Donald Trump desistiu de abocanhar um fundo público, que ele queria secreto, calculado em US$ 1,8 bilhão, com o qual recompensaria seus apoiadores extremistas “injustamente perseguidos”. Como o descalabro suscitou reações imediatas na Justiça e no Congresso americanos, engavetou-se a ideia. Mas ficou o ultraje.
Inaceitável normalizar a ação de grupos radicais tatuados com suásticas, disseminadores de ódio e dispostos a arrancar sangue em defesa de ideias que julgam ser únicas e irretorquíveis. Atuando numa espécie de marginalidade social, eles semeiam uma violência que os EUA não podem esquecer nem minimizar, ainda mais nos 250 anos da sua independência.
A ensaísta americana Deborah Baker comprova esplendidamente a assertiva em seu sexto livro, “Charlottesville: An American Story” (Graywolf Press). Nascida nessa pacata cidade do sul dos EUA, Baker decidiu ir fundo para entender o que se passou por lá de 11 a 12 agosto de 2017, um fim de semana dedicado ao Dia das Mães. Havia boatos de que o assalto aconteceria, mas não se deu crédito. A turba extremista chegou ao centro de Charlottesville com afrontas e gritos de guerra e, em uma hora, mergulhou a cidade no caos.
O protesto teve como palavras de ordem “Unir a Direita”, ou seja, juntar neonazistas, supremacistas brancos, membros da Ku Klux Klan e gangues diversas, inicialmente para rejeitar a remoção da estátua de um general confederado, Robert E. Lee, de uma praça local. Mas o objetivo maior foi ostentar o poder da força bruta.
O momento mais trágico se deu quando o carro de um neonazista investiu em alta velocidade contra uma aglomeração. James Field Jr. feriu dezenas de pessoas e matou Heather Heyer aos 32 anos. Resta na memória a justificativa de Joe Biden para se candidatar à Presidência, em 2019: queria recuperar a “alma da nação” depois do horror vivido em Charlottesville.
Baker explora contradições que têm a ver tanto com a gênese da nação quanto com o país polarizado hoje. Charlottesville é terra de Thomas Jefferson (1743-1826), um dos pais da pátria, principal autor da Declaração de Independência, terceiro presidente americano e criador da Universidade da Virgínia. Em que pese a vasta cultura desse homem, ele não alforriou escravos. E, com a negra Sally Hemings, manteve um relacionamento abusivo que gerou seis filhos bastardos (mais tarde, reconhecidos como dele).
Curioso notar como a sociedade escravocrata se manteve na aurora daquele novo tempo, que reivindicava justiça, democracia, liberdade e soberania. O que hoje leva a autora a se perguntar: “Afinal, quais os mitos que nos sustentam como nação?”.
Ela também recupera a vinda a Charlottesville, nos anos 1930, de um emissário do poeta americano Ezra Pound (1885-1972), ardoroso fã de Benito Mussolini (1883-1945). Pound comparou o ditador fascista a Jefferson em um de seus livros mais polêmicos. O emissário em questão chegou à cidade com a ideia de, nada mais, nada menos, reanimar o ódio racial.
Imagino que Deborah Baker aprendeu muito sobre a sua cidade ao longo da pesquisa. Pôde conferir que o fascismo não é um ponto na linha do tempo, mas um fenômeno histórico ativo. Há uma década, o extremismo mais repulsivo mostrou a cara em Charlottesville. E continua pronto para mostrar, seja lá em nome do quê, com um diferencial: hoje é perdoado e pode até ser premiado.
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