Por que um jovem seminarista presbiteriano de 36 anos e deputado estadual que a grande maioria dos americanos desconhecia até o ano passado tira o sono de assessores da Casa Branca?
Quando, perto da meia-noite da segunda-feira (16), o apresentador Stephen Colbert contou no ar que a rede CBS tinha censurado a exibição no canal aberto de uma entrevista com o texano James Talarico, ele convidou seu público a assistir no YouTube aos 15 minutos da conversa já gravada.
O vídeo já ultrapassou 6 milhões de visualizações e, nas primeiras 24 horas, a campanha de Talarico para o Senado havia recebido mais de US$ 2,5 milhões em novas doações.
Está em curso a votação antecipada para a eleição primária de 3 de março do Partido Democrata no Texas, que vai indicar candidatos para novembro. Talarico enfrenta uma amiga e popular deputada do Congresso, Jasmine Crockett, conhecida em Washington pela língua afiada contra adversários.
O Texas não escolhe candidatos presidenciais democratas ou elege senadores do partido desde os anos 1980. E há mais de 30 anos os republicanos dominam o Legislativo estadual.
Embora o presidente Trump tenha disparado várias vezes contra Jasmine Crockett com o mesmo insulto já aplicado a outras políticas e jornalistas negras –”baixo Q.I.”–, é a candidatura do suave Talarico, que estuda para ser pastor, a preocupação maior do presidente.
Trump fez do Texas o ponto de partida da batalha para prolongar a primazia republicana com redesenho de distritos eleitorais.
Os advogados da CBS teriam se assustado com a possibilidade de Stephen Colbert ser alvo da ira da Comissão Federal de Comunicações, que acaba de abrir uma investigação contra um talkshow da rede ABC por ter entrevistado Talarico.
O presidente da comissão, Brendan Carr, o mesmo que tentou tirar do ar Jimmy Kimmel, outro crítico do presidente, tem invocado a chamada “regra do tempo igual” para candidatos numa eleição, uma relíquia que precede a mídia digital e se aplica apenas a programas jornalísticos em canais abertos de rádio e TV.
Em julho passado, Talarico atingiu audiência nacional numa entrevista de duas horas e meia com Joe Rogan, anfitrião do podcast mais ouvido do mundo e apoiador entusiasmado da eleição de Trump, em 2024.
A principal mensagem do devoto político que cita a Bíblia com desenvoltura bate de frente com a base eleitoral republicana de cristãos nacionalistas, confirmada como crucial por pesquisas.
Talarico denuncia o nacionalismo cristão como antiamericano e nada cristão. Diz que a promiscuidade de religiosos com o poder político erode a força profética da religião. Ele lembra que aprendeu com o avô, um pastor batista, que Jesus cobrava duas coisas: amor a Deus e amor ao próximo.
“Não me conte suas convicções, mostre como trata o próximo e vou saber no que você acredita,” disse Talarico a Colbert, explicando por que luta pela separação entre Igreja e Estado, um princípio fundador da República americana, ameaçado hoje em vários estados, como o Texas, onde republicanos tentam forçar todas as escolas a instalar pôsteres com os dez mandamentos.
“Há 50 anos esta direita religiosa prega que os grandes problemas são o aborto e o casamento gay,” afirmou o seminarista, “dois temas nunca mencionados por Jesus e inexistentes na Bíblia”.
Qual outro país poderia se beneficiar com um James Talarico?
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