“Por que homens jovens estão indo para a direita?” era o título inicial desta coluna. “Você sabe responder?”, perguntou meu filho de 17 anos quando li em voz alta para ele e o irmão de 15. “Eu sei”, ele mesmo respondeu. “Porque a direita é mais legal.”
Ele se declara de esquerda, vai votar pela primeira vez e se incomoda com amigos que, sem opinião política formada, se aproximaram da direita pela lógica das redes sociais.
“Você não procura, aparece pra você. No Instagram começou a aparecer Nikolas Ferreira até eu bloquear”, disse o de 15. “As redes sociais parecem um jogo de tabuleiro em que eles criaram as regras e a gente não sabe jogar”, completou o mais velho.
Eles descrevem um processo de formação política que já não passa por escola, partidos ou imprensa. Mas pelo Instagram, YouTube e TikTok. A partir de idade, gênero e comportamento, sistemas de recomendação dessas plataformas oferecem sequências de vídeos que tratam quaisquer assuntos como polêmica ou piada.
A direita parece mais legal ao falar diretamente com homens jovens em uma linguagem simples e rápida. Humor, confronto, promessa de força individual. Sem mediação ou repertório para uma leitura crítica, resulta em adesão. A esquerda, em geral, explica, soa arrogante ou inadequada.
O que ouvi dos meus meninos tem sido estudado internacionalmente. Agradeço a eles por me motivarem a buscar dados.
Na eleição presidencial de 2022 na Coreia do Sul, pesquisas de boca de urna indicaram que homens jovens preferiram majoritariamente o conservador Yoon Suk-yeol, enquanto mulheres da mesma idade tenderam ao candidato de centro-esquerda, Lee Jae-myung. Em alguns recortes, a diferença entre eles chegou a cerca de 20 pontos percentuais. A eleição foi decidida por apenas 0,73 ponto.
Nos Estados Unidos, pesquisas de opinião, analisadas pelo think tank Brookings em 2024, mostram um afastamento crescente entre homens e mulheres jovens. Entre 18 e 29 anos, cerca de 40% das mulheres se identificam como liberais, frente a aproximadamente 25% dos homens. A pesquisa constatou que “as mulheres jovens são as mais preocupadas com temas como ‘assédio sexual, violência doméstica, abuso e negligência infantil e problemas de saúde mental’. Os homens, de modo geral, tendem a se concentrar mais em ‘competição, bravura e honra’”.
Mulheres jovens têm se preocupado com violações de direitos e igualdade. Parte dos homens jovens reage a isso. Reação organizada e amplificada por quem quer capturá-los politicamente.
Nos Estados Unidos, as redes têm contribuído para normalizar posições que, até pouco tempo, estavam fora do debate público. Vídeos que questionam o direito das mulheres ao voto circulam como humor, e vão acumulando milhões de visualizações e engajamento.
Em paralelo, iniciativas legislativas propõem regras mais rígidas de identificação eleitoral que podem dificultar o voto de mulheres que mudaram de nome depois do casamento. O que parece absurdo e disperso vai ganhando materialidade.
Não se trata apenas de divergência entre homens e mulheres da mesma geração, mas de uma disputa por formação política e expansão de base, conduzida por quem domina (e define) a linguagem das redes e opera com objetivos eleitorais.
Frustração, ressentimento e sensação de perda de lugar são mobilizados, como outras vezes na história, agora segmentados por gênero e amplificados pelas plataformas.
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