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O chefe da sala
Donald Trump chegou atrasado a uma sessão sobre crescimento econômico em Évian. Macron começou a reunião sem ele. O presidente dos EUA chegou, parou no topo da mesa ao entrar e disse, em tom de piada: “Eu sou o chefe.” Os outros líderes do G7 riram. Ninguém discordou.
É essa imagem —não a dos comunicados, nem das fotos de família no lago Léman— que fica do G7 de 2026. O grupo das sete maiores economias do mundo, mais a União Europeia, passou três dias em Évian organizando a cúpula em torno do calendário, do humor e da vontade de um único homem. O resultado está nos documentos, na escolha dos convidados e até na data do encontro.
O ANIVERSÁRIO QUE VIROU PAUTA
Comece pelo calendário. A cúpula deveria ter começado no domingo (14), data do aniversário de 80 anos de Trump, que teve uma luta de MMA organizada no jardim da Casa Branca. O presidente francês, Emmanuel Macron, ajustou as datas para acomodá-lo. Trump chegou a Évian só na segunda-feira (15) e foi recebido por Macron com um aperto de mão rápido —bem mais curto que o habitual “cabo de guerra” que o presidente americano costuma impor a outros líderes.
Foi com a primeira-dama Brigitte Macron que Trump reservou o tratamento de sempre: um aperto de mão prolongado, de quase 15 segundos, que viralizou nas redes sociais e dominou parte da cobertura da chegada.
O aniversário não ficou restrito ao protocolo de chegada. Ao longo da semana, mais de um líder fez do tema um assunto público: o canadense Mark Carney, ao deixar uma entrevista coletiva em Évian, contou a jornalistas, satisfeito, que tinha dado um presente de aniversário a Trump e que “ele gostou muito” —sem revelar o que era. Zelenski e Putin, dois líderes em guerra um contra o outro, telefonaram separadamente para parabenizá-lo. Durante as reuniões de trabalho, Trump foi reiteradamente bajulado.
Não é exagero dizer que o G7 de 2026 foi parcialmente desenhado em torno da data de nascimento de um presidente. Acontece com frequência menor em encontros bilaterais. Entre sete democracias que se apresentam como guardiãs da ordem multilateral, é mais raro —e mais revelador.
DOCUMENTOS SOB MEDIDA
A engenharia diplomática para manter Trump na sala foi além do calendário. Macron abandonou a ideia de um comunicado final único. O modelo vigorou desde a criação do G7. Ele optou por uma sequência de declarações temáticas, divulgadas ao longo dos três dias. A fórmula não é nova na era Trump: foi usada em Biarritz, em 2019, e repetida no Canadá em 2025. Em Évian ela se mostrou, mais uma vez, menos um recurso de organização do que um airbag para as contradições americanas.
Funcionou, em parte. O texto sobre Ucrânia e Rússia, assinado por Washington, surpreendeu por reconhecer avanços de Kiev no campo de batalha e prometer reforço a sanções contra o setor de petróleo e gás russo —um tom que o governo Trump vinha evitando.
Mas o mesmo documento revela o preço da unidade: para justificar novas medidas contra Moscou, os líderes escreveram que “este é o momento adequado para avançar com medidas adicionais, já que o presidente Trump fechou um acordo que apoiamos para reabrir o estreito de Hormuz”. Um crédito pessoal, nominal, dado a Trump dentro de um documento que deveria expressar posição coletiva. Raramente uma declaração de cúpula menciona um único líder pelo nome ao justificar a posição do grupo todo.
QUEM NÃO BAJULA, QUEM EVITA ATRITO
O contraste fica mais nítido quando se olha para os convidados. Brasil, Índia, Coreia do Sul, Quênia, Egito, Catar e Emirados Árabes Unidos estiveram em Évian a convite de Macron. É uma ampliação do G7 que analistas já descrevem como estratégia de “redundância”: se Washington se torna um parceiro imprevisível, o grupo busca outras fontes de gás, petróleo, alimentos e legitimidade diplomática para não depender de um só fornecedor de estabilidade.
Nem todos os convidados escolheram a mesma postura. Lula discursou sobre o recuo da solidariedade internacional e o Brasil terminou a cúpula aderindo a apenas 3 dos 8 documentos temáticos divulgados. Endossou os textos sobre câncer, narcotráfico e proteção de menores no ambiente digital, mas não firmou declarações sobre parcerias internacionais para o desenvolvimento, combate ao Ebola, tráfico de migrantes, minerais críticos e crescimento econômico equilibrado.
