias AFP, além de relatórios de múltiplas ONGs, meios de comunicação e da OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa).

Ex-prisioneiros e familiares de detidos, tanto militares quanto civis, dizem terem sido “quebrados” nas prisões. Três ex-membros da administração penitenciária russa, que desertaram e fugiram do país, confirmaram casos de violência, para os quais, segundo um deles, “tudo era permitido”.

A AFP conversou com um desses ex-guardas e teve acesso aos testemunhos de outros dois por meio de Vladimir Osechkin, diretor da Gulagu.net, organização que documenta abusos no sistema penitenciário russo.

Por motivos de segurança, não são reveladas as identidades desses três homens, verificadas com documentos oficiais, nem os nomes das prisões onde trabalharam.

Essas pessoas descrevem uma violência generalizada e os esforços sistemáticos de Moscou para ocultá-la. Segundo as autoridades ucranianas citadas em um relatório da OSCE, 89% das pessoas libertadas afirmam ter sofrido maus-tratos em cativeiro, incluindo violências sexuais em 42% dos casos.

A maioria dos detidos foi privada de comunicação com o mundo exterior, como acontecia na época do gulag (campo de concentração soviético). “Eles conseguem fazer você acreditar que ninguém está te esperando”, diz Iaroslav Rumiantsev, 30, ex-soldado ucraniano que sobreviveu a três anos e três meses de cativeiro.

Consultada pela AFP, a administração penitenciária russa não respondeu. Em 2025, o presidente Vladimir Putin afirmou que Moscou trata os prisioneiros de forma humana.

Permissão sem restrições

O ativista russo Vladimir Osechkin, 44, que vive na França sob proteção policial, afirma que os detidos ucranianos se encontram presos em um sistema organizado e controlado pelo poderoso serviço de segurança (FSB) e pela administração penitenciária, com a cumplicidade dos órgãos judiciais.

Os abusos e agressões em detenção, frequentes desde 2014 com a guerra entre Kiev e os separatistas apoiados por Moscou, multiplicaram-se com a invasão russa da Ucrânia lançada em fevereiro de 2022.

Nos últimos quatro anos foi possível confirmar a morte em prisões russas de pelo menos 143 prisioneiros ucranianos, entre eles seis civis, informa a Promotoria ucraniana.

Em fevereiro de 2026, cerca de 7.000 prisioneiros de guerra ucranianos estavam em mãos russas, segundo o presidente Volodimir Zelenski. A isso se somam 15,3 mil civis “detidos de forma ilegal”, segundo dados enviados à AFP no início de março pelo escritório ucraniano de direitos humanos.

No primeiro dia da invasão, em fevereiro de 2022, Serguei (nome fictício) era membro das forças especiais da administração penitenciária russa. Logo seu chefe propôs à sua unidade realizar missões em prisões onde estavam detidos ucranianos.

“Antes da primeira missão, o chefe do nosso grupo reuniu o pessoal e explicou que as normas em vigor não se aplicariam mais no trabalho com prisioneiros de guerra. Em outras palavras, deu permissão para usar força física sem restrições. E ninguém seria responsabilizado”, afirma.

“Na prática, o chefe nos disse: ‘Trabalhem com dureza, não temam nada'”, diz.

Contrário à invasão da Ucrânia, Serguei diz que se recusou a participar dos atos violentos, pedindo demissão em 2022 e deixando a Rússia. “Não teria conseguido viver com esse peso nem olhar meus filhos nos olhos.”

Muitos de seus colegas, afirma ele, estavam contentes por poder usar “toda a violência que quisessem” e iam às missões “com alegria”.

Segundo a Promotoria ucraniana, a presença de prisioneiros ucranianos foi constatada em pelo menos 201 centros de detenção em 49 regiões da Rússia, incluindo o Extremo Oriente russo, além de 116 locais de encarceramento na Ucrânia ocupada.

Baratas e ratos crus

Rumiantsev, da Marinha ucraniana, foi feito prisioneiro em Mariupol em maio de 2022 após se render junto com as tropas de Kiev entrincheiradas na usina de Azovstal. Ele passou por quatro prisões russas antes de ser libertado em 2025.

Primeiro esteve brevemente na de Olenivka, na região de Donetsk, onde uma explosão causou a morte de pelo menos 50 prisioneiros ucranianos em julho de 2022 e deixou dezenas de feridos.

