Quando pensamos em autoritarismo na América Latina, nos vêm as imagens de generais de uniforme, tanques nas ruas, jornais explicitamente censurados e opositores presos ou desaparecidos. Lembranças importantes para compreender o continente e como chegamos até aqui.
Mas o autoritarismo de hoje parece operar em outra lógica. Parte das instituições democráticas é preservada enquanto pouco a pouco se reduz a capacidade da sociedade de fiscalizar e cobrar o poder.
O que mudou foi a engenharia do autoritarismo, e diferentes instituições passam a atuar de forma coordenada para concentrar poder sem romper formalmente com a ordem democrática.
Sem depender, necessariamente, do fechamento do Congresso, da suspensão das eleições ou da instalação de uma ditadura formal, o autoritarismo convive com eleições periódicas, sistema de justiça, imprensa e Constituições.
Essa leitura é compartilhada por dezenas de organizações reunidas na Juntanza Latino-Americana sobre Proteção.
Um manifesto divulgado pelo grupo mostra que leis criadas para combater organizações criminosas passam a atingir movimentos sociais. Estados de exceção se tornam permanentes. Instrumentos de inteligência ampliam seu alcance. O sistema de Justiça é mobilizado para desgastar lideranças comunitárias. Plataformas digitais potencializam campanhas coordenadas de difamação. Grandes projetos econômicos avançam desrespeitando consultas públicas previstas nas legislações nacionais e internacionais.
Há variações na combinação desses fatores nos diferentes países. El Salvador implementou um estado de exceção com apoio popular ao concentrar esforços em uma política de segurança que encarcera de forma massiva. No Peru, sucessivos governos responderam a protestos sociais com militarização. No Equador, o combate ao narcotráfico ampliou a presença militar na vida civil. Na Argentina, cresce o número de decretos que concentram decisões no Executivo.
Em comum, os processos compartilham a lógica de ampliar poderes do Estado enquanto diminuem a capacidade da sociedade de monitorá-lo e de questioná-lo.
Nesse contexto, defensoras e defensores de direitos humanos se tornam alvos preferenciais. O relatório anual da Front Line Defenders documentou pelo menos 358 assassinatos de integrantes desse grupo em 2025, incluindo 165 na Colômbia, 43 no México e 22 no Brasil.
A maior parte das vítimas atuava na defesa da terra, do ambiente, dos povos indígenas e de comunidades tradicionais. Mais do que episódios isolados, o documento mostra um padrão regional. Quem protege territórios confronta interesses ligados à mineração, ao agronegócio e a grupos armados, atores que disputam controle territorial e a política institucional.
A legitimidade pública das lideranças de direitos humanos é atacada em campanhas de desinformação, processos judiciais, monitoramento digital e ameaças. Os discursos oficiais classificam organizações sociais de inimigas do desenvolvimento ou da segurança nacional.
A repressão já não precisa demolir a democracia para funcionar. Ela preserva sua arquitetura institucional enquanto as instituições passam a operar contra aqueles que deveriam proteger. E essa transformação torna o autoritarismo mais difícil de reconhecer e de enfrentar.
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