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Argentina: Mecanismo de Milei é ataque contra liberdade – 14/02/2026 – Sylvia Colombo

Ao lançar a “Oficina de Respuesta Oficial” (conhecida pela sigla ORO), mecanismo destinado a responder a reportagens e conteúdos que o governo considera incorretos, o presidente argentino, Javier Milei, institucionalizou um estilo de confronto com a imprensa que já vinha marcando sua trajetória política.

Afinal, foi o presidente argentino quem, ainda nos primeiros meses de governo, disse que “não odiamos suficientemente o jornalismo“.

Nos primeiros dias de funcionamento, a estrutura já produziu episódios que ajudam a dimensionar seu alcance. O site de verificação Chequeado denunciou que a conta oficial do governo atribuiu ao veículo afirmações que não constavam na infografia original sobre a reforma trabalhista que vinha sendo debatida pelo Senado. O conteúdo foi republicado pelo próprio Milei e disseminado nas redes sociais.

Segundo o Chequeado, a conta oficial classificou de falsas dez afirmações que não estavam no material publicado originalmente, apesar de a infografia ter usado como base um texto oficial do projeto aprovado.

O episódio revela algo além de uma disputa entre governo e imprensa. Mostra a tentativa de transformar o Estado em ator direto na verificação pública da informação ao mesmo tempo em que disputa a autoridade dos meios que exercem esse papel.

Quando o governo passa a atuar como fiscal da informação sobre si mesmo, a discussão deixa de ser apenas sobre fatos e passa a ser sobre quem define o que será aceito como verdade pública.

Desapareceram do centro da cena os intermediários, as empresas jornalísticas, os donos de jornais. A guerra agora é contra os próprios jornalistas, muitos deles, infelizmente, hoje com contratos de trabalho precarizados.

A atuação da “Oficina de Respuesta Oficial” tem revelado esse outro traço preocupante: a personalização do confronto. Em vez de limitar-se a discutir dados, a estrutura passou a expor nominalmente os profissionais e menos os meios de comunicação.

O caso mais emblemático foi o da jornalista María O’Donnell, a mais importante do país e que atua em distintos veículos. Em uma participação televisiva, perguntas feitas por ela foram posteriormente classificadas de falsas em canais ligados ao governo.

Mesmo intervenções pontuais passaram a ser alvo de respostas oficiais que, em vez de esclarecer, funcionam como demonstrações públicas de força. A lógica se aproxima da exposição e da advertência simbólica a quem produz informação crítica.

O caso Chequeado aparece como o exemplo bruto dessa dinâmica. Ao listar afirmações que não estavam na infografia original sobre a reforma trabalhista do governo e classificá-las de falsas, a conta governista apresentou uma versão distorcida do que havia sido publicado. A discussão deixou de ser sobre dados e passou a ser sobre quem tem poder para impor sua versão como legítima.

Essa mudança reflete uma ampla transformação. Antes, o conflito entre governos e imprensa se dava, sobretudo, no campo regulatório ou econômico. Hoje ocorre dentro do fluxo das redes sociais. Em um ambiente em que boa parte do público consome apenas manchetes ou fragmentos, a acusação pública de falsidade já fragiliza a credibilidade do emissor original.

Experiências semelhantes existem em outros países, caso do Brasil, com o portal Brasil Contra Fake, e o México, com o Infodemia. A ideia é de disputar a legitimidade da informação produzida por outros atores no próprio ambiente digital em que ela circula.


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Fonte: Folha de São Paulo

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