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Crise de Starmer lembra que é melhor comprar briga – 12/05/2026 – Rui Tavares

Enquanto escrevo, o premiê britânico Keir Starmer luta pela sua sobrevivência política, o que é uma novidade: ao menos está lutando. Embora seja incerta a sua sorte, uma coisa é garantida: em torno dele vamos ver surgir mais um episódio da sempiterna batalha entre esquerdistas e centristas no campo progressista, cada um garantindo que o outro leva à derrota certa, seja por falta de convicções, seja por falta de consensos.

É um debate cansativo, porque ambos estão errados. Não me confundam: eu sou da esquerda, e de uma esquerda que não é centrista. Mas não é por achar que isso nos dá automaticamente mais chance de vitória e que um candidato centrista esteja automaticamente derrotado.

Além disso, lembro que ainda há não muito tempo Keir Starmer era um fiel escudeiro de Jeremy Corbyn, um dos líderes mais esquerdistas que os trabalhistas britânicos já tiveram, e que perdeu feio também.

Keir Starmer, por sua vez, ganhou como centrista uma maioria absolutérrima nas eleições parlamentares de há uns anos. E agora não só perde como arrisca levar consigo o seu partido. O que se passou? Segundo quem o conhece bem, Keir Starmer é pessoa de grande simpatia, excelentes intenções e bons princípios. Mas é incapaz de tomar decisões, mesmo tendo tido todas as condições para fazê-lo.

Está aí a raiz para o desdém com que agora os britânicos o tratam. Todos sabem que Starmer considera o brexit um erro e que, se pudesse fazê-lo sem custo, gostaria de ver o Reino Unido de novo na União Europeia. Mas prometeu não fazer nada para que tal acontecesse, por respeito às divisões da sociedade britânica. O resultado é que conseguiu que nenhum dos lados o respeitasse.

Nigel Farage, o grande responsável pelo brexit, por seu lado, tampouco é respeitado. Fui colega dele no Parlamento Europeu, saudávamo-nos nos corredores e fazíamos parte da mesma comissão, a que ele faltava quase sempre, e desde então ele já dizia que iria lutar para tirar o Reino Unido da União Europeia.

Na altura toda a gente ria. Hoje ninguém ri. O brexit pode ter sido um fracasso para o Reino Unido (até ele o admite, embora diga que é por não ter sido brexit que chegue) mas ninguém pode negar a Farage a capacidade de lutar: mais de metade do eleitorado o abomina; mas para os restantes ele é um herói.

Graças às bizarrias do sistema eleitoral britânico, se os partidos progressistas (e pró-europeus) não se juntarem numa aliança, é bem possível que Farage venha a ser o próximo primeiro-ministro de Sua Majestade o rei Charles 3º.

Mas então por que razão Starmer não quis lutar pelo regresso à União Europeia, quando estavam aí as suas convicções? Pela razão que prende muitos progressistas ao chegarem ao poder, e que se pode resumir numa frase: “é mais complicado do que parece”.

Claro que é sempre mais complicado do que parece! Mas se o líder progressista que tinha acabado de ganhar eleições se desculpa com isso, o fim já chegou ainda antes de começar. Para governantes progressistas, estar mais à esquerda ou mais ao centro é importante, mas a lição fundamental é: briguem.

Se você brigar, pode ganhar ou pode perder. Se não brigar, já perdeu.


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Fonte: Folha de São Paulo

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