Poucas horas depois de um homem armado invadir o jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca, causar a retirada dos presentes e encerrar o evento, Donald Trump e aliados já demonstravam ter uma solução para a segurança presidencial.
Eles argumentam que o caos provou, de uma vez por todas, a necessidade do novo salão de festas da Casa Branca que Trump vem defendendo. A reforma, considerada ambiciosa e ao mesmo tempo controversa, é desejo antigo do presidente, que com frequência reclama da falta de espaços para receber convidados na residência oficial, em Washington.
“Este evento nunca teria acontecido com o ‘Salão de Baile Militarmente Ultrassecreto’ atualmente em construção na Casa Branca”, escreveu Trump nas redes sociais neste domingo (26). “Que seja construído o mais rápido possível!”
Ele voltou ao assunto em entrevista ao programa “The Sunday Briefing”, da Fox News, falando sobre os desafios de garantir a segurança do Washington Hilton, o hotel onde o tiroteio ocorreu. O salão proposto é alvo de uma ação judicial que tem freado o andamento do projeto —e frustrado o presidente.
Para Trump e dezenas de seus apoiadores mais proeminentes, a interrupção caótica do jantar ajudou a ilustrar por que o processo que tenta barrar a construção do salão deveria ser arquivado. Os advogados do presidente já haviam argumentado que um juiz deveria permitir o avanço do projeto porque ele melhoraria a segurança e permitiria eventos maiores no complexo da Casa Branca.
Mas o esforço coordenado para vincular a segurança do jantar à disputa pelo projeto do salão ignorou em grande medida a realidade do evento anual e as circunstâncias da invasão.
A Associação de Correspondentes da Casa Branca, que organiza o jantar, é uma organização independente cujos membros são jornalistas que cobrem a Casa Branca. O grupo enfrentou críticas intensas este ano por convidar o presidente —como faz anualmente— diante dos esforços de Trump para investigar jornalistas e processar veículos de mídia que não cobrem sua gestão de forma favorável.
Não ficou claro se a organização teria concordado em realizar o evento nas dependências da Casa Branca, mesmo que houvesse espaço disponível, por preocupações com a independência da imprensa.
O jornal New York Times parou de comprar assentos no evento em 2008, citando o valor da independência editorial e o distanciamento das celebridades e políticos que comparecem regularmente.
O jantar é apenas um entre dezenas de eventos privados a que presidentes tradicionalmente comparecem fora da Casa Branca. O Washington Hilton, que sedia o evento há décadas, é um complexo amplo construído para comportar múltiplos grandes eventos. É o mesmo local onde John Hinckley Jr. tentou assassinar o presidente Ronald Reagan em 1981.
A Associação de Correspondentes realiza o jantar desde 1921, e todo presidente da era moderna compareceu a pelo menos um deles, embora Trump não o tenha feito durante seu primeiro mandato.
Há pouco mais de uma semana, um juiz federal escalou o impasse jurídico em torno do salão ao ordenar a suspensão das obras acima do solo, afirmando que o presidente parecia determinado a contornar uma ordem anterior ao redefinir o projeto como uma reforma crítica de segurança nacional.
O juiz Richard J. Leon afirmou que adicionar elementos como janelas à prova de balas e outros recursos de segurança padrão presentes em toda a Casa Branca não isentava o projeto das suas determinações. “Segurança nacional não é um cheque em branco para prosseguir com uma atividade de outra forma ilegal”, escreveu Leon.
Leon já havia decidido que Trump não tinha autoridade para reformar unilateralmente a Casa Branca sem aprovação do Congresso. Um tribunal federal de apelações permitiu que a construção continuasse enquanto analisa a decisão de Leon.
Os planos de Trump preveem uma estrutura de cerca de 8.400 metros quadrados no local onde ficava a Ala Leste. Ele afirmou que o projeto será financiado por US$ 400 milhões (R$ 1,99 bilhão na cotação atual) em doações privadas, mas se recusou a divulgar a lista de doadores. O Times identificou alguns deles.
Trump tem reclamado repetidamente da falta de espaço para eventos internos na Casa Branca e propôs o salão como forma de sediar reuniões maiores.
Ex-incorporador imobiliário, Trump apressou a construção com pouco tempo para revisão pública e, em sua publicação recente, voltou a criticar o processo que tenta bloqueá-la como uma campanha “ridícula” movida por “uma mulher passeando com seu cachorro, que não tem absolutamente nenhuma legitimidade para entrar com tal ação”.
O processo, escreveu ele, “deve ser arquivado imediatamente” e “nada deve ser permitido interferir” na continuidade das obras.
Ele fez comentários semelhantes sobre a necessidade de um salão na Casa Branca em entrevista à jornalistas no sábado (25) à noite, poucas horas depois de ser retirado às pressas do palco no Washington Hilton pela equipe do Serviço Secreto.
No sábado, não havia detectores de metais nas entradas do Hilton, e um perímetro seguro só estava estabelecido mais para dentro do hotel, próximo ao salão de eventos. Um vídeo de segurança divulgado por Trump mostra o atirador correndo por um ponto de controle antes de ser detido antes de conseguir entrar no salão.
“Não é um prédio particularmente seguro”, disse ele sobre o Hilton, antes de partir para seu discurso habitual sobre a necessidade do seu salão. “É vidro à prova de balas. Precisamos do salão.”
Apesar dos reveses judiciais, em cada etapa tanto Leon quanto um painel de juízes do tribunal de apelações permitiram que o presidente continuasse construindo enquanto o litígio prosseguia.
A National Trust for Historic Preservation, organização americana de preservação do patrimônio histórico, que entrou com ação no ano passado para barrar o salão, argumentou que o projeto requer aprovação do Congresso. Os advogados da organização também disseram que a ênfase do presidente nos novos recursos de segurança nacional tem sido um esforço estratégico para contornar outras questões sobre a legalidade do projeto.
Um porta-voz do National Trust não respondeu aos pedidos de comentário sobre os esforços de Trump de vincular os eventos do jantar da mídia à construção do seu salão.