Posteriormente foi transferido para o centro de detenção de Taganrog, no sudoeste da Rússia, considerado um dos piores centros de tortura.

Na sua chegada, conta que, junto com cerca de 250 prisioneiros, atravessou correndo um corredor formado por guardas que os espancavam.

Era um “comitê de boas-vindas” descrito também por outros detidos e uma prática já utilizada nos “campos de filtragem” na Chechênia durante a última guerra naquela república do Cáucaso.

Depois, as pancadas continuaram. Rumiantsev descreve os detidos praticamente reduzidos a um estado de animais aterrorizados. “Homens que defenderam sua terra, que vão à academia, homens fortes… Os destroem”, diz.

Para resistir, ele e outros prisioneiros se agarravam à sua identidade e ao seu passado, repetindo para si mesmos: “Sou um ser humano e tenho valor”.

O ODIHR (Escritório de Instituições Democráticas e Direitos Humanos) da OSCE publicou em setembro de 2025 um relatório com base em testemunhos de cerca de 200 ex-prisioneiros ucranianos.

Segundo esse relatório, os métodos de tortura incluem choques elétricos, inclusive nos genitais, ataques de cães, estupros, simulações de execução, incluindo falsos enforcamentos, exercícios físicos extremos e a obrigação de permanecer em posições dolorosas.

O ex-agente penitenciário russo Vitali (nome fictício) aponta que presos comuns também podem participar das violências, utilizadas segundo ele para obter falsas confissões em investigações judiciais, assim como para coletar informações militares ou recrutar colaboradores sob coerção.

A comida também é utilizada como ferramenta de castigo. Rumiantsev afirma que, em certos momentos, tinha apenas “dois minutos” para comer, como um animal, sob ameaça de pancadas.

Em uma investigação publicada em dezembro de 2025, um ex-prisioneiro disse à Human Rights Watch que chegou a ingerir baratas de sua cela pela fome que sentia, enquanto outros detidos comiam ratos crus.

A isso se somam regras de submissão como a proibição de olhar os guardas nos olhos e castigos constantes. Rumiantsev lembra de um: permanecer de pé durante 16 horas seguidas sem permissão para ir ao banheiro, a ponto de alguns detidos urinarem nas próprias roupas.

Também menciona experimentos, como quando os guardas os fizeram dar as mãos e aplicaram choques elétricos para observar “quantas pessoas sentiam dor”.

Marcado na carne

Em 2023, Alexei era membro de uma unidade médica em uma prisão russa. Naquele momento, relatou seu cotidiano ao diretor da ONG Gulagu.net, Osechkin, durante conversas de várias horas às quais a AFP teve acesso.

Alexei explica como, em sua prisão, os prisioneiros ucranianos eram espancados com tubos de aquecimento de polipropileno porque são materiais que “não quebram”.

Depois dessas surras, os detidos recebiam cuidados superficiais, mas, após cada visita à enfermaria, deviam dizer: “Obrigado à Federação Russa por esses cuidados”.

Em algumas ocasiões, as equipes médicas participavam diretamente das agressões.

Segundo uma investigação do veículo RFE/RL, médicos russos marcaram as palavras “Glória à Rússia” no abdômen de um prisioneiro ucraniano, Andrii Pereverziev, enquanto ele era operado na prisão. Após sua libertação em 2025, teve que se submeter a outra operação para remover esse lema marcado em sua carne.

Para o ex-soldado Rumiantsev, “a ideia” por trás desses abusos é submeter e traumatizar os militares para que não voltem a se opor a Moscou.

Junto com seus companheiros, era obrigado a cantar canções soviéticas na prisão. E se não cantasse “alto o suficiente ou afinado”, recebia um castigo.

Em 2024, foi transferido para uma colônia penitenciária menos dura na região russa de Udmúrtia. Os guardas continuavam batendo neles, mas com menos violência; de qualquer forma, ele diz ter se “acostumado” a ter “a cara arrebentada”.

Durante sua detenção, também encontrou carcereiros mais humanos que se mostravam arrependidos e afirmavam que algum dia “a Rússia pedirá desculpas”.

