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Israel fez o mundo voltar a odiar judeus, diz Finkelstein – 10/06/2026 – Mundo

Israel “colhe o que plantou”: há um aumento nos episódios de antissemitismo no mundo porque os israelenses cometem um genocídio em Gaza e porque organizações judaicas tentam sufocar qualquer crítica às políticas do Estado judeu.

A opinião vem de Norman Finkelstein, que não foge de polêmicas. “Uma das maiores conquistas de Israel foi conseguir restaurar o ódio do mundo pelos judeus”, diz o cientista político americano, que veio ao Brasil para o relançamento de sua obra “A Indústria do Holocausto”, pela Autonomia Literária. No livro, Finkelstein acusa organizações judaicas de usar o Holocausto para imunizar Israel contra críticas e obter indenizações indevidas. O cientista político participou de mesa na Feira do Livro.

“O Holocausto provou ser uma arma ideológica indispensável. Por meio de seu uso, uma das potências militares mais formidáveis do mundo, com um histórico horrendo de direitos humanos, apresentou-se como um Estado ‘vítima’. Dividendos consideráveis decorrem dessa vitimização espúria —em particular, imunidade a críticas.” O senhor escreveu isso há 26 anos. Ainda se aplica?

Algo fundamental mudou depois do 7 de Outubro [data em que o grupo terrorista Hamas atacou Israel, dando início à guerra ainda corrente]. Sempre que Israel cometia crimes significativos sob o direito internacional, encontrava uma maneira de recorrer ao Holocausto nazista para conseguir algum tipo de imunidade. Depois do 7 de Outubro, durante o primeiro mês, ficavam dizendo que havia sido o maior massacre de judeus desde o Holocausto nazista. Depois, pararam de dizer isso. Perceberam que haviam esgotado as imunidades do Holocausto nazista.

Além disso, acredito que, no fundo, estavam pensando: talvez não devêssemos dizer isso porque as pessoas vão começar a dizer que estamos cometendo um genocídio em Gaza. Vai ser um tiro pela culatra. O que é verdade, porque em dezembro a África do Sul foi à Corte Internacional de Justiça. Então, não era útil falar sobre o Holocausto nazista porque Israel não queria falar sobre genocídio. Eu acho que a indústria do Holocausto acabou.

O Tribunal Penal Internacional tem um mandado de prisão para Netanyahu, mas também para três líderes do Hamas (dois já mortos). Na sua visão, tanto os líderes do Hamas quanto Netanyahu cometeram crimes contra a humanidade?

É uma questão de definição. Se você ataca civis em grande número, é um crime de guerra. Mas devemos aplicar o mesmo padrão moral ao Hamas e a Israel? Há um padrão legal, e eu não o contesto. Atrocidades massivas foram cometidas no 7 de Outubro. Mas há certas conclusões do relatório que Israel divulgou que estão erradas. O Hamas não usou o estupro como arma no 7 de Outubro.

As mortes de civis israelenses não são contestadas.

Atrocidades de magnitude significativa ocorrem. Não estou questionando esse ponto. Mas, moralmente, acho que existe um padrão diferente. Houve no Caribe, no Haiti, revoltas massivas de escravos, eles mataram dezenas de milhares de brancos. A história não os condena. Quantas vezes você ouviu as revoltas de escravos serem condenadas por matar brancos? Eu não ouvi.

Mas isso justifica matar civis?

Eu nunca disse que é justificado. Mas não vou subir em um palanque e repreender o povo de Gaza. Acho muito presunçoso fazer isso. E aqueles que se autodenominavam abolicionistas no meu país nunca condenaram as revoltas de escravos. Não sinto que tenho estatura moral para repreender o Hamas ou para dar lições a eles sobre direitos humanos.

Há um cessar-fogo seguidamente violado em Gaza e um plano de paz desenhado por Donald Trump. Qual é o futuro de Gaza?

Não há futuro. Acabou. É como o Gueto de Varsóvia durante a Segunda Guerra Mundial, ele foi se fechando, apertando as fronteiras, até as pessoas sufocarem. Há alguns dias, Netanyahu disse em uma reunião que agora Israel controla 60% de Gaza e a plateia começou a gritar 100%. Ele disse, não se apressem, vamos agora mirar em 70%.

Bem, Gaza já estava entre as populações mais densas do mundo, e agora essa população vai ser confinada a 30% de Gaza. Isso é sufocamento literal. Eles vão criar condições tão horríveis que as pessoas farão como aquelas pessoas de países da África fugindo de barco para a Itália. Quando os barcos começarem a afundar, Israel não vai aceitá-las e ninguém vai impor sanções ao país para forçá-lo. Israel espera que elas descubram um jeito de sair e querem que haja pressão internacional suficiente para que alguns países as aceitem.

Por muitos anos, o senhor foi uma voz solitária criticando as políticas de Israel nos EUA. Agora, cada vez mais acadêmicos e ativistas estão condenando as ações de Israel. O ambiente mudou?

