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Venezuela: Brasileiro mobiliza ajuda para encontrar pai – 02/07/2026 – Mundo

Pelas redes sociais, a família de Félix Tovar, 70, tenta mobilizar doações de ferramentas que ajudem voluntários a escavar os escombros da padaria onde se acredita que ele estava há uma semana, no momento dos terremotos na Venezuela.

Félix é venezuelano e tem residência permanente no Brasil, para onde emigrou com a família há quase 20 anos. O empresário dividia-se entre os dois países. Seu filho Daniel Medina, 28, brasileiro-venezuelano, tem se mobilizado do exterior para buscar informações e insumos.

O relato da família se assemelha ao de muitos outros parentes de vítimas na região costeira de La Guaira, que carecem de máquinas e equipamentos para buscar seus parentes e que contam com voluntários para fazer as buscas.

Daniel e a irmã, Elibel, 38, têm se organizado desde o dia da tragédia. “O que temos desde o dia 1 são voluntários, alguns que nem sequer têm família aqui; não tivemos ajuda do Estado, nenhuma”, diz Elibel, que hoje mora no Chile e viajou para a Venezuela. Ela conversou com a reportagem na frente dos escombros do que era a padaria La Almendrina, no setor de Playa Grande.

Félix estava prestes a ir para o Chile ver a filha e o neto. Como viajaria pelo Aeroporto Internacional Simón Bolívar, perto de La Guaira, estava hospedado na cidade, que conhecia como a palma da mão. Um recepcionista da pousada onde ele ficava, cujo edifício não foi destruído, contou à família que Félix havia ido à padaria poucos minutos antes dos terremotos.

As famílias ali presentes dizem acreditar que cinco pessoas ainda estejam sob os escombros do estabelecimento. Na noite de quarta-feira (1º), equipes espanholas apareceram no local com equipamentos de medição de temperatura que indicaram que há ao menos dois vivos.

Ao lado da padaria está um hotel conhecido na região, o Marriott. No momento do terremoto, várias pessoas estavam reunidas no restaurante, no piso inferior que desabou, para assistir ao jogo do Brasil contra a Escócia na Copa do Mundo. Há muitos venezuelanos que torcem pelo Brasil, não só pela proximidade geográfica ou pela fama do futebol brasileiro, mas também porque a comunidade venezuelana no país é cada vez maior.

Há alguma chance de que Félix esteja soterrado no hotel. Junto à operadora de celular, sua família conseguiu descobrir que o último sinal de seu aparelho foi registrado às 19h19 do dia do terremoto. E foi localizado justamente na região da padaria e do hotel.

Quando a reportagem esteve ali, os voluntários tinham acabado de se retirar. Estavam há três dias trabalhando praticamente sem dormir. “Tudo que temos usado é doado, por meio de mobilização nas redes sociais. E também temos que cuidar das coisas aqui, porque às vezes as roubam”, relata a filha.

Nos primeiros dias a família também foi ao Bolipuerto, o porto da cidade transformado em necrotério a céu aberto, para tentar localizar um corpo que pudesse ser de Félix. “Primeiro vimos as fotos. Então fomos ver todos os corpos, que estão expostos no sol. Quando eu fui eram 130 corpos. Temos familiares que foram a todos os hospitais e a todos os centros de feridos. Não o encontramos.”

Após oito dias da tragédia, as esperanças de encontrar alguém vivo diminuem radicalmente, ainda que alguns casos excepcionais reavivem a esperança. Voluntários e familiares estão exaustos e em desespero pela rápida decomposição dos corpos acelerada pelo calor.

“Tenho forças”, diz Elibel, emocionada. “Acho que muitos vivem o mesmo, mas a incerteza é dolorosa. O que faz com que me sinta melhor é saber que há pessoas que nem sequer são meus familiares e que estão aí. Estão dando tudo para buscar uma pessoa que não é sua família.”

Em 1999, quando a família ainda estava na Venezuela, todos eles foram afetados pelo chamado “desastre de La Guaira”, uma semana de fortes chuvas que levaram a inundações e deslizamentos de terra e mataram milhares, com um número total de vítimas nunca esclarecido pelo Estado.

Na ocasião, Félix saiu de casa para levar dinheiro e comida a uma funcionária que trabalhava com eles quando a água tomou conta da estrada e ele teve de abandonar o carro. Por cinco dias, sua família não teve notícias dele. Até que ele conseguiu retornar.

É disso, entre muitas outras coisas, que os filhos se lembram enquanto lutam para achar o pai. Eles dizem que nunca o abandonariam, sejam qual forem as circunstâncias.

Fonte: Folha de São Paulo

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