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Alemanha: Foi operação estúpida, diz biólogo sobre baleia – 09/05/2026 – Mundo

A baleia que comoveu a Alemanha e boa parte do planeta nas últimas semanas provavelmente morreu. Essa é a opinião de diversos especialistas europeus, que descrevem a operação de desencalhá-la de um banco de areia e soltá-la no mar do Norte como um desastre.

“As pessoas que acreditaram nessa, perdão pelo termo, estúpida missão de resgate, vão achar que, por mágica, Timmy está livre e feliz. Mas eu acho que ele morreu”, diz à Folha Peter Madsen, professor do departamento de biologia da Universidade de Aarhus, na Dinamarca.

“O problema não é apenas o fato de terem rebocado uma baleia por dois dias, maltratando-a, quando, na minha opinião, ela deveria ter sido deixada em paz para morrer. É também não haver dados de rastreamento. Muitas das pessoas que fizeram isso vão alegar que, por milagre, a baleia está bem novamente”, diz Madsen, especialista em monitoramento animal.

Em seu campo de pesquisa, ele desenvolve dispositivos para acompanhar o comportamento alimentar de animais selvagens, seu gasto energético, em ambientes naturais e alterados.

Após semanas de hesitação e pressão popular, as autoridades alemãs permitiram que uma iniciativa privada desencalhasse Timmy de águas rasas perto da ilha de Poel, no norte do país, e a levassem em uma balsa especial até o mar aberto, na altura da Dinamarca.

Três condições para operação foram exigidas pelo Ministério do Meio Ambiente de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, o estado alemão com jurisdição sobre a área do encalhe: que o animal não sofresse, que a operação fosse registrada em vídeo e que Timmy fosse monitorado após sua liberação.

Bancada por dois milionários alemães, a operação, a rigor, não cumpriu nenhuma das exigências. Não foi divulgado o registro completo da missão, a baleia se debateu contra as paredes da balsa, e os dados do GPS instalado em seu dorso ganharam uma versão por dia, durante a última semana.

Timmy, Hope ou também chamada apenas de baleia, a depender de quem conta a história, primeiro teria transmitido apenas sinais vitais e, mais tarde, poucos sinais de localização porque o GPS só funciona quando a baleia volta à superfície do mar para respirar.

Madsen contesta todas as versões. “É possível adquirir rastreadores no mercado, projetados para baleias, que fornecem a posição de GPS e o comportamento de mergulho do animal. Se eles não tiverem usado um desses, é claro que não vai funcionar”, diz o especialista, quando o repórter conta a especulação veiculada no tabloide Bild, o mais popular da Alemanha, de que a equipe teria usado equipamentos para monitorar cachorros.

“Quanto à alegação de que o dispositivo poderia transmitir sinais vitais, depende do que se entende por sinais vitais, mas não existe nenhum rastreador comercial capaz de enviar esse tipo de informação de baleias.”

O biólogo também confronta a tese de que longos mergulhos de Timmy estariam impedindo seu rastreamento. Baleias-jubarte, em geral, mergulham por dez minutos. “Se colocaram nele um localizador de qualidade, fabricado por uma das empresas comerciais que produzem aparelhos muito confiáveis, você veria todo o trajeto. Você saberia a cada 10 minutos onde a baleia está.”

Madsen afirma que mais de cem baleias, jubartes e outras, contam com monitoramento no mundo atualmente. É uma operação, em termos de pesquisa marinha, banal, o que aumenta as dúvidas em torno da competência da missão privada. Não à toa, Till Backhaus , ministro de Meio Ambiente de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, que começou a semana dizendo ter certeza de que a baleia estava viva, reconheceu que o estado já começa a avaliar a possibilidade de uma ação legal contra os responsáveis pela operação.

Estima-se que o resgate tenha custado cerca de € 1,5 milhão (R$ 8,6 milhões). “Se eles realmente se importam com baleias e o meio ambiente marinho, deveriam investir esse dinheiro na remoção de redes de pesca. Isso ajudaria muito mais”, diz Madsen. Timmy, no primeiro dos quatro encalhes que protagonizou no litoral alemão, em março, tinha um pedaço de rede de pesca emaranhado em sua boca.

Daniela von Schaper, especialista do Greenpeace que acompanhou as primeiras tentativas de desencalhe, também critica o local de liberação da baleia, próximo a Skagen, cidade mais setentrional da Dinamarca.

“É muito grave, porque esse é um dos pontos com maior tráfego de navios da Europa. Foi realmente uma péssima decisão soltar a baleia ali”, diz a ambientalista, que, passado mais de um mês de sua participação no caso, ainda recebe ameaças.

Como outras entidades envolvidas inicialmente nos esforços de resgate, o Greenpeace se posicionou contra a remoção quando ficou evidente que Timmy procurava um lugar para descansar por estar seriamente debilitado. A ONG e seus integrantes se tornaram alvo de toda uma sorte de ativistas, influencers e especialistas de ocasião.

O bicho virou um fenômeno nacional e logo mundial, mas também uma questão de difícil administração.

“Começou com uma baleia, e então tivemos uma pequena janela de oportunidade para falar sobre a proteção dos oceanos; mas depois não se tratava mais da baleia nem dos oceanos: tratava-se, na verdade, de quem estava dizendo qualquer coisa, uma plataforma para as pessoas demonstrarem seu ódio, simplesmente gritarem suas opiniões.”

“A maioria das pessoas não se sente confortável com o fato de que os animais morrem e que, às vezes, essa morte leva tempo. Quando um mamífero grande e imponente, deitado em águas rasas, morre diante das câmeras de TV, as pessoas ficam tristes, e eu também fico triste, mas faz parte da vida a gente morrer”, diz Madsen.

As autoridades alemãs chegaram a concordar com “cuidados paliativos” para Timmy, mas acabaram cedendo à pressão popular e à oferta da missão privada milionária. “Só porque ricos querem pagar por algo não significa que seja uma boa ideia, né?”

Fonte: Folha de São Paulo

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