Provavelmente, neste momento nos EUA, é mais difícil dizer algo pró-Israel do que anti-Israel. Fico feliz que as pessoas estejam criticando Israel, mas não posso dizer que isso exija muita coragem. Depois do 7 de Outubro, em um mês, Israel havia perdido a opinião pública. O único grupo etário que ainda é pró-Israel são os republicanos acima de 50 anos. Trump disse, supostamente, a Netanyahu [em telefonema no último dia 1º]: todo mundo odeia você e Israel. Isso é verdade.

O senhor vê alguma chance de Trump abandonar o apoio a Israel?

Não. Ele precisa abrir o estreito de Hormuz porque os indicadores mostram que estamos à beira de um colapso global. Trump não dá a mínima se o Irã tem armas nucleares. Mas ele não pode deixar o Irã ter armas nucleares porque seria uma derrota histórica para os EUA.

Meu palpite é que eles vão encontrar uma maneira de abrir o estreito e vão continuar falando sobre as armas nucleares até o mandato dele acabar. Uma vez que Hormuz estiver aberto, o Irã vai desaparecer das manchetes. Como a Groenlândia. Eles vão dizer: vamos resolver a questão das armas nucleares, e nunca vão resolver. Porque não há possibilidade de chegarem a um acordo sobre isso. Qualquer acordo que Trump fizer sobre isso terá que ser nos termos do que Barack Obama tinha, ou pior.

Existe liberdade de expressão para criticar Israel nos EUA atualmente?

Nas universidades, ainda é um reinado de terror. Todo mundo está apavorado. Eles viram estudantes sendo suspensos, sendo privados do direito de participar da formatura, sendo expulsos e deportados.

O historiador do Holocausto Omer Bartov, que acusa Israel de estar cometendo um genocídio em Gaza, fez uma resenha do seu livro “A Indústria do Holocausto”. Para ele, seu argumento de que existe uma conspiração judaica internacional para lucrar com o Holocausto beira a paranoia e serve a antissemitas. Este é um argumento comum entre seus críticos: que, embora seu livro não negue o Holocausto, ele é instrumentalizado por antissemitas.

Ele dizer que Israel está cometendo genocídio também serve a antissemitas. Então por que ele escreveu o novo livro dele? Você não acha que há muitos antissemitas alemães dizendo: “está vendo, nós dissemos isso sobre os judeus”. Isso o impediu? Não.

A única diferença entre ele e eu é que, quando eu disse, isso exigiu alguma coragem. Ele está dizendo quando todo mundo está dizendo. Quando eu disse, ele liderou o bando me atacando. Você sabia que no New York Times, “Mein Kampf” [livro de Adolf Hitler] teve uma resenha melhor que meu livro?

Mas como o senhor responde à crítica de que seu livro é instrumentalizado por antissemitas?

É um problema. Mas a única novidade do meu livro era que eu disse em voz alta o que muita gente estava pensando. Todo mundo via que Israel estava usando o Holocausto nazista para todo propósito possível, incluindo conseguir dinheiro dos bancos suíços, dos franceses, dos alemães. Raul Hilberg, o maior historiador do Holocausto nazista, disse a mesma coisa que eu sobre os bancos suíços.

Houve um aumento nos ataques antissemitas nos últimos tempos. Como você o senhor vê isso?

Primeiro, muito disso é grosseiramente exagerado. Eu analisei os relatórios sobre antissemitismo nos campi universitários, que eles produziram para justificar a repressão à liberdade de expressão. Não havia nada ali.

Mas há um aumento nos ataques contra sinagogas e judeus

Há muita raiva e ressentimento contra os judeus agora. Então há um transbordamento natural porque Israel se autodenomina o Estado dos judeus. As pessoas não gostam do fato de que um genocídio está acontecendo e elas têm medo de dizer qualquer coisa sobre isso. Minha visão é: você colhe o que plantou. Esse ódio não é irracional. É uma reação justificável às organizações judaicas tentando reprimir a liberdade de expressão.

Mas há muitos judeus em todo o mundo que discordam do que está acontecendo, que não apoiam Netanyahu e estão sofrendo ataques antissemitas.

Parem de chamar Israel de Estado do povo judeu e não teremos esse problema. Se as organizações judaicas pararem de tentar chantagear as pessoas para que não critiquem Israel também vai resolver o problema. As pessoas nutrem sentimentos antijudaicos. Mas as pessoas nutrem estereótipos sobre todo mundo: sobre pessoas bonitas e feias, gordas e magras, altas e baixas, sobre chineses, japoneses, italianos, alemães.

Mas pessoas gordas não foram massacradas nos campos de concentração por serem gordas.

Uma vez que o preconceito transborda para algo pior, aí você tem motivos para estar mais do que preocupado. Mas isso não estava acontecendo depois da Segunda Guerra Mundial. Houve uma enorme onda de solidariedade aos judeus depois do que foi feito a eles. Uma das maiores conquistas de Israel foi conseguir restaurar o ódio do mundo pelos judeus.


Raio-x | Norman Finkelstein, 72

É cientista político e autor americano, conhecido por seus estudos sobre o conflito israelo-palestino e pela crítica à política de Israel nos territórios palestinos. Filho de sobreviventes do Holocausto, formou-se na Binghamton University e obteve doutorado em ciência política na Princeton University. É autor de livros como “A Indústria do Holocausto”, lançado no Brasil pela Autonomia Literária.

Fonte: Folha de São Paulo

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