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HomeMundoBloqueio dos EUA agrava crise em hospitais cubanos - 26/04/2026 - Mundo

Bloqueio dos EUA agrava crise em hospitais cubanos – 26/04/2026 – Mundo

O Hospital Docente Cirúrgico Miguel Enríquez, conhecido como La Benéfica, localizado no bairro do Cerro, afastado dos centros turísticos de Havana, já foi uma referência em Cuba, recebendo estudantes de diversos países da África e da América Latina. Hoje encontra-se em estado de precariedade e está entre os mais afetados pelo bloqueio dos Estados Unidos.

Quando a reportagem da Folha visitou o local, no começo de abril, o edifício estava sem eletricidade, iluminado apenas por luz natural. Dos 5 elevadores, 4 estavam desativados.

O que seguia funcionando era alimentado pelos geradores de emergência e reservado para casos urgentes. Os funcionários e pacientes eram obrigados a usar escadas para se deslocar pelos cinco andares do prédio principal.

O cenário, no entanto, não é isolado. Desde janeiro deste ano, Cuba enfrenta uma crise econômica e energética sem precedentes. O governo de Donald Trump intensificou as sanções contra a ilha e, após a captura de Nicolás Maduro, interrompeu o envio de petróleo da Venezuela, principal fonte de combustível cubana.

Washington passou a pressionar também países e empresas que abasteciam Cuba, sob ameaça de sanções, aprofundando o isolamento comercial da ilha. Agora o país enfrenta apagões cada vez mais longos, postos de gasolina vazios e inflação em alta, enquanto depende de ajudas humanitárias pontuais, insuficientes para atender uma população de cerca de 10 milhões de habitantes.

Em hospitais e farmácias estatais, o que antes já era escasso tornou-se praticamente inexistente, levando à suspensão de cirurgias, ao adiamento de tratamentos e ao agravamento das condições dos pacientes.

No La Benéfica, médicos ouvidos pela reportagem relatam trabalhar com o mínimo —sem luvas e sem seringas.

Os poucos medicamentos disponíveis chegam por meio de doações e de importações realizadas por Cuba, muitas vezes a custos elevados.

A cirurgiã plástica Yunai González Turca, 26, relata o impacto diário do bloqueio no hospital. “Os insumos básicos não chegam, os medicamentos se esgotam, e os cortes de energia interrompem serviços essenciais, além de comprometerem a refrigeração de medicamentos sensíveis”, diz.

Para lidar com a falta de recursos, ela e a equipe médica recorrem ao improviso. “Reutilizamos materiais quando é seguro, buscamos alternativas locais, adaptamos protocolos clínicos e trabalhamos com o mínimo indispensável. A eletricidade é suprida por geradores de emergência em algumas alas, embora nem sempre sejam suficientes”, relata.

Segundo a médica, os itens mais críticos em falta são anestésicos, antibióticos de amplo espectro, citostáticos para pacientes oncológicos, insulina e medicamentos para hipertensão.

Entre os insumos, além da falta de luvas e seringas, há escassez de produtos para suturas, materiais de esterilização, reagentes laboratoriais, gases e soluções intravenosas.

“Os [pacientes] mais vulneráveis são os oncológicos, que requerem tratamentos contínuos; as gestantes e os recém-nascidos, que dependem de cuidados especializados; e os idosos com doenças crônicas, que também têm sofrido muito”, constata González.

Fabián Pérez Alonso, 31, residente em gestão em saúde no Hospital Pedro Borrás Marfán, descreve o mesmo cenário de precariedade. Ele acrescenta que o embargo americano também tornou inviável, nos últimos anos, a obtenção de equipamentos e peças de reposição para aparelhos hospitalares.

“São aparelhos de primeira necessidade, que deveriam estar sempre disponíveis, mas hoje se tornaram um luxo”, afirma.

Do lado dos pacientes, a situação beira o desespero. Danischa Valdés, 12, está há três anos sem receber medicamentos do sistema público cubano. Diagnosticada com epilepsia e diabetes, ela relata: “Além dos remédios, eu deveria comer de três em três horas por causa da diabetes, mas faz meses que não temos comida em casa”.

Seu caso exemplifica como a crise ultrapassa os hospitais e atinge o cotidiano das famílias cubanas, sobretudo as mais pobres e vulneráveis.

A mãe de Danischa, Lala Valdés, 46, perdeu o emprego em janeiro em uma loja de roupas, em meio ao agravamento da crise econômica, e não consegue arcar com os preços das farmácias de rua improvisadas. A situação tem levado ao aumento da frequência das crises epilépticas da filha.

“Quando a levo ao hospital, é como se não adiantasse nada, porque eles não têm medicamentos para atendê-la”, diz.

No Hospital Pedro Borrás Marfán, o aumento da mortalidade tem se tornado visível. “Há mais complicações, internações prolongadas e mortes evitáveis. Não por falta de médicos, mas por falta de recursos. É doloroso ver um paciente piorar sabendo que o tratamento existe no mundo, mas não consegue chegar ao país”, desabafa Pérez. Seu relato se repete entre outros médicos cubanos ouvidos pela Folha.

Os profissionais contam seguir trabalhando improvisando soluções para manter o atendimento. A força para continuar, segundo González, vem do compromisso da população da ilha estabelecido desde a Revolução Cubana, em 1959.

“Cada paciente que atendemos nos lembra por que estamos aqui. A solidariedade entre colegas, o apoio da comunidade e a convicção de que a saúde é um direito nos sustentam. O que me move é a confiança nas pessoas, na capacidade de resistência e na certeza de que desistir nunca será uma opção”, diz a cirurgiã.

O sistema de saúde cubano, baseado em um modelo universal e gratuito é um dos pilares da revolução liderada por Fidel Castro. Ele já enfrentava dificuldades desde a pandemia.

A crise sanitária da Covid-19 provocou uma contração econômica superior a 10% do PIB, com impacto direto no turismo, uma das principais fontes de renda do país, e na entrada de divisas.

“Com a queda da entrada de dólares e euros, essenciais para financiar importações e conter a inflação, a capacidade de Cuba de adquirir bens básicos no exterior foi diretamente afetada”, explica Aline Pandolfi, professora de Serviço Social e do programa de pós-graduação em Política Social da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo).

Fonte: Folha de São Paulo

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