O filho de Natalia Kravtsova, Artem, combatente da brigada nacionalista Azov, foi capturado em Mariupol em maio de 2022. Um ano depois, essa mulher de 52 anos recebeu confirmação da Cruz Vermelha de que ele estava preso, sem mais informações.

Desde então não soube de mais nada. Nem sequer está completamente certa de que Artem, 33, ainda esteja vivo. A cada anúncio de troca de prisioneiros, Kravtsova sente uma esperança que depois acaba frustrada. “Embora por fora eu esteja tranquila, por dentro eu ardo”, diz.

Quando se consegue localizar um detento, às vezes é possível utilizar plataformas online da administração penitenciária russa para escrever para ele, embora isso exija um número de telefone russo.

O ex-soldado Rumiantsev recebeu uma única carta pouco antes do fim de seu cativeiro. Diz que foi o único momento em que chorou na prisão. “Vi aquelas primeiras palavras dirigidas a mim de uma maneira tão calorosa. Só minha família fala comigo assim. Meus olhos se encheram de lágrimas e eu tremi. Então meu amigo colocou a mão no meu ombro e me disse: ‘Isso significa que você ainda é um ser humano'”.

Aksinia Bobruiko, 39, uma ucraniana refugiada na Alemanha, luta para obter notícias de sua mãe, uma civil chamada Olga Baranevska.

Em 15 de maio de 2024, Baranevska, 62, vivia em Melitopol, na Ucrânia ocupada, quando desapareceu. Dois meses depois, sua filha soube através de amigos na região que ela estava presa.

Bobruiko disse à AFP que sua mãe era professora em Melitopol antes da invasão de 2022 e que se recusou a colaborar com as novas autoridades russas “por razões ideológicas”.

Em novembro de 2024, Olga Baranevska, que sofre de graves problemas de saúde, foi condenada a seis anos de prisão por suposta posse de “explosivos”. Graças a um contato na zona ocupada, Bobruiko conseguiu receber provas de vida, embora sem informações detalhadas.

Processos judiciais

Após atravessar uma depressão, Aksinia Bobruiko recuperou “a força” documentando histórias de civis detidos e colaborando com a ONG “Noumo, Sestri!” (“Vamos, irmãs!”), que ajuda mulheres encarceradas e seus familiares.

A organização foi criada por uma ex-detenta que atravessou um inferno: Liudmila Gusseinova, 64.

Ela passou três anos e 13 dias detida em Donetsk, no leste da Ucrânia ocupada, de 2019 a 2022. Diretora de um abrigo para crianças, foi presa por suas posições pró-Ucrânia.

Durante seu encarceramento nunca conseguiu se comunicar com sua família, contou à AFP, e apenas conseguiu receber notícias através de um advogado que via brevemente a cada três ou seis meses.

Para não perder a sanidade, escreveu um diário que escondia no forro de sua bolsa. “Ali eu registrei minhas emoções”, explica. Também redigiu conversas imaginárias com seus amigos.

Após sua prisão, Gusseinova passou 50 dias em Izoliátsia, uma prisão de Donetsk de terrível reputação. Em uma cela vigiada permanentemente por câmeras, devia permanecer de pé o dia todo sob ameaça de castigo.

Os guardas a submeteram a humilhações com um saco de tecido sobre a cabeça. Segundo ela, alguns militares chamavam regularmente prisioneiras e prisioneiros para que os “entretivessem”.

Depois de Izoliátsia, foi transferida para o centro de detenção de Donetsk, onde dividiu uma pequena cela fria com cerca de vinte reclusas comuns.

As condições de higiene eram “espantosas”: colchões sujos “cheios de insetos”, prisioneiras com tuberculose, HIV ou eczema, e banheiros em “um buraco”.

Um dia foi levada diante de um investigador. “Ele colocou um lenço no nariz de tanto que meu corpo fedia. E disse a outro dos investigadores: ‘Não chegue perto dela, não está vendo que ela está cheia de percevejos?’. E era verdade: eu tinha percevejos correndo por cima de mim”, lembra.

Para frear esse “sistema de tortura e submissão”, o ativista Osechkin reclama processos judiciais internacionais contra seus responsáveis e que sua identidade seja revelada.

“Vamos encontrá-los e punir a todos”, promete Serguei.

Fonte: Folha de São Paulo

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