Pioneiro da guerra moderna, o marechal prussiano Helmuth von Moltke escreveu em 1871 que “nenhum plano de operações se estende com qualquer grau de certeza além do primeiro encontro com as principais forças inimigas”.
A guerra lançada por Estados Unidos e Israel contra o Irã, que completa três semanas neste sábado (21), encara uma nova e perigosa fase que deverá colocar à prova a assertiva de militar germânico.
Até aqui, trata-se de um conflito aeronaval, em que a superioridade da coalizão agressora de saída parece cumprir roteiro previsível.
Tal sucesso, ofuscado pelo fato de que o Irã mantém capacidade considerável de retaliação e por golpes pontuais como a retirada de ação do porta-aviões USS Gerald Ford, é ainda de difícil aferição precisa a essa altura para além da propaganda de lado a lado.
Inicialmente, veio o golpe de decapitação do regime teocrático no poder desde 1979, com a morte do líder supremo, Ali Khamenei, e de diversas autoridades —que segue em curso. Ato contínuo, a campanha de supressão de defesas antiaéreas e a degradação de capacidades ofensivas.
A isso seguiu-se a destruição sistemática do poder naval e de infraestrutura militar e ligada ao programa nuclear dos aiatolás, talvez o único “casus belli” razoável apresentado por Donald Trump e Binyamin Netanyahu até aqui.
A dupla tem divergido publicamente, como no ataque israelense a instalações de gás natural do Irã, que levou a um pandemônio no mercado de energia global na quinta-feira (18). Fica claro que eles têm objetivos que correm em paralelo, ainda que possam convergir.
O Estado judeu quer obliterar a teocracia e abrir caminho para uma revolta que leve à instalação de um governo que tolere a existência de Israel. No horizonte visível, apenas a parte da degradação do grau de ameaça é viável. No Líbano, busca finalizar o Hezbollah.
Já Trump varia de direção, e o foco da semana que passou esteve em garantir a reabertura do estreito de Hormuz. O rebuliço da quinta elevou a pressão sobre a Casa Branca, dado o risco de um choque energético que muitos já veem como inevitável.
Pela via marítima controlada por Teerã passam um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo. Os EUA já começaram a agir na região, processo que pode durar um mês.
Mas os ataques a posições iranianas no estreito não removem a ameaça de minas marítimas e dos mísseis e drones que, como a campanha em conta-gotas de Teerã contra todo o Oriente Médio mostra, seguem à disposição dos aiatolás.
Diante desse cenário de ameaças persistentes, Trump tem tergiversado ao criticar os aliados da Otan por falta de apoio a uma guerra para a qual não foram chamados.
Nos conflitos anteriores dos EUA na região, havia graus diferentes de ajuda, o que permitia alívios pontuais em operações e dava uma impressão de legitimidade.
Essa nova fase pode ficar ainda mais perigosa porque presume a preparação para algum tipo de ação terrestre, além do risco de escalada nos ataques ao setor de energia. Não uma invasão ao estilo Guerra do Iraque de 2003, mas algo pontual no estreito ou na ilha de Kharg, porto de saída de 90% do petróleo do Irã.
Elevando a expectativa há o deslocamento de ao menos dois grupos com 5.000 fuzileiros navais ao todo, que devem chegar nas próximas semanas. É o tipo de recurso para agir em solo, ainda que em número limitado.
Isso colocará mais escolhas difíceis sobre a mesa de Trump, considerando que para Netanyahu a continuidade da guerra é um fim em si. Se quiser de fato tentar tomar controle do golfo Pérsico, terá de assumir o risco de ver Moltke comprovado.
Na noite de sexta-feira (20), o americano voltou a dizer que “estamos perto dos nosso objetivos” e que considerava “desacelerar” as operações militares. Sugeriu que a proteção de Hormuz é problema de quem compra petróleo de lá. Pode ser um ensaio de desembarque retórico, mas sua inconstânia não permite assertividade.
Fora isso há os fatores imprevisíveis, como a eventual entrada dos países árabe sob fogo retaliatório no conflito e a incógnita sobre o que farão os houthis pró-Irã do Iêmen, cujas capacidades podem atrapalhar a segunda rota de saída de petróleo da região, pelo mar Vermelho.
Para o Irã, é uma questão de esperar. O regime avalia que sua sobrevivência por ora está garantida, restando saber em quais condições. E isso bastará para cantar vitória.