Brasília atribui a recusa a textos redigidos, segundo o próprio governo, para não desagradar a Washington ou para evitar temas como mudança climática e dívida externa. A Índia também manteve distância de parte da agenda proposta pelos anfitriões. Já outros convidados, como Quênia e Coreia do Sul, adotaram tom mais conciliador, alinhado à pauta francesa.
Mas discordar tem preço, e o preço se paga em silêncio, não em represália explícita. Na foto oficial do encontro, Trump passou perto de Lula sem saudá-lo —episódio que a assessoria brasileira tratou como irrelevante, e que talvez seja mesmo irrelevante; o significativo não é o gesto, mas a ausência de qualquer expectativa de que fosse diferente. Ninguém em Évian se sentiu no direito de exigir cordialidade de Trump. Essa é, talvez, a métrica mais precisa do poder que ele exerce sobre o grupo: não o que ele faz, mas o que os outros deixam de cobrar dele.
A MULTIPOLARIDADE QUE NÃO COMPARECEU
Há uma leitura mais ampla por trás dessa coreografia, e ela importa mais do que qualquer episódio isolado em Évian. Nos últimos anos, formou-se a percepção de que o mundo caminhava para a multipolaridade, com China, Rússia, potências médias do Sul Global e blocos alternativos como o Brics ganhando peso ao lado de um Ocidente que perdia o monopólio que teve no pós-Guerra Fria.
Évian sugere outra coisa: que mesmo dentro do bloco que mais deveria simbolizar esse equilíbrio distribuído —sete das maiores democracias do planeta, mais a União Europeia—, o que se vê é a gravidade de um homem só.
A ironia é dura. O G7 representa, segundo estimativas recentes, mais de um quarto do PIB mundial em paridade de poder de compra e quase metade dos gastos militares do planeta. Tem dinheiro, tem exércitos, tem instituições.
E ainda assim organiza datas de cúpula, redige comunicados e escolhe convidados em função do calendário e do temperamento de um único líder. Se os países mais ricos do mundo, aqueles que, em tese, têm mais alavancas para resistir, preferem o caminho da acomodação, qual sinal isso manda aos que têm muito menos margem de manobra?
Para quem acompanha de fora —e aqui me incluo, como tantos observadores que cobriram cúpulas anteriores do G7— o que mudou não foi a personalidade de Trump, conhecida desde o primeiro mandato. Mudou a disposição do resto do mundo em neutralizá-la. Em 2018, o G7 tentava conter Trump dentro das regras do grupo. Em 2026, é o grupo que se reorganiza em torno dele.
China e Rússia continuam de fora dessa mesa —não foram convidadas, nem precisariam ser. A ausência das duas não significa, porém, que a multipolaridade tenha vencido. Significa apenas que, por ora, ela perdeu até para os que se diziam seus principais fiadores.
Frase da semana
Ninguém sabe o que é, mas é muito forte.
No radar
O que monitorar até a próxima quinta-feira:
- Acordo Irã-EUA: assinado na quarta (17), no Palácio de Versalhes, em encontro entre Trump e Macron —o Irã confirmou ter assinado eletronicamente. Agora começa a fase mais incerta: o teste do cumprimento. Os próximos 60 dias serão de negociação sobre o programa nuclear iraniano, e o Irã tem 30 dias para restabelecer o tráfego no estreito de Hormuz. Resta saber também como vai se comportar Israel e se o acordo resiste à primeira crise.
- Conselho Europeu (18 e 19): cúpula trimestral que reúne os chefes de Estado e de governo dos 27 países da União Europeia para definir prioridades políticas, em Bruxelas. Zelenski abre os trabalhos; os líderes devem avançar a abertura do primeiro bloco de capítulos de adesão da Ucrânia e da Moldávia à UE, marco depois de mais de um ano de impasse.
- Conselho de Agricultura e Pescas da UE (22 e 23): em Luxemburgo, discussão da Política Agrícola Comum 2028-2034, tema sensível para exportadores como o Brasil.
- Ucrânia: A guerra continua sem trégua, com a Rússia intensificando ataques à infraestrutura civil e energética enquanto as negociações de paz tentam renascer.
- Copa do Mundo: Brasil começou mal, mas não foi o único grande a decepcionar. Inglaterra surpreendeu e virou também uma das favoritas, com França e Argentina.
Fora da pauta
“The World: A Brief Introduction”, de Richard Haass (Penguin Press, 2020) – Presidente do Council on Foreign Relations por quase duas décadas, Haass escreveu uma cartilha concisa sobre como funcionam —e como vêm se desgastando— as instituições que organizam a ordem internacional: G7, ONU, FMI, OMC. Não é um livro sobre Trump nem sobre Évian, mas explica com clareza didática por que essas estruturas foram desenhadas para resistir a personalismos, e por que, cada vez mais, falham nisso